Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, junho 29, 2012

O 'custo Lula' Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Há menos de três anos, em 17 de setembro de 2009, o então presidente Lula apresentou-se triunfante em uma entrevista ao jornal “Valor Econômico”.
Entre outras coisas, contou, sem meias palavras, que a Petrobras não queria construir refinarias e ainda apresentara um plano pífio de investimentos em 2008.
“Convoquei o conselho” da empresa, contou Lula. Resultado: não uma, mas quatro refinarias no plano de investimentos, além de previsões fantásticas para a produção de óleo.
Em 25 de junho último, a Petrobras informa oficialmente aos investidores que, das quatro, apenas uma refinaria, Abreu e Lima, de Pernambuco, continua no plano com data para terminar. E, ainda assim, com atraso, aumento de custo e sem o dinheiro e óleo da PDVSA de Chávez.
Todas as metas de produção foram reduzidas. As anteriores eras “irrealistas”, disse a presidente da companhia, Graça Foster, acrescentando que faria uma revisão de processos e métodos. Entre outros equívocos, revelou que equipamentos eram comprados antes de os projetos estarem prontos e aprovados.
Nada se disse ainda sobre os custos disso tudo para a Petrobras. Graça Foster informou que a refinaria de Pernambuco começará a funcionar em novembro de 2014, com 14 meses de atraso em relação à meta anterior, e custará US$ 17 bilhões, três bi a mais. Na verdade, as metas agora revistas já haviam sido alteradas. O equívoco é muito maior.
Quando anunciada por Lula, a refinaria custaria US$ 4 bilhões e ficaria pronta antes de 2010. Como uma empresa como a Petrobras pode cometer um erro de planejamento desse tamanho? A resposta é simples: a estatal não tinha projeto algum para isso, Lula decidiu, mandou fazer e a diretoria da estatal improvisou umas plantas. Anunciaram e os presidentes fizeram várias inaugurações.
O nome disso é populismo. E custo Lula. Sim, porque o resultado é um prejuízo para os acionistas da Petrobras, do governo e do setor privado, de responsabilidade do ex-presidente e da diretoria que topou a montagem. 

Tem mais na conta. Na mesma entrevista, Lula disse que mandou o Banco do Brasil comprar o Votorantim, porque este tinha uma boa carteira de financiamento de carros usados e era preciso incentivar esse setor.
O BB comprou, salvou o Votorantim e engoliu prejuízo de mais de bilhão de reais, pois a inadimplência ultrapassou todos os padrões. Ou seja, um péssimo negócio, conforme muita gente alertava. Mas como o próprio Lula explicou: “Quando fui comprar 50% do Votorantim, tive que me lixar para a especulação.”
Quem escapou de prejuízo maior foi a Vale. Na mesma entrevista, Lula confirmou que estava, digamos, convencendo a Vale a investir em siderúrgicas e fábricas de latas de alumínio.
Quando os jornalistas comentam que a empresa talvez não topasse esses investimentos por causa do custo, Lula argumentou que a empresa privada tem seu primeiro compromisso com o nacionalismo.
A Vale topou muita coisa vinda de Lula, inclusive a troca do presidente da companhia, mas se tivesse feito as siderúrgicas estaria quebrada ou perto disso. Idem para o alumínio, cuja produção exige muita energia elétrica, que continua a mais cara do mundo.
Ou seja, não era momento, nem havia condições de fazer refinarias e siderúrgicas. Os técnicos estavam certos. Lula estava errado. As empresas privadas foram se virando, mas as estatais se curvaram.
Ressalva: o BNDES, apesar das pressões de Brasília, não emprestou dinheiro para a PDVSA colocar na refinaria de Pernambuco. Ponto para seu corpo técnico.
Quantos outros projetos e metas do governo Lula são equivocados? As obras de transposição do Rio São Francisco estão igualmente atrasadas e muito mais caras. O projeto do trem-bala começou custando R$ 10 bilhões e já passa dos 35 bi.
Assim como se fez a revisão dos planos da Petrobras, é urgente uma análise de todas as demais grandes obras. Mas há um outro ponto, político. A presidente Dilma estava no governo Lula, em posições de mando na área da Petrobras. Graça Foster era diretora da estatal. Não é possível imaginar que Graça Foster tenha feito essa incrível autocrítica sem autorização de Dilma.
Ora, será que as duas só tomaram consciência dos problemas agora? Ou sabiam perfeitamente dos erros então cometidos, mas tiveram que calar diante da força e do autoritarismo de Lula? De todo modo, o custo Lula está aparecendo mais cedo do que se imaginava. Inclusive na política.

quinta-feira, junho 28, 2012

A Petrobrás sem Lula - ROLF KUNTZ

O Estado de S.Paulo - 27/06


O toque de realismo, a melhor parte do novo plano de negócios da Petrobrás, pode ter mais que um significado econômico. Se for levado a sério pelo próprio governo, mostrará o caminho para uma gestão mais séria, mais comprometida com o longo prazo e menos propensa ao ilusionismo e à mistificação da Era Lula. Soou como promessa de novos tempos a insistência do diretor financeiro, Almir Barbassa, em relação à paridade dos preços internos com os internacionais. A presidente da estatal, Graça Foster, reforçou essa mensagem. A revisão dos cronogramas e metas, o reconhecimento dos problemas de produção e a avaliação crítica do projeto da Refinaria Abreu e Lima serão mais um marco importante na história da empresa, se os próximos passos forem compatíveis com esse discurso. A presidente Graça Foster ainda manifestou a esperança de ver realizada a associação com a PDVSA naquela refinaria, mas essa ressalva pode ter sido apenas diplomática. O custo do projeto foi revisto de US$ 13,4 bilhões para US$ 17 bilhões. Sua primeira unidade só deverá entrar em operação em 2014, com um ano de atraso em relação à última previsão. A participação venezuelana, até agora, foi nula.

O caso da Abreu e Lima é um claro exemplo de como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva misturou objetivos ideológicos, partidários, pessoais e econômicos em seus oito anos de exercício direto do poder. O adjetivo "direto" é justificável. Lula deixou o Palácio do Planalto, mas impôs vários ministros a sua sucessora e nunca renunciou de fato à interferência na administração federal. A maior parte daqueles ministros caiu de podre, no meio de escândalos indisfarçáveis, mas nem isso eliminou a influência do ex-presidente. Apesar disso, a presidente Dilma Rousseff demonstra, talvez contra a própria inclinação, crescente dificuldade para realizar sua tarefa sem abandonar a incômoda herança deixada por seu antecessor e mentor.

Parte desse legado é a aliança com o presidente Hugo Chávez para a construção de uma refinaria em Pernambuco. Esse compromisso resultou daquela mistura de objetivos. A associação deveria servir às ambições - jamais concretizadas - de influência regional do presidente brasileiro. Em pouco tempo ficou evidente o risco de só a Petrobrás custear o projeto, porque nem o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aceitou as garantias oferecidas pela PDVSA. Mas Brasília insistiu na aventura.

A mudança no plano de negócios da Petrobrás e os comentários da presidente Graça Foster evidenciam um limite: tornou-se impossível insistir, sem graves consequências, num estilo de gestão irrealista, moldado segundo as concepções e ambições do presidente Lula. A crítica, no entanto, só avançou até certo ponto. A presidente Graça Foster ainda se arriscou na defesa da política de conteúdo nacional mínimo.

