Entrevista:O Estado inteligente

sábado, março 03, 2012

A indignação de Dilma - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 03/03/12


Tem pouco efeito prático externo a indignação que a presidente Dilma
Rousseff manifestou quinta-feira por causa das políticas monetárias
frouxas dos países ricos que canibalizam, segundo ela, as economias
dos emergentes.

Apenas para relembrar, Dilma se queixou de que as impressionantes
emissões de moeda pelos bancos centrais dos Estados Unidos e da área
do euro provocam "tsunami monetário", ou seja, despejam vagalhões de
moeda no resto do mundo e tiram competitividade do setor produtivo dos
emergentes - especialmente do Brasil, à medida que acarretam
desvalorização das moedas fortes e valorização das mais fracas, como o
real.

Ao denunciar a guerra cambial provocada pela política monetária das
grandes potências, o ministro Guido Mantega já denunciava esse efeito
e continua acreditando em que possa contar com séria discussão no
âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), sobre o impacto no
comércio global provocado pela manipulação do câmbio.

Mas não dá para afirmar que, por terem despejado nos mercados mais de
US$ 7 trilhões, os grandes bancos centrais estejam adotando políticas
condenáveis e, portanto, sujeitas a represálias pelo resto do mundo. E
não deixa de ser paradoxal que essa questão seja levantada no momento
em que Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (o banco central
dos Estados Unidos), e Mario Draghi, do Banco Central Europeu, estejam
sendo festejados como salvadores globais por dominarem com essas
políticas - ao menos temporariamente - os incêndios que varriam as
economias dos Estados Unidos e dos países-membros do bloco do euro.

Mas, afinal, o que é melhor para o Brasil: enfrentar o efeito
colateral dessas políticas (o tal tsunami de moeda estrangeira no
câmbio interno), mas trabalhar sem as turbulências que paralisaram a
economia mundial e a ameaçaram com uma tempestade perfeita; ou o
contrário? Por acaso, o governo do PT prefere a paisagem desoladora de
uma grande depressão global, de poder destrutivo equivalente ao dos
anos 30? Ou, então, poderia sugerir aos grandes bancos centrais
opções, politicamente viáveis, melhores do que a adotada?

O governo brasileiro também se contradiz quando condena o sacrifício
imposto às populações dos países ricos - em recessão, desemprego,
perda de salário e tal - e, ao mesmo tempo, acusa seus governos de
praticar políticas fiscais flácidas, que têm de ser compensadas em
seguida com despejo de trilhões de dólares.

Tivesse o Brasil poupança equivalente a 50% do PIB, como a da China,
seria possível neutralizar os efeitos deste e de outros tsunamis. Mas
não é o que acontece. O Brasil tem uma poupança insignificante, de
apenas 17% do PIB, que tende a ficar ainda mais baixa em consequência
da política econômica dos últimos anos, que privilegia o consumo em
nome da criação de um forte mercado interno.

Pode-se lamentar a falta de políticas preventivas contra enchentes.
Mas há um momento, como este, em que tudo o que é possível fazer é
passar os móveis para o andar de cima e depositar sacos com areia para
tentar deter os efeitos da enxurrada sobre a casa. No entanto, há
razões para acreditar que a indignação de Dilma tenha mais objetivo
interno do que externo

Quatro farsantes da política fiscal - PAUL KRUGMAN

FOLHA DE SP - 03/03/12

Os republicanos que estão gritando sobre o deficit não o reduziriam;
fariam o contrário, de fato

Mitt Romney está muito preocupado com nosso deficit orçamentário. Ou
pelo menos é o que diz; gosta de alertar que os deficit do presidente
Obama estão nos conduzindo a um "colapso em estilo grego".

Se isso é fato, por que Romney oferece uma proposta de Orçamento que
geraria dívida e deficit muito maiores do que os causados pela
proposta do governo Obama?

É claro que Romney não está sozinho em sua hipocrisia. Os republicanos
que continuam na disputa pela indicação presidencial são farsantes
fiscais. Fazem advertências apocalípticas sobre os perigos da dívida
do governo e, em nome da redução do deficit, exigem cortes selvagens
nos programas que protegem a classe média e os pobres. Mas propõem
desperdiçar todo o dinheiro economizado concedendo novos cortes de
impostos aos ricos.

O Comitê por um Orçamento Federal Responsável, apartidário, publicou
análises das propostas orçamentárias dos republicanos e da mais
recente proposta de Obama. As propostas de Newt Gingrich, Rick
Santorum e Romney resultariam todas em dívida nacional maior, em uma
década, se comparadas à proposta de Obama para 2013.