Essa política, no entanto, é apenas uma das manifestações de um padrão desastroso de governo. Pesquisar, extrair, refinar petróleo e distribuir derivados já são tarefas imensamente complexas. Essas tarefas se tornam ainda mais difíceis quando se inclui na agenda a exploração de reservas profundas como as do pré-sal. Apesar disso, o presidente Lula decidiu converter a Petrobrás em instrumento de política industrial, impondo mais um peso à sua administração e mais custos aos projetos desenvolvidos pelo grupo - além, é claro, de continuar subordinando a gestão dos preços de combustíveis à política de controle da inflação. Ninguém deve surpreender-se quando a multiplicação de funções e de alvos prejudica o negócio central de uma empresa.

Ao impor seus objetivos à Petrobrás, o presidente Lula combinou sua vocação autoritária (revelada também nas tentativas de comandar a Vale e a Embraer) com a tendência à busca dos caminhos mais fáceis. É muito mais simples criar reservas de mercado, índices mínimos de nacionalização e barreiras comerciais do que imaginar e executar uma política de produtividade e competitividade. Além disso, uma política sadia é incompatível com uma administração aparelhada, com o desperdício de recursos públicos e com a irracionalidade tributária.

A presidente Dilma Rousseff continua fiel à maior parte dessa herança, como comprovam sua política protecionista e sua insistência em maquiar com o financiamento habitacional os balanços do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Mas a revisão da estratégia da Petrobrás pode ser um início de mudança. Há poucos dias, a presidente previu uma visita do Inexorável da Silveira à zona do euro e a consequente adoção de políticas mais eficientes de ajuste e de crescimento. Talvez o sr. Silveira tenha dado uma rápida passada por Brasília.

Mais um refresco - CELSO MING

O ESTADÃO - 28/06 

O novo pacote anunciado ontem pelo governo, denominado PAC Equipamentos, pretende reativar o sistema produtivo com despesas de governo. É mais uma tentativa de estimular o crescimento do PIB, cada vez mais decepcionante, com uma política anticíclica, ou seja, na contra mão da atual paradeira. Infelizmente, é uma dessas iniciativas das quais não se pode esperar grande resultado.

O governo Dilma passou meses e meses avisando que, apesar de gravíssima, a crise global não teria grande impacto sobre a economia brasileira, dada a solidez dos seus fundamentos.

No entanto, de algumas semanas para cá, a mesma crise internacional, especialmente a encalacrada do euro, passou a ser usada para justificar a incapacidade do governo Dilma de entregar o avanço do PIB, de pelo menos 4,5%, prometido ainda em 2011 e nos primeiros meses deste ano.

Essa busca agora insistente de um culpado externo para o atual pibinho nacional é um fator negativo porque tende a minar a credibilidade do governo na condução da política econômica.

A crise mundial está sim atrapalhando o desempenho da economia brasileira, porém não dá para exagerar esse efeito.

Não há, por exemplo, forte queda das exportações brasileiras. Apesar da desaceleração, as encomendas externas estão 1,3% mais baixas nestes seis primeiros meses do ano em relação ao mesmo período do ano anterior. É inegável que o ambiente de incertezas produziu redução dos investimentos por parte do setor privado.

Mas esse ambiente de insegurança não se deve apenas à crise externa; deve-se, também, ao intervencionismo excessivo e errático do governo.

Quando nada, o empresário mantém engavetados seus projetos de expansão aparentemente também porque fica à espera de mais benefícios fiscais e creditícios que a todo momento o governo parece disposto a dar.

Nas encomendas governamentais ontem anunciadas figuram caminhões, tratores, retroescavadeiras, ambulâncias, motocicletas para a polícia rodoviária, ônibus escolares e carteiras escolares.

Compras ajudam, sim, a estimular certos segmentos do setor produtivo, desde que haja aumento significativo do dispêndio público. No entanto, este pacote não passa de uma "antecipação de compras", correspondente a R$ 8,4 bilhões, com baixo volume de verbas adicionais, quase uma insignificância quando o objetivo é garantir o crescimento do PIB de pelo menos 2,5% neste ano. E uma antecipação de compras significa, também, que não haverá as mesmas compras no agendamento anteriormente previsto. Este é mais um sinal de que o governo Dilma não dispõe de muita munição para promover a desejada arrancada.

Se houvesse uma disparada do dispêndio público, teríamos outro problema grave, o da redução do superávit primário, a parcela da arrecadação destinada ao pagamento da dívida, prevista para ser de 3,1% do PIB (cerca de R$ 130 bilhões).

Ontem, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, reconheceu que o PAC Equipamentos terá um impacto no crescimento da indústria não superior a 0,12%. Levando- se em conta que a indústria não crescerá muito mais do que 2,0% neste ano, fica aí mais bem quantificado seu baixo potencial de retorno. Não passa de refresco.

Nessas condições, iniciativas desse tipo cumprem mais a função de mostrar que o governo está fazendo alguma coisa do que de garantir eficácia para sua política.

- TJLP

A Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), vigente nos empréstimos do BNDES, foi reduzida ontem de 6,0% para 5,5% ao ano. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou a redução da TJLP e dos juros básicos (Selic) mais "a ação permanente sobre o câmbio" como integrantes da política de aceleração do crescimento econômico.

- E tem mais

Na falta de elementos mais sólidos, o governo apontou o baixo índice de desemprego, a expansão da massa salarial e a inflação em desaceleração como fatores adicionais capazes de ajudar a recuperação. O problema é que até agora não funcionaram nessa direção.

- Eike X

O empresário Eike Batista pode estar correto quando garante que a produção de petróleo de sua empresa OGX saltará dos atuais 7,5 mil para 250 mil barris diários ao final de 2013. Só que o descumprimento de promessas anteriores provocou uma forte erosão na credibilidade do empresário. Apenas uma consistente apresentação de resultados parece capaz de reverter essa situação.

Ciclo de baixa - MÍRIAM LEITÃO


O GLOBO - 28/06


A Ambev teme a tsunami tributária que se abaterá sobre a indústria de bebidas nos próximos anos. A Cielo acha que o país está vivendo seu segundo ano de crescimento em torno de 2%, apesar de acreditar em melhora no fim do ano. A alta do dólar ajuda alguns setores, mas a volatilidade provoca postergação de investimento. A desaceleração afeta as empresas de forma diferente.

O ciclo de desaceleração continua. Nos últimos meses, a previsão de crescimento dos bancos consultados pelo Boletim Focus do Banco Central caiu de 3,3% em média para 2,18% e não se sabe se a descida chegou ao fim. Cada setor sente de forma diferente o aperto da economia.

Na Ambev, o que preocupa é o cronograma de aumento de impostos previsto para o setor nos próximos anos. Serão altas sucessivas, até 2015, com a primeira carga em outubro deste ano, quando a incidência de IPI e PIS/Cofins ficará 19% maior sobre cervejas e 10% maior sobre refrigerantes. O vice-presidente de Relações Corporativas da empresa, Milton Seligman, acredita que o setor é punido pela sua eficiência, enquanto outros estão ganhando facilidades porque estavam com problemas.

- Temos uma tsunami tributária programada para o setor de bebidas nos próximos anos. Isso vai anular todo o ganho de produtividade dos últimos sete anos e travar investimentos. Nosso problema não é o câmbio nem a crise na Europa, mas o aumento de impostos. Em nome de bons resultados em outros setores, penaliza-se aqueles que estavam bem - disse.

Seligman acha que o governo deveria usar os benefícios que concede a alguns setores para exigir contrapartidas das empresas, sejam elas econômicas, sociais ou ambientais. E é preciso perícia para que o empresário não fique acomodado com as medidas e as restrições à competição:

- Os incentivos setoriais são importantes e devem acontecer para quem está com mais dificuldade. Mas o governo deve exigir alguma contrapartida, em termos de inovação, por exemplo. O benefício não pode levar à acomodação do empresário.

José Paulo Aleixo Coli, vice-presidente e diretor financeiro da Latina, fabricante de linha branca, contou que mensalmente participa de uma reunião com empresários de oito setores da economia:

- Na última, apenas um setor, o farmacêutico, estava otimista, todos os outros tinham visões negativas.

Para combater esse ambiente é que o governo faz tanto pacote. Em cada um deles, os empresários são chamados ao Planalto, há discursos e algumas medidas. Todas elas juntas mostram que o governo não tem visão estratégica. É uma política econômica hiperativa e sem resultados. O pacote de ontem é estranho, para dizer o mínimo. O governo anunciou com fanfarras que vai comprar carteiras escolares, blindados, ambulâncias e coisas assim.

A crise na Europa ficou mais intensa; as famílias brasileiras tomaram muito crédito nos últimos ano, e está aumentando a inadimplência. O crescimento do PIB vem perdendo ritmo. As empresas têm investido menos.

O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), medido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), mostra que os empresários estão insatisfeitos com o momento presente, mas que apostam num futuro melhor. O índice das condições atuais mede 47 pontos e o das expectativas está mais alto, em 62 pontos. A conversa com os executivos revela que eles estão preocupados, mas acreditam em um quadro melhor no fim do ano.

O presidente da Cielo, Rômulo Dias, diz que a desaceleração só não foi pior até agora porque o Banco Central começou a cortar juros em agosto do ano passado. Ele explica que as máquinas da Cielo, ao registrar as compras e vendas do cotidiano, servem também como termômetro do nível de atividade. As transações desaceleraram por duas vias: entrada menor de novos consumidores usando cartão e vigor menor no consumo.

- Temos um pulso do que acontece com o nível de atividade, e há uma desaceleração. Mas ainda prevemos crescimento de dois dígitos este ano para o nosso setor. O PIB deve aumentar o ritmo no final do ano, mas fechará 2012 no mesmo patamar de 2011. Teremos dois anos mornos, com o PIB na casa de 2% - disse. O vice-presidente da Relações com Investidores e Sustentabilidade da Whirlpool, Armando Valle, explicou que a redução de IPI para a linha branca manteve as vendas e isso garantiu um primeiro trimestre muito forte. Mas em abril houve uma queda brusca, que causou apreensão. Em maio, os números melhoraram:

- Nosso segmento teve um primeiro trimestre muito bom, com alta entre 10% e 15%; uma queda muito forte em abril; e recuperação em maio. Em abril teve início a discussão sobre os spreads e isso criou uma confusão na cabeça das pessoas. Houve parada para ver o que iria acontecer. Mas estamos entre os empresários otimistas.

José Paulo Aleixo Coli acha que a alta do dólar não ajudou por enquanto porque a volatilidade no mercado de câmbio está provocando postergação dos investimentos. - Até o momento, o ano está muito pior do que o esperado. A capacidade do governo de investir é pequena, o consumidor está endividado, o discurso oficial é confuso, a Europa está em crise. O que percebemos é que há uma piora muito grande no clima.

A política econômica hiperativa, mas sem rumo, não está conseguindo reverter o quadro.

O governo vai às compras - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 28/06


O governo decidiu, afinal, dar um passo além das medidas de estímulo ao consumo para desemperrar a economia, mas as novas ações são de alcance muito limitado, como as anteriores. Com dotação prevista de R$ 8,4 bilhões, o PAC Equipamentos - Programa de Compras Governamentais deve beneficiar diretamente indústrias de máquinas agrícolas, veículos, equipamentos médicos, roupas, calçados e material para escolas. Os fabricantes brasileiros terão margem de preferência de até 25% nas concorrências promovidas pela União. O objetivo mais importante continua sendo a aceleração imediata do crescimento. A ação do governo é uma resposta aos sinais de estagnação, evidenciados nos pobres resultados da indústria, no indicador de atividade produzido pelo Banco Central (BC), e também às previsões cada vez mais pessimistas do mercado financeiro. Na pesquisa Focus do dia 15, a mediana das projeções, em queda durante sete semanas consecutivas, ficou em 2,3%. Esse levantamento é conduzido semanalmente pelo BC com cerca de 100 instituições financeiras e escritórios de consultoria. Embora o foco, desta vez, seja o investimento público, o alvo do governo continua sendo o resultado de curto prazo, como se os problemas da indústria fossem essencialmente conjunturais.

Os problemas, no entanto, são bem mais graves e será preciso criar muito mais que estímulos de ocasião para fortalecer o setor manufatureiro.

Para a indústria, a política de compras governamentais poderá, na melhor hipótese, produzir resultados temporários, sem contribuir, no entanto, para eliminar as desvantagens comparativas da produção nacional. Mas até para propiciar esses ganhos limitados o governo precisará atender a algumas condições práticas. Será necessário, por exemplo, elaborar projetos de investimento. É bem conhecida a incompetência da administração federal nessa área - um detalhe acentuado no último relatório do Tribunal de Contas da União sobre as contas do governo.

Se o governo conseguir atuar com eficiência maior que a costumeira, poderá produzir alguns benefícios duradouros em termos de infraestrutura - por exemplo, na construção de estradas, no reforço e na modernização do equipamento de hospitais e na melhora das condições de funcionamento de escolas. Todos esses resultados são bem mais importantes, a médio e a longo prazos, que os efeitos obtidos, até agora, com o estímulo ao consumo e com medidas de curto alcance para alguns setores.

Mas é preciso lembrar, mais uma vez, a ineficiência na execução de projetos da maior parte dos Ministérios. No ano passado, como foi acentuado no relatório do TCU, só houve execução satisfatória de 54% das ações classificadas como prioritárias no Orçamento-Geral da União. Para melhorar seu desempenho na realização de investimentos o governo tem defendido a adoção de um regime especial de licitações para as obras do PAC, o mesmo adotado para os projetos da Copa do Mundo. Mas essa é uma solução ilusória. Não contorna a Lei das Licitações, porque os maiores problemas são políticos e gerenciais.

Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a maior parte das ações deve ser realizada no segundo semestre deste ano. A pretensão é garantir um crescimento médio superior ao do ano passado - 2,7% - e criar impulso para um avanço bem maior em 2013. Representantes da indústria disseram ter condições de atender à demanda do PAC Equipamentos. Mas os maiores problemas estão do lado do governo.

Além dos limites impostos pela baixa capacidade gerencial do setor público, as autoridades terão de levar em conta - e contornar, se isso for possível - as restrições eleitorais. Suas iniciativas poderão ser contestadas, se forem vistas como interferências nas disputas municipais.

O ministro anunciou também a redução da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), usada nos financiamentos do BNDES, de 6% para 5,5%. Resta conferir se isso bastará para incentivar os investimentos privados. Também esse estímulo poderá ter efeito limitado, se as demais desvantagens comparativas, como os impostos e vários outros custos, forem mantidas.

O mito e os fatos - MERVAL PEREIRA


O GLOBO - 28/06

A mais recente pesquisa do Datafolha mostra que 62% dos eleitores paulistanos e 64% dos simpatizantes do PT acham que o partido agiu mal procurando acordo com Maluf para a prefeitura de São Paulo.

O candidato do bolso do colete de Lula, o ex-Ministro Fernando Haddad, continua sendo apenas isso, mais uma invenção do ex-presidente.

Caiu dois pontos percentuais em relação à pesquisa anterior, o que não tem significado estatístico, pois está na margem de erro, mas tem peso político porque a pesquisa foi feita logo depois da famosa foto em que Lula aparece nos jardins da mansão de Maluf comemorando o acordo político.