Romney afirma que seus cortes não causariam explosão do deficit porque
promoveriam crescimento mais rápido, e isso resultaria em alta na
arrecadação. Você pode considerar o argumento plausível, mas para isso
teria de ter passado as duas últimas décadas dormindo; se não o fez, é
provável que recorde que as mesmas pessoas garantiram que o aumento de
impostos de Bill Clinton em 1993 resultaria em desastre econômico, e
que os cortes de George W. Bush em 2001 gerariam imensa prosperidade.
Nenhuma dessas previsões se confirmou.

Assim, os republicanos que estão gritando sobre o deficit não o
reduziriam -fariam o contrário, de fato.

Outra organização apartidária, o Centro de Política Tributária,
analisou a proposta de Romney. Constatou que, comparada à política
vigente, ela elevaria os impostos dos 20% mais pobres, com cortes
drásticos em programas como o Medicaid. O 1% mais rico receberia
imensos cortes de impostos -e o 0,1% mais rico se sairia ainda melhor.

Os planos republicanos também cortariam os gastos em curto prazo,
imitando as catastróficas medidas europeias, e imporiam cortes de
impostos capazes de destruir qualquer Orçamento, em prazo mais longo.

A questão é determinar se alguém que ofereça essa tóxica combinação de
irresponsabilidade, guerra de classes e hipocrisia será mesmo capaz de
se eleger presidente.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

sexta-feira, março 02, 2012

A grande lambança - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 02/03/12


Quando uma aliança de poder se sustenta quase que exclusivamente sobre
as bases voláteis da barganha política e dos interesses rasteiros dos
mandachuvas, a máquina do governo inevitavelmente acaba tropeçando na
escassez de competência gerencial da companheirada ou no excesso de
ambição dos chefetes de facção. Exemplos abundantes da incapacidade do
governo federal de tocar com um mínimo de eficiência seus projetos
mais importantes, como os do Programa de Aceleração do Crescimento
(PAC), esgotam a paciência de qualquer um. Mas a lambança armada na
disputa de poder entre executivos de primeiro escalão do Banco do
Brasil (BB) e da bilionária caixa de previdência dos funcionários da
casa - a Previ - parece ter levado ao limite a tolerância da chefe do
governo com aquilo que ela própria costuma chamar, eufemisticamente,
de "malfeitos".

O presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, é desafeto declarado
do presidente da Previ, Ricardo Flores, que conta com o apoio de gente
importante do PT. E a desafeição é recíproca. Ambos são reconhecidos
como profissionais competentes na área financeira, julgamento
respaldado pelos balanços do banco e do fundo de pensão. Mas nenhum
dos dois - obviamente afinados com os interesses dos figurões do
governo e dos partidos que lhes garantem a retaguarda - está
satisfeito com a extensão de seus domínios. Engalfinharam-se, então,
numa disputa pública que ultrapassou o limiar da baixaria quando veio
à luz a evidência de que o conflito está sendo municiado com quebra
ilegal de sigilo bancário e dossiês destinados a comprometer a
reputação dos oponentes. O que, aliás, não chega a ser novidade,
considerando que esses são, historicamente, recursos diletos das
falanges petistas. E que, afinal, não são usados exclusivamente contra
inimigos "de fora".

O imbróglio fez soar o alarme no Palácio do Planalto já no fim do ano
passado, quando começaram a vazar informações - ao que tudo indica,
baseadas em quebra ilegal de sigilo bancário - de que um dos
vice-presidentes do BB, Allan Toledo, estaria envolvido numa
"movimentação financeira atípica" de quase R$ 1 milhão. Toledo era
aliado do presidente da Previ. Foi demitido em dezembro pelo Conselho
de Administração do banco, presidido pelo secretário executivo do
Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. O presidente do banco, Bendine,
a quem Toledo teria "traído", é considerado homem de confiança do
ministro Guido Mantega.

Com o recrudescimento da guerra entre os comandos do BB e da Previ, a
presidente da República chegou à conclusão de que era hora de
intervir. Enviou, segundo fontes do próprio Palácio do Planalto,
emissários para dar um ultimato a Bendine e a Flores: o fim das
hostilidades ou a demissão de todos. E agora o Ministério da Fazenda
instruiu o Banco do Brasil a abrir uma sindicância para tirar a limpo
as suspeitas de quebra ilegal de sigilo bancário e as denúncias de
irregularidades que resultaram na queda de um dos vice-presidentes da
instituição. Ao que tudo indica, portanto, outras cabeças podem rolar.