Cair dois pontos percentuais quando se tem 30% de intenções de voto, como tem o candidato tucano José Serra, seria irrelevante - e ele cresceu -, mas os mesmos 2 pontos num total de 8% significam uma queda de 25%, o que por si só explicita a difícil situação em que se encontra o candidato de Lula.

Haddad, que parecia ter iniciado a ascensão após aparecer com Lula no programa do Ratinho e ter quase triplicado as intenções de voto, fato muito comemorado entre os simpatizantes do PT, não conseguiu manter a curva ascendente.

Esperavam os petistas que, depois do episódio Maluf, o candidato de Lula atingisse os dois dígitos nas pesquisas, evidenciando a correção da manobra política de seu mentor.

Lula reagiu aos críticos ao afirmar que não tinha arrependimento nenhum pela foto. E Maluf fez sua análise particular: Erundina deixara a chapa por ciúmes de seu protagonismo, e, diante de Lula no governo, ele, Maluf, considera-se "de esquerda".

O que parece divertir Maluf, e não é para menos, configura-se um problema político de envergadura para o PT paulistano.

A pesquisa Datafolha mostra que os eleitores estão ao lado de Erundina, pelo menos nesse primeiro momento. Nada menos que 67% dos eleitores consideram que Erundina fez muito bem em deixar a chapa de Haddad depois da divulgação da famosa foto.

Havia até em circulação uma curiosa interpretação na base do "falem mal, mas falem de mim". Lula seria tão genial articulador que colocara a imagem de Haddad nas primeiras páginas e nas televisões do país, fazendo com que viesse a ser conhecido pelo eleitorado.

O que para o comum dos mortais parecia erro estratégico, para o infalível líder tinha o dom de alcançar o objetivo de difundir a figura de seu escolhido.Vem a nova pesquisa Datafolha e joga por água abaixo a teoria montada a posteriori, que tentava transformar um erro político em grande lance estratégico.

O diretor do Datafolha, Mauro Paulino, considera que a rejeição ao apoio de Maluf ao PT pode ser determinante na eleição, o que indicaria que não se trata de um efeito passageiro.

Nesse caso, Erundina estaria certa quando comentou que 1min e 30s de propaganda eleitoral não justificam fazer uma aliança que renega uma vida inteira. Aparentemente, esse tempo extra que o PT obteve aderindo a Maluf não será suficiente para reduzir o desgaste provocado pelo acordo, considerado espúrio pela larga maioria do eleitorado paulistano e petista.

O tucano José Serra continua liderando a pesquisa, mas está parado desde o início com 31% das intenções, o que representa o eleitorado cativo do PSDB na capital. Na análise dos petistas, mostra que ele não tem condições de ampliá-lo.

O outro terço deve ficar, como tradicionalmente ocorre, com o candidato do PT, mas, se Haddad não demonstra ser competitivo para buscar no partido o apoio que seria automático, como ir além do eleitorado petista para buscar votos que podem lhe dar vitória?

A estratégia petista tinha um objetivo pragmático, traçado por Lula. Abriu-se mão de uma candidata forte como é a ex-prefeita Marta Suplicy na suposição de que ela não trazia novidade para a campanha que ampliasse seu eleitorado.

O "novo", que Haddad representaria, teria mais facilidade para avançar no eleitorado que, não sendo petista, pode votar no candidato do partido.

Mas, ao mesmo tempo, a candidatura ficou limitada no viés ideológico quando se juntou a Haddad, um comunista saudosista, a ex-prefeita Erundina, que assumiu anunciando que continuava defendendo o socialismo. Para ela, estar no Partido Socialista Brasileiro (PSB) não é retórica, é uma profissão de fé. Com sua saída, o PT foi buscar no PCdoB a companheira de chapa de Haddad, fechando novamente o foco ideológico da candidatura.

Os petistas alardeiam que o candidato tucano José Serra tem mais rejeição do que apoio (35% contra 31%), o que é uma situação realmente incômoda para o candidato. Mas, por essa conta, o candidato petista tem o dobro de rejeição do que de apoio (12% contra 6%).

Lula promete "morder o calcanhar" dos adversários, mas precisará fazer com que Haddad aprenda a morder também, sob o risco de seu candidato ficar exposto ao público como figurante sem expressão.

Além do mais, as pesquisas do Datafolha vêm registrando a queda da influência de Lula como cabo eleitoral na disputa paulistana, embora ele continue sendo o mais influente deles, mais ainda que a própria presidente Dilma, que tem 28% de influência na escolha do candidato, ou que o governador Geraldo Alckmin, que influencia 29% dos eleitores.

O índice de influência de Lula no eleitorado é de 38%, mas o problema para o PT é que em janeiro eram 49% os que diziam que o apoio de Lula os faria votar em determinado candidato.

Se juntarmos a redução da influência de Lula no eleitorado com a incapacidade demonstrada até agora por Fernando Haddad de ser um candidato minimamente competitivo, teremos uma eleição que sugere ser muito mais difícil para o PT do que parecia meses atrás.

Serra já disse que os fatos mostram que Lula não é infalível, pelo menos nas eleições paulistas. Mas Lula é Lula, advertem sempre os petistas, agarrando-se ao mito na esperança da vitória. Lula faz bem em querer trazer para si a disputa contra Serra, nacionalizando a eleição paulistana. Caberá a Serra escapar dessa armadilha, convencendo o eleitorado que está pensando apenas em São Paulo, e não no Brasil.

quarta-feira, junho 27, 2012

Inadimplência das empresas tem maior alta de abril para maio em 6 anos

Folha
O Indicador Serasa Experian de Perspectiva da Inadimplência das Empresas cresceu 9,4% entre abril e maio. Considerando-se a variação entre o quinto e o quarto mês do ano, foi a maior elevação desde 2006.

Segundo os economistas da Serasa Experian, a evolução reflete a sazonalidade para o mês, desta vez potencializada por uma série de entraves econômicos.

A baixa atividade econômica, o reduzido patamar do crédito externo para empresas, a forte inadimplência dos consumidores, as exportações afetadas com a crise global --mesmo com a valorização do dólar-- impactaram de forma negativa o fluxo de caixa das empresas e ampliaram as oportunidades de inadimplência, diz a Serasa.

A intensa expansão dos protestos (19,4%) no período abre espaço para que futuros requerimentos de falências continuem a ser utilizados como instrumento de cobrança.

O levantamento também apontou crescimento na inadimplência dos negócios nas comparações anual e acumulada.

Na comparação de maio deste ano com igual mês de 2011, a alta foi de 13,2%. Na variação entre os acumulados de janeiro a maio de 2012 e 2011, por sua vez, o avanço foi de 17,5%.

VALOR MÉDIO

Nos cinco primeiros meses do ano, as dívidas não bancárias (cartões de crédito, financeiras, lojas em geral e prestadoras de serviços, como telefonia) tiveram um valor médio de R$ 775,74, o que representou um crescimento de 4% ante igual período de 2011.

No mesmo período, as dívidas com bancos tiveram um valor médio de R$ 5.269,13, resultando em 4,3% de alta em relação aos cinco primeiros meses de 2011.

Quanto aos títulos protestados, a média no período foi de R$ 1.914,33, com elevação de 11,1% sobre o mesmo acumulado do ano anterior.

Hora da verdade na Petrobrás - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 27/06


Há duas grandes novidades no plano de negócios anunciado pela presidente da Petrobrás, Graça Foster, para o período de 2012 a 2016. Em primeiro lugar, as novas metas e os cronogramas são mais realistas que os apresentados nos planos anteriores. A produção nacional de petróleo, por exemplo, deverá chegar a 2,5 milhões de barris diários em 2015, meio milhão abaixo da previsão adotada até o ano passado. Em segundo lugar, o novo planejamento consagra uma visão crítica dos padrões da administração passada e implantados no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desde o início da gestão petista, como indicou a presidente da empresa, a Petrobrás jamais conseguiu alcançar as metas fixadas. Mais de uma vez, durante sua exposição, ela mencionou o apoio do "controlador" - isto é, do governo Dilma Rousseff - aos novos critérios.

Uma das condições agora levadas em conta é a convergência dos preços cobrados internamente com os preços internacionais dos combustíveis. Esse ponto foi ressaltado tanto pelo diretor financeiro, Almir Barbassa, quanto pela presidente da estatal. O recém-anunciado aumento dos preços da gasolina (7,8%) e do óleo diesel (3,9%) ficou abaixo do considerado necessário por muitos analistas. A diferença foi mal recebida no mercado de capitais e segunda-feira as ações da empresa caíram mais de 8% na bolsa, queda maior que a de novembro de 2008, no pior momento da crise financeira. Prevaleceu entre os investidores, mais uma vez, a visão de curtíssimo prazo. Se a nova administração agir de acordo com os critérios indicados na apresentação do plano, o crescimento da Petrobrás será mais seguro do que seria com os padrões dos últimos nove anos.

Para realizar os investimentos de US$ 236,5 bilhões previstos no plano de negócios a empresa precisará de preços mais realistas e, portanto, novos aumentos serão necessários, como deixaram claro os diretores da estatal. O compromisso com resultados também foi reforçado. Isso explica a revisão de cronogramas, como o do complexo petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e de outras refinarias.

Pela nova previsão, a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, só começará a funcionar em 2014, com atraso de um ano am relação à data prevista no último planejamento. O custo passará de US$ 13,4 bilhões para US$ 17 bilhões. A associação negociada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o colega venezuelano, Hugo Chávez, até agora deu em nada. Nenhum centavo foi pingado pela PDVSA. A presidente Graça Foster mantém, segundo afirmou, a esperança de ver concretizada a participação venezuelana. No entanto, ela mesma descreveu esse projeto como um exemplo a ser analisado para nunca se repetir.

Erros desse tipo só serão evitados, no entanto, se o governo brasileiro abandonar os padrões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele usou a Petrobrás para seus objetivos políticos no Brasil e no exterior. A aliança com o presidente Chávez é parte dessa história, assim como sua reação mansa e cordata quando instalações da empresa foram ocupadas militarmente na Bolívia.

Curiosamente, a nova presidente da Petrobrás defende a política de conteúdo nacional para os equipamentos comprados pela empresa. Essa política, segundo ela, atende às necessidades da empresa. Os riscos, no entanto, são tão evidentes quanto o erro de fazer da Petrobrás, uma das maiores petroleiras do mundo, um instrumento de política industrial. Em março, a presidente Graça Foster declarou-se preocupada com os atrasos na entrega de navios encomendados ao Estaleiro Atlântico Sul e com problemas tecnológicos.

O primeiro navio encomendado a esse estaleiro, o petroleiro João Cândido, foi lançado pelo presidente Lula em maio de 2010. Quase afundou, passou por reformas e só foi entregue dois anos mais tarde. Política industrial baseada em favorecimento e voluntarismo dá nisso. Se reconhecerem esse fato, a presidente Dilma Rousseff e sua amiga Graça Foster talvez consigam se livrar - e livrar o País - de alguns dos piores costumes consagrados no governo anterior, como o aparelhamento da administração, o voluntarismo, o favorecimento a grupos econômicos e a mistificação populista.

A leviana diplomacia do espetáculo - ELIO GASPARI

O GLOBO - 27/06

Poucas vezes a diplomacia brasileira meteu-se numa estudantada semelhante à truculenta intervenção nos assuntos internos do Paraguai. O presidente Fernando Lugo foi impedido por 39 votos a 4, num ato soberano do Senado. Nenhum soldado foi à rua, nenhuma linha de noticiário foi censurada, o ex-bispo promíscuo aceitou o resultado, continua vivendo na sua casa de Assunção e foi substituído pelo vice-presidente, seu companheiro de chapa. Nada a ver com o golpe hondurenho de 2009, durante o qual o presidente Zelaya foi embarcado para o exílio no meio da noite.

Quando começou a crise que levou ao impedimento de Lugo, a diplomacia de eventos da doutora Dilma estava ocupada com a cenografia da Rio+20. Pode-se supor que a embaixada brasileira em Assunção houvesse alertado Brasília para a gravidade da crise, mas foi a inquietação da presidente argentina Cristina Kirchner que mobilizou o Brasil. A doutora achou conveniente mobilizar os chanceleres do Unasul, uma entidade ectoplásmica, filha da fantasia do multilateralismo que encanta o chanceler Antonio Patriota.

As relações do Brasil com o Paraguai não podem ser regidas por critérios multilaterais. Foi no mano a mano que o presidente Fernando Henrique Cardoso impediu um golpe contra o presidente Juan Carlos Wasmosy em 1996. Fez isso sem espetacularização da crise. A decisão de excluir o Paraguai da reunião do Mercosul é prepotente e inútil. Quando se vê que o presidente Hugo Chavez, da Venezuela, cortou o fornecimento de petróleo ao Paraguai e que a Argentina foi além nas suas sanções, percebe-se quem está a reboque de quem. Multilateralismo no qual cada um faz o que quer é novidade. Existe uma coisa chamada Mercosul, banem o Paraguai mas querem incluir nele a Venezuela, que não está na região e muito menos é exemplo de democracia. Baniu-se o Paraguai porque Lugo foi submetido a um rito sumário. O impedimento seguiu o rito constitucional. Ao novo governo paraguaio não foi dada sequer a palavra na reunião que decidiu o banimento.

Lugo aceitou a decisão do Congresso e agora diz que liderará uma oposição baseada na mobilização dos movimentos sociais. Direito dele, mas, se o Brasil associa-se a esse tipo de política, transforma suas relações diplomáticas numa espécie de Cúpula dos Povos. Vai todo mundo para o Aterro do Flamengo, organiza-se um grande evento, não dá em nada, mas reconheça-se que se fez um bonito espetáculo.

O multilateralismo da diplomacia da doutora Dilma é uma perigosa parolagem. Quando ela se aborreceu, com razão, porque um burocrata da Organização dos Estados Americanos condenou as obras da hidrelétrica de Belo Monte, simplesmente retirou do fôro o embaixador brasileiro. A OEA é uma irrelevância, mas, para quem gosta de multilateralismo, merece respeito.

A diplomacia brasileira teve um ataque de nervos na Bacia do Prata. O multilateralismo que instrui a estudantada em defesa de Lugo é típica de uma política externa biruta. O chanceler Antonio Patriota poderia ter se reunido com o então vice-presidente paraguaio Federico Franco vinte vezes, mas, se a Argentina queria tomar medidas mais duras, ele não deveria ter ido para uma reunião conjunta, arriscando-se ao papel de adorno.

Luz amarela - MÍRIAM LEITÃO


O GLOBO - 27/06

Se forem somadas todas as diferenças e peculiaridades, ainda assim é preciso ter atenção ao crescimento do crédito e da inadimplência no Brasil. O país é sólido, o crédito imobiliário é pequeno, os imóveis sobem porque há demanda, e não por especulação. Ainda assim, sistematicamente o total de pessoas que atrasam seus pagamentos tem crescido e o governo ainda aposta na ampliação do crédito.