É impossível prever o resultado final dessa lamentável lambança que
envolve duas das mais importantes instituições financeiras do País
controladas pelo governo. Este parece agir agora movido, por um lado,
pela preocupação de preservar, num mercado extremamente sensível a
extravagâncias de qualquer tipo, a credibilidade tanto do Banco do
Brasil quanto da Previ. E, por outro lado, de evitar que a
irresponsabilidade política de dois de seus principais agentes e
respectivas entourages comprometa a imagem do próprio poder central.
Dessa perspectiva, o ultimato de Dilma tem todo cabimento.

Ocorre que, numa situação extrema, a presidente poderá livrar-se dos
presidentes do BB e da Previ para salvar as aparências. Mas o
sacrifício dos dois peões será claramente insuficiente para abater a
ambição desmedida por poder que acaba colocando o interesse público em
plano secundário. Por detrás de Bendine e de Flores agem, à sorrelfa,
figuras influentes encasteladas nos escalões superiores tanto do
governo quanto dos partidos que o apoiam. De pouco adianta espantar as
moscas que se refestelam no bolo do poder.

Miriam Leitão Contra a corrente

O GLOBO - 02/03/12

O governo brasileiro passou mais uma trava na porta da mesma
tecnologia: aumentou o prazo para que o capital estrangeiro possa
ficar livre do IOF. Antes, empréstimo com vencimento abaixo de 90 dias
pagava imposto. Em março passado, foi para um ano; em abril, dois
anos; em julho, foi criado o imposto sobre derivativos. Ontem, o prazo
foi de novo ampliado, para três anos. O país tenta em vão conter a
enxurrada de dólares.

O gráfico abaixo foi elaborado pela consultoria inglesa Capital
Economics e mostra todas as vezes em que o governo baixou alguma
medida para impedir a valorização do real. Vejam que, apesar de todas
as intervenções, o real continuou se valorizando, até que a crise na
Zona do Euro ficou mais forte, por volta de setembro de 2011, e a
moeda brasileira se desvalorizou muito rapidamente.

O economista Alexandre Schwartsman, da Schwartsman e Associados,
acredita que as medidas do governo não têm efeito sobre a taxa de
câmbio e acontecem apenas para mostrar que algo está sendo feito.
Segundo ele, o que realmente importa para definir a cotação do real é
a relação do dólar perante uma cesta de moedas internacionais e o
preço das commodities que o Brasil exporta.

- Quando o dólar se desvaloriza em relação ao euro, ele também perde
valor em relação a uma cesta de moedas de países emergentes. É um
fenômeno que não acontece apenas com o real. Já em relação às
commodities, o Brasil é um exportador líquido, e isso quer dizer que
quando o preço delas fica mais alto, mais dólares vêm para o país -
explicou Alexandre.

De fato, os números mostram que a valorização do real não é caso
isolado. Em relação ao peso mexicano, por exemplo, a desvalorização do
dólar é de 8,58% este ano, maior do que os 8,4% de perda frente o
real. A moeda americana também cai 7,82% sobre o rand sul-africano;
7,29% em relação ao dólar neozelandês; e 5,42% sobre o dólar
australiano. Ou seja, a nossa moeda tem o mesmo comportamento que a de
outros países, principalmente dos que são exportadores de
matérias-primas.

O que realmente acontece é que em momentos de relativa tranquilidade
na economia mundial a moeda americana se desvaloriza. Em agosto de
2008, por exemplo, antes do estouro da crise internacional e de toda a
expansão monetária feita pelos banco centrais para combater a crise, o
dólar chegou a ser cotado a R$ 1,55, no dia 1 de agosto.

Schwartsman questiona o conceito de guerra cambial anunciado pelo
governo. Explica que a ação do Banco Central Europeu (BCE) de emitir
mais euros não teve como objetivo desvalorizar a moeda, mas sim evitar
que houvesse a quebra de alguma instituição financeira na Zona do
Euro, que provocasse uma crise sistêmica.

- Quando o BCE aumentou a base monetária, o efeito foi de valorizar o
euro, e não desvalorizar. O euro estava se desvalorizando com o
crescimento da crise e a desconfiança sobre a Zona do Euro. Quando o
BCE afastou o risco de quebra de algum banco, o euro voltou a ser uma
moeda atrativa e se valorizou em relação ao dólar. É exatamente o
contrário - disse.

De uma forma geral, a reação do mercado sobre a medida do governo foi
de descrença. O Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco, por
exemplo, acredita que novas medidas serão anunciadas, mas que ainda
assim a tendência será de valorização da moeda brasileira.