Pela primeira vez o total do crédito passou de 50% do PIB, pela nota divulgada ontem pelo Banco Central. Isso é muito para a nossa história, é pouco quando comparado com outros países. O que mais impressiona é a rapidez de crescimento. Em menos de dez anos saiu de 20% para 50,1% do PIB o total de dívida das empresas e das pessoas.

O Banco Internacional de Compensações (BIS) fez um alerta cuidadoso que o Brasil deveria ouvir. Mas há pouca esperança. As autoridades, inclusive as que deveriam zelar pela parcimônia do crédito, estão convencidas que assim é que turbinarão o PIB.

De abril a maio, a expansão foi puxada pelos bancos públicos, cujos empréstimos representavam 21,9% do PIB e agora são 22,3%. Do total do crédito brasileiro, 44,6% foi concedido por bancos estatais. Os bancos nacionais privados têm participação de 19,2%, e os internacionais, 8,5%, no crédito em relação ao PIB. Isso quer dizer 38,4% e 17% do total de crédito concedido, respectivamente.

O estoque de crédito inadimplente, com atraso acima de 90 dias, subiu para R$ 81 bi, com alta de 2,4% de abril a maio. Segundo a informação do Banco Central, a inadimplência da pessoa física chegou a 8% e cresce no cheque especial, no consignado e nos empréstimos para aquisição de bens. A inadimplência em veículos bateu novo recorde. O número parece pequeno, 6,1% do total, mas no começo do ano passado era de 2,6%.

A maioria dos dados de empréstimo e inadimplência mostraram crescimento em maio, em relação a abril. E a série recente é de crescimento contínuo. O crédito é cada vez maior, e as famílias estão cada vez mais endividadas.

Tudo parece o enredo que levou outros países para crises das quais ainda não saíram. Mas não é exatamente. O Brasil não cometeu os excessos cometidos em outras economias, não criou as exóticas criaturas que esconderam o grau de risco dos papéis vendidos ao mercado, e tem medidas prudenciais mais rígidas.

As previsões de crescimento estão minguando, mas ainda assim o mercado de trabalho está aquecido, a inflação está caindo, e os juros, dimi nuindo. Isso mantém a capacidade de pagamento do devedor. Com trabalho e mais renda disponível — pela queda da inflação e de custos financeiros — há menos risco de haver crise de crédito, como a de outros países.

Uma notável diferença é o mercado de crédito imobiliário para pessoas físicas, que é de apenas 5,3% do PIB, aqui. Mas o que espanta é o ritmo de crescimento: alta de 41,9% em 12 meses. O que os especialistas garantem é que, depois de tanto tempo sem crédito para compras de imóveis, esse aumento é natural, saudável, sustenta o crescimento. Garantem também que a valorização dos imóveis — que em algumas cidades afronta o senso comum e desafia comparações internacionais — é apenas resultado da demanda e não de manobras especulativas alimentadas por crédito baixo.

O Brasil tem mostrado uma capacidade grande de resistir a essa persistente deterioração externa. O PIB está com queda no ritmo de crescimento, mas ninguém acha que há o risco iminente de contágio pelas turbulências enfrentadas nos outros países.

Nem por isso o país deveria continuar apostando no aumento do crédito como elemento central da elevação do ritmo de crescimento. A inadimplência da pessoa física tem números que assustam. O atraso no cheque especial subiu para 11,3% e está em dois dígitos desde outubro de 2011. Ficar devendo nessa modalidade significa comprometer uma parte maior da renda com o pagamento de juros e correr riscos de ter que governar uma bola de neve. Mesmo com a queda do custo em alguns bancos, esse é o dinheiro mais caro do mercado. Na aquisição de outros bens que não veículos, o atraso de 90 dias é de 13,9%.

O percentual de atraso no crédito total é baixo, 3,8%, mas isso porque aí engloba-se o crédito direcionado, no qual a inadimplência é mesmo baixa. No crédito livre, o total inadimplente é de 6%.

O governo aposta nas diferenças entre o mercado de crédito do Brasil com o mundo para continuar com seu estímulo ao endividamento. Mas a avaliação externa é de que algumas semelhanças começam a se formar.

O contraponto - MERVAL PEREIRA


O GLOBO - 27/06


O voto do revisor que o ministro Ricardo Lewandowski entregou ontem, liberando assim o processo do mensalão para julgamento, caminha no sentido de indicar que, na sua opinião, o Supremo Tribunal Federal deve optar por penas mais brandas para os réus, fazendo assim o que chamou de "um contraponto" ao voto do ministro relator, Joaquim Barbosa, que encaminhou seu relatório no sentido inverso, isto é, a favor da pena máxima para os acusados, seguindo as alegações finais do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que considera o mensalão um dos crimes mais graves já cometidos contra a democracia brasileira.
Há quem especule que, na verdade, Lewandowski defenderá em seu voto no julgamento que os crimes do mensalão foram estritamente eleitorais, assumindo a tese do caixa 2 exposta pelo ex-presidente Lula sob orientação de seu então ministro da Justiça Marcio Thomaz Bastos.
Nem Barbosa nem Lewandowski deram ainda seus votos finais, mas a posição de ambos é passível de ser intuída a partir de seus respectivos relatórios, além dos votos que já deram em 2007, quando o Supremo acolheu a denúncia contra os mensaleiros.
Lewandowski, que foi apanhado conversando ao telefone depois da sessão com seu irmão - falava tão alto em um restaurante em Brasília que uma repórter da "Folha" ouviu toda a conversa - disse naquela ocasião que a tendência do STF era "refrescar" para José Dirceu, mas que a pressão da opinião pública fora tão grande que os ministros votaram sentindo-se com "uma faca no pescoço".
Ele não aceitou as acusações de formação de quadrilha nem de peculato contra Dirceu e Genoino, por exemplo, achando que havia indícios para se investigar apenas o crime de corrupção ativa contra os dois.
Tudo indica que também desta vez o ministro Lewandowski não quis afrontar a opinião pública retardando o começo do julgamento do mensalão devido a um atraso na entrega de sua revisão.
Ele entregou seu trabalho ontem à tarde, quando o prazo final que permitiria o julgamento se realizar no dia 1 de agosto esgotara-se no dia anterior. Tudo indica, portanto, que ele poderia tê-lo feito no prazo.
De qualquer maneira, o atraso foi menor do que se entregasse seu voto-revisor apenas na sexta-feira, como chegou a ameaçar.
Se cumprisse a ameaça, o julgamento poderia sofrer o atraso de cinco dias, e não apenas de um, como aconteceu, com implicações maiores.
A pena mais branda pode significar a prescrição de crimes como o de formação de quadrilha, ou de peculato culposo, o que poderia ser facilitado pelo atraso do julgamento.
Dependendo das penas que eventualmente receberem, 22 dos 38 réus do mensalão - entre eles o ex-ministro José Dirceu - poderão terminar o julgamento com a prescrição do crime de formação de quadrilha, o que equivale a uma absolvição.
De acordo com especialistas, especificamente para o crime de quadrilha, a prescrição se dá em oito anos, mas só se o máximo da pena for superior a dois anos (a pena máxima para esse tipo de crime é de três anos).
A prescrição pode vir a ocorrer em quatro anos se os réus, ao fim do processo, forem condenados a dois anos ou menos. Como o recebimento da denúncia no Supremo foi em 28 de agosto de 2007, ela já teria ocorrido no ano passado.
Os demais crimes não têm prescrições previstas tão cedo: crime de peculato (doloso) - pena de 2 a 12 anos, prescrição de 16 anos; corrupção ativa - pena de 2 a 12 anos, a prescrição seria de 16 (sem considerar um aumento de pena de 1/3 previsto na lei, que pode ou não ser aplicado); falsidade ideológica - se o documento falsificado for particular, a pena é de 1 a 3 anos, com prescrição de 8, e, se o documento falsificado for público, a pena é de 1 a 5 anos, com prescrição de 12 anos; lavagem de capitais - pena de 3 a 10 anos, com prescrição de 16 anos; evasão de divisas - pena de 2 a 6 anos, com prescrição de 12 anos.
Uma das intenções do cronograma original aprovado era permitir que o ministro Cezar Peluso pudesse votar antes de se aposentar compulsoriamente, pois faz 70 anos no dia 3 de setembro.
O esforço para que Peluso participe do julgamento não tem nada a ver com uma eventual tendência sua de votar contra os mensaleiros, como especulam os petistas mas que é impossível de se afirmar.
Além de querer a participação de Peluso na decisão final, por conhecer bem o processo e ser um ministro experiente e de conhecimento requintado, o presidente Ayres Britto objetiva também não dar razões para o adiamento do julgamento devido à escolha de um novo ministro.
Mesmo que o julgamento continue com apenas dez ministros - ou nove, se Dias Tofolli decidir se declarar impedido por suas ligações com o PT e sua companheira ser advogada no processo -, quando o substituto de Peluso fosse escolhido ele poderia pedir vista, paralisando-o.
A decisão do ministro Tofolli é uma incógnita. Como só cabe a ele decidir, e não há prazo para isso acontecer, talvez só saibamos no dia do julgamento, pois ele pode simplesmente não aparecer, ou então comparecer normalmente sem precisar justificar nada.
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, estuda a possibilidade de pedir o seu impedimento, por pressão de procuradores, mas isso dificilmente ocorrerá.
Por questões burocráticas, Peluso terá que deixar o Tribunal poucos dias antes da data fatal. Pelo organograma, ele será o sétimo juiz a votar, e sua vez deverá chegar por volta do dia 29 ou 30 de agosto, prazo máximo de sua permanência na Corte.
Peluso havia sugerido que, se não tivesse condições de votar no mensalão, provavelmente nem voltaria depois do recesso de julho.
Aprovado o cronograma, com sua participação ativa, essa possibilidade parecia superada. O prazo, no entanto, ficou mais curto ainda, e Ayres Britto pode permitir que Peluso antecipe seu momento de votar a fim de não correr o risco de novo atraso inviabilizá-lo.

Sujeita a vírus - RUY CASTRO

Folha de S. Paulo - 27/06


Ninguém mais vive, reparou? Vivencia. "Estou vivenciando um momento difícil", diz Maricotinha. Fico penalizado, mas ficaria mais se Maricotinha estivesse passando por ou vivendo aquele momento difícil. Há uma diferença, diz o dicionário. Viver é ter vida, existir. Vivenciar também é viver, mas implica uma espécie de reflexão ou de sentir. Não é o caso de Maricotinha. O que ela quer dizer é viver, passar por. Mas disse vivenciar porque é assim que, ultimamente, os pedantes a ensinaram a falar.

Assim como ninguém mais se coloca -se posiciona. Ninguém mais se dirige a um lugar -se direciona. Ninguém mais acrescenta nada -adiciona. E ninguém mais é diferente -é diferenciado. Sem nenhum motivo ou necessidade, certas palavras saem da fala comum e outras entram. Nada contra essa seleção natural, semelhante à que se dá na vida. Ali também é puro Darwin. Mas, para que morra uma palavra e nasça outra, é preciso haver um sentido.

Outra palavra do momento é polêmico. Ninguém mais tem um comportamento ou opinião original, diferente ou discutível -só polêmico. Mesmo que esse comportamento ou opinião não encontre ninguém para polemizar com ele. O mesmo quanto a inédito -nada parece mais importante hoje, num disco, show ou exposição, do que conter material inédito. Se estou para lançar um livro de textos sobre cinema, música popular ou literatura, sempre querem saber se contém material inédito. Respondo, encabulado: "Não. É tudo já édito".

E para onde tem ido a preposição "a", em construções como "daqui a três meses", que estão se tornando o capenga "daqui três meses"?

A língua é viva, eu sei, mas sujeita a vírus que, de repente, atacam a TV, a internet e a imprensa, contaminam milhões, e as pessoas começam a achar que foi sempre assim que se falou ou se deve falar.

O crédito tem limite - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 27/06

Crédito sobe em ritmo razoável, graças a estatais; mas não vai ser assim que PIB vai crescer mais rápido

OS BANCOS brasileiros emprestam em "ritmo de crise". Quer dizer, os bancos públicos emprestam cada vez mais, os privados desaceleram. Mais ou menos como aconteceu em tantos outros momentos de incerteza ou baixa na economia, em especial em 2008-09.

É o que se depreende do balanço do crédito de maio, divulgado ontem pelo Banco Central.

Pelo andar da carruagem, o estoque de crédito (total de dinheiro emprestado e que ainda não foi pago) vai crescer em termos reais mais ou menos tanto quanto em 2011, ou entre 17 e 18% em termos nominais (sem descontar a inflação).

Trata-se de um crescimento bastante razoável, ressalte-se. Mas não vai ser por aí que a economia vai crescer mais rápido.

Além do mais, é razoável estimar que o ritmo de expansão de crédito não vai aumentar -talvez diminua daqui a pouco. Os bancos públicos não podem segurar sozinhos a peteca por muito tempo. As instituições privadas estão cautelosas e assim devem continuar enquanto a inadimplência não baixar e a crise europeia não esfriar.

No trimestre março-maio, os bancos públicos responderam por 61% do aumento do crédito. No mesmo trimestre do ano passado, a fatia dos estatais era de 34%. Em 2011, a divisão do bolo entre públicos e privados se normalizava.

No pior momento da crise de 2008-09, os estatais chegaram a responder por 80% da expansão do crédito.

Os resultados dos bancos públicos, pelo menos no que diz respeito a risco, foram bons -não aumentou a quantidade de empréstimos ruins, inadimplência e calotes. Não se pode saber, claro, da qualidade dos empréstimos desta safra. Certo é que os bancos públicos agora terão menos fôlego. Não podem continuar a se expandir se o seu capital não aumentar -estão chegando ao limite.

Mesmo antes de o combustível do crédito dos estatais terminar, no entanto, nota-se que não vai ser via crédito adicional que a atividade econômica vai passar do presente ritmo de crescimento, de 2% ao ano, para 3% ou 4%, como quer a presidente.

Os resultados do ano até agora indicam que as medidas de estímulo baixadas pelo governo foram capazes apenas de evitar paradeira maior. Ressalte-se: não se trata de dizer que foram irrelevantes. Evitaram apagões na indústria de bens duráveis, os quais poderiam se alastrar pelo resto da economia.

O problema, cada vez mais óbvio, é que faltam investimentos e aumentos de produtividade.

A indústria segurou o investimento porque não cresce faz quase dois anos, em parte devido à concorrência de importados. O empresariado em geral está receoso porque não entende muito bem o novo ritmo da economia e porque teme desastres na economia mundial. O governo federal não consegue investir por inépcia e burocracia.

Na atual situação, porém, apenas o governo federal poderia destravar a situação do investimento. A insegurança do setor privado vai durar ainda algum tempo, até o tempo clarear no exterior e a atividade aqui no Brasil esquentar.

Mas o governo federal por ora se mostra capaz apenas de aplicar mais remendos na economia. Como deve fazer hoje, outra vez.