"Tal medida e os sinais de que o governo pode intervir de outras
formas sobre o mercado cambial podem minimizar a pressão de curto
prazo para a valorização do real. Contudo, continuamos acreditando que
os fundamentos apontam na direção de um câmbio mais apreciado do que
no nível atual, diante da liquidez mundial abundante", disse o banco
em relatório.

A valorização do real tem efeitos benéficos porque estimula os
investimentos. Schwartsman lembra que os investimentos no Brasil estão
num nível baixo, na casa de 18% do PIB, e que essa taxa seria ainda
mais baixa se a moeda fosse desvalorizada:

- Só existem três formas de levantar recursos para investir: o governo
corta gastos e faz poupança; os consumidores cortam gastos e fazem
poupança; toma-se poupança de outros países. Como no Brasil o governo
aumenta os gastos e estimula também as compras dos consumidores, só
sobra a poupança externa. É por isso que temos um déficit em conta
corrente de cerca de US$ 50 bilhões.

Diante de um quadro de relativa impotência sobre o câmbio, o governo
deveria trabalhar para dar mais condições de competitividade para a
indústria, que é quem mais sofre com a concorrência dos importados e
as dificuldades em exportar. Mas até a indústria se beneficia em parte
da alta do real porque pode importar máquinas que aumentam a
produtividade. O comércio também agradece o fortalecimento da moeda,
porque isso facilita importações e aumenta a concorrência entre os
seus fornecedores.

Merval Pereira Mandato-cidadão

O Globo - 02/03/12

A relação do eleitor com o candidato sofrerá uma alteração fundamental
a partir destas eleições municipais, as primeiras a se realizarem sob
os efeitos de uma mudança cultural no país simbolizada pela aprovação
da Lei da Ficha Limpa pelo Supremo Tribunal Federal.

Mas já existem outros marcos legais que acabaram criando um caldo de
cultura favorável à moralização do serviço público.

São eles a Lei da Improbidade Administrativa, de 1992; a Lei da
Transparência, de 2009; a Lei do Acesso à Informação Pública, de 2011;
e a Lei de Responsabilização de Pessoa Jurídica, em tramitação no
Congresso.

Para monitorar a aplicação dessas leis, as redes de controle social
envolvem hoje cerca de três mil associações civis dispostas a exigir o
cumprimento de suas exigências através das ações judiciais e do
trabalho dos Ministérios Públicos federal e estaduais.

A demanda por moralidade por parte da opinião pública,
independentemente de condutas éticas individuais, é um fenômeno social
de nossos dias, dinamizado pela ação das redes sociais de
relacionamento, que terão papel influente nestas eleições.

As propostas mais frequentes da 1 Conferência Nacional sobre
Transparência e Controle Social (Consocial), por exemplo, abrangem a
inclusão de disciplina sobre ética e cidadania na grade curricular do
ensino fundamental; instalação de conselhos municipais de
transparência; a criação da Casa dos Conselhos nos municípios, que
abrigarão os conselhos municipais de políticas públicas;
aperfeiçoamento dos portais de transparência do Poder Público,
integrando-os às estruturas das ouvidorias; punições mais severas para
os crimes de corrupção.

A expectativa é que um milhão de pessoas estejam mobilizadas ao fim do
processo. Em virtude desse novo caldo de cultura da nossa política, já
existe a disposição de setores empresariais de não se limitarem a
financiar candidatos que apenas atendam a seus interesses
corporativos, por mais legítimos que sejam.

Estão dispostos a financiar organizações da sociedade civil de
interesse público (Oscips) e de controle social. Organizações como
Contas Abertas, que fiscaliza as contas governamentais na internet;
Voz do Cidadão, que trabalha para disseminar a cidadania pela
população; Amarribo, que combate a corrupção e atua na promoção da
cultura da probidade.

E muitas outras associações da sociedade civil, preocupadas com o
monitoramento das promessas de campanha, da boa aplicação do dinheiro
público e do desempenho do Judiciário.

Ontem, em um seminário do qual participei na Academia Brasileira de
Filosofia sobre sustentabilidade urbana, Oded Grajew, da Rede Nossa
São Paulo, falava sobre a alteração que a cobrança de metas está
realizando no comportamento dos políticos e, sobretudo, no dos
eleitores.

Ele considera que as eleições municipais podem criar um novo padrão de
relação dos cidadãos com a política, candidatos e os gestores públicos
municipais assumindo compromissos concretos, e os cidadãos
acompanhando os resultados desses compromissos.

O Programa Cidades Sustentáveis, uma realização da Rede Nossa São
Paulo, em parceria com a Rede Social Brasileira por Cidades Justas e
Sustentáveis e o Instituto Ethos, oferece uma agenda para a
sustentabilidade com a qual candidatos a prefeitos de diversos
municípios poderão se comprometer publicamente.

Também Mario Mantovani, da SOS Mata Atlântica, anunciou que uma
plataforma de sustentabilidade será apresentada a candidatos a
vereadores de diversos municípios para garantir a adesão política.

O publicitário Jorge Maranhão, dedicado à causa da cidadania e que tem
o site A Voz do Cidadão, onde põe em debate os direitos e os deveres
de um verdadeiro cidadão, já concebeu diversas campanhas, a mais
recente tendo sido colocar em circulação pelas cidades do país o
Cidadômetro, concebido como uma complementação do Impostômetro, que
mede, em São Paulo, o quanto de impostos o cidadão paga.

Assim como o relógio que mede os impostos, localizado na Avenida
Paulista, procura chamar a atenção do consumidor para o tamanho de
nossa carga tributária, Maranhão foi à rua tomar o pulso da cidadania,
tanto no sentido de iniciativa quanto de mensuração propriamente dita.

Ele agora está lançando o "mandato-cidadão", para parlamentares
comprometidos com a transparência e a prestação de contas.

Maranhão está convencido de que já existe uma massa crítica hoje no
Brasil de cidadãos dispostos a sair de uma cidadania de primeiro grau,
que se define pela solidariedade, preocupação com o meio ambiente e o
espaço público, os equipamentos urbanos, para exercer o que ele chama
de "cidadania atuante", que é o uso das instituições de controle do
Estado, independentemente de partidos. "Cidadãos que não aceitam mais
o Estado ser aparelhado por conveniências políticas", define.

"Ninguém vai acabar com a corrupção", admite Maranhão, que, no
entanto, entende que existe um grupo de parlamentares, nos diversos
níveis federativos, que pode dar o norte para as instituições, levando
consigo a maioria.

Não importa se esse parlamentar é do governo ou de oposição, diz
Maranhão, "o que ele precisa ser é um representante da sociedade".

Esses deputados federais, estaduais e vereadores que se comprometerem
com a ética e a transparência públicas receberão a chancela do
"mandato-cidadão".

Para Maranhão, tanto o "cidadão eleitor" quanto o "cidadão eleito"
precisam acreditar que, se não houver instituições fortes, não há
democracia. "Ficamos então à mercê de golpistas e de demagogos".

Ele se indigna com a confusão de moral pública com moralismo, com
udenismo. "Isso é cínico. Nós temos a responsabilidade política de
fazer a futura geração acreditar no Congresso".

Celso Ming Canibalismo monetário

O Estado de S. Paulo - 02/03/2012
 


A presidente Dilma Rousseff tentou compensar com contundência verbal a falta de contundência prática do governo nas decisões anunciadas ontem para estancar ou reverter a valorização do real (queda do dólar).

Dilma criticou os países ricos por "canibalizarem os emergentes" com "políticas monetárias inconsequentes". Ou seja, condenou as impressionantes emissões de moeda do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e do Banco Central Europeu (BCE) para desbloquear o crédito nos países de origem, pelo impacto negativo que provocam no resto do mundo - especialmente nos emergentes.

Os ingleses chamam a isso de reduzir o vizinho à condição de mendigo (beggar thy neighbour). O ministro da Fazenda, Guido Mantega, preferiu defini-lo como guerra cambial.

A agressividade verbal da presidente pode significar ou a necessidade de maior rigor no controle do afluxo de moeda estrangeira sobre o Brasil; ou a falta de opções eficazes à disposição do seu governo.

Mantega impôs novo aperto à tomada de empréstimos externos pelas empresas brasileiras. Até ontem, financiamentos levantados lá fora com prazo inferior a 720 dias (dois anos) pagavam pedágio (IOF) de 6% - para serem desestimulados. A decisão de ontem ampliou esse prazo para 1.080 dias (três anos).

Como Mantega ameaçava acionar seu "arsenal de medidas", sugerindo recorrer a artilharia pesada, a decisão foi tão branda que foi recebida com alívio. Pareceu que o governo não pretendeu mais do que equiparar o prazo mínimo desses empréstimos externos ao dos de três anos, que o BCE concedeu nas Operações de Refinanciamento de Longo Prazo (LTRO, na sigla em inglês) aos bancos europeus.

Ainda ontem, o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, apontado como consultor informal da presidente Dilma para assuntos econômicos, também considerou baixo o fogo de artilharia. Sugeriu que as entradas no País de recursos financeiros fossem submetidas