Visão Global THOMAS L., FRIEDMAN


O Estado de S. Paulo - 27/06/2012
 

A ascensão do popularismo
Durante minha viagem pela Europa na semana passada, tive a impressão de que boa parte dos diálogos terminava com alguma forma de enunciação da seguinte pergunta: por que temos a sensação de que é cada vez menor o número de líderes capazes de inspirar seu povo a enfrentar os desafios de nossa época? Há muitas explicações para esse déficit mundial de liderança, mas prefiro me concentrar em duas: uma tem a ver com a questão da gerações e a outra, com a tecnologia.
Vamos começar pela tecnologia. Em 1965, o cofundador da Intel, Gordon Moore, apresentou a ideia da Lei de Moore, segundo a qual o poder de processamento que poderia ser colocado num único microchip dobraria de capacidade a cada 18 ou 24 meses. Desde então, o princípio tem se mostrado sólido. Ao observar os líderes da Europa, do mundo árabe e dos EUA lutando para administrar suas crises, começo a me perguntar se não haveria uma correspondente política à Lei de Moore: a qualidade da liderança política diminui a cada 100 milhões de novos usuários do Facebook e do Twitter.
A interligação do mundo por meio das mídias sociais e dos celulares com acesso à internet está mudando a natureza do diálogo entre líderes e liderados em toda parte. Estamos passando de conversas que costumavam ser de mão única - de cima para baixo - para conversas predominantemente de mão dupla - de baixo para cima e de cima para baixo. Isto traz muitas vantagens: uma maior participação, mais inovação e transparência. Mas será que podemos chegar ao ponto de um excesso de participação - líderes que dão ouvidos a tantas vozes ao mesmo tempo e acompanham tantas tendências a ponto de se tornarem prisioneiros delas? Esta frase estava num artigo publicado no Politico: "As campanhas de Obama e Romney passam o dia todo se atacando no Twitter, denunciando enquanto isso a ausência de propostas sérias para um momento de seriedade. Mas, na maioria das vezes em que tiveram de abordar temas grandiosos, preferiram se apequenar".
Na semana passada, ouvi em Londres um termo novo: "popularismo". Trata-se da ideologia suprema de nossos dias. Acompanhe as pesquisas, leia os blogs, contabilize os canais do Twitter e postagens do Facebook e vá precisamente aonde as pessoas estão, e não aonde acha que elas deveriam ir. Se todos estão "seguindo", quem está liderando? E temos também o fator da exposição. Qualquer pessoa armada com um celular é hoje um paparazzo; qualquer dono de uma conta no Twitter é um repórter; todos aqueles que acessam o YouTube são cineastas. Quando todos são paparazzi, repórteres e cineastas, todos os demais se tornam figuras públicas. E, para aqueles que são figuras públicas - os políticos, por exemplo -, o escrutínio pode se tornar tão desagradável a ponto de transformar a vida pública em algo que deve ser evitado a todo custo.
Praticamente todos os líderes de hoje precisam pedir aos seus povos que compartilhem os fardos, e não apenas os benefícios, e também que estudem e trabalhem com mais afinco simplesmente para acompanhar o ritmo. Isso exige uma liderança extraordinária que precisa começar a contar a verdade às pessoas.
Dov Seidman, autor do livro How e dono da LRN, empresa que orienta os diretores executivos nas questões de liderança, há muito defende que "nada inspira mais as pessoas do que a verdade". A maioria dos líderes acredita que dizer a verdade torna vulnerável sua posição de liderança - seja em relação ao público ou aos adversários. Eles estão enganados.
"O mais importante em dizer a verdade é o fato de isso ligar o líder às pessoas", explica Seidman. "Afinal, quando confiamos a verdade às pessoas, elas devolvem esta confiança." Não é isso que estamos vendo hoje nos líderes dos EUA, do mundo árabe e da Europa. Seria de se imaginar que ao menos um deles aproveitasse a oportunidade de recrutar seu povo pela verdade: a respeito de onde estão, do que são capazes de fazer, do plano que precisam para chegar lá e da contribuição que cada um precisa fazer para embarcar neste caminho melhor. Em vez de um público virtual, o líder que fizer isso terá "amigos" e "seguidores" de verdade. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Realismo na Petrobrás Celso Ming


O Estado de S. Paulo - 27/06/2012
 
Como a oposição – se é que ela existe – não vem sendo capaz de produzir um mínimo de crítica à política econômica do governo do PT, foi preciso que a própria diretoria da Petrobrás tomasse a iniciativa de apresentar a mais contundente denúncia das derrapadas administrativas registradas nos oito últimos anos da Petrobrás.
Foi o que fez segunda-feira a atual presidente, Graça Foster. Ela admitiu que a diretoria anterior, presidida pelo baiano José Sérgio Gabrielli, foi marcada pela falta de realismo na definição de metas de produção e pela leniência com que acompanhou os cronogramas dos investimentos. Além disso, apontou falta de cumprimento da sistemática de aprovação de projetos importantes e sugeriu a ocorrência de indisciplina na empresa, sabe-se lá em que proporção.
As obras da Refinaria Abreu e Lima, no Estado de Pernambuco, estão com atraso de três anos. Foram orçadas em US$ 2,3 bilhões em 2005 e não sairão por menos de US$ 20,1 bilhões, quase dez vezes mais. "É uma história a ser aprendida, escrita, lida pela companhia, de tal forma que não seja repetida", disparou Graça Foster. Ela não foi complacente com graves falhas de gestão do projeto do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Coperj), também atrasado e sem nova data para entrar em operação.
Em boa parte, esse desleixo administrativo é consequência da opção determinada ao longo do governo Lula que encarou a Petrobrás como território de aparelhamento partidário e loteou sua diretoria entre os próceres de sua base política. Nessas condições, é impossível evitar desvios de patrimônio público.
O governo Dilma pretende dar racionalidade administrativa ao setor do petróleo. Mas o faz pela metade e não desiste das ingerências. Como esta Coluna avançou na edição de terça-feira, este governo está sendo incapaz de definir uma política coerente para a Petrobrás e para os preços dos combustíveis. Até agora não se sabe se o objetivo é dar continuidade às práticas populistas de combater a inflação por meio da manipulação do caixa da Petrobrás; se é ajudar a política industrial por meio de imposições de quocientes de conteúdo local na encomenda de equipamentos; ou se é observar um mínimo de capacidade de investimento da empresa de modo a puxar o crescimento econômico e a criação de empregos.
Graça Foster insiste agora em que é preciso uma "administração realista", algo que nunca deveria ter sido deixado para trás. No entanto, não dá para acreditar que prevaleça uma "administração realista" enquanto não for restabelecido o realismo dos preços. A Petrobrás continua vendendo de 6% a 10% da gasolina consumida no mercado interno a preços mais baixos do que ela paga no mercado internacional. E a administração da empresa não consegue do governo Dilma a observância de critérios de paridade aos preços internacionais.
Convém observar que o critério de preços tem de valer tanto na alta como na baixa. E, se for verdade que as cotações internacionais de petróleo podem despencar de volta para o nível dos US$ 60 por barril, um grande número de investimentos da Petrobrás poderá ficar inviável. Isso significa que não basta uma administração realista de preços; tem de ser também uma administração austera.
Não é à toa que a Petrobrás vale hoje no mercado apenas 70% do valor patrimonial registrado em seus livros.
CONFIRA
A inadimplência no crédito bancário continua aumentando. Há dois dias, o Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), que funciona como banco central dos bancos centrais, advertiu para o risco de formação de bolha de crédito no Brasil. Nesta terça-feira, o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Túlio Maciel, respondeu que os critérios de concessão de crédito no Brasil são mais rigorosos do que os dos países avançados. O problema é que a renda familiar e a cultura financeira da nova clientela bancária são bem mais baixas no Brasil e isso pode fazer a diferença.

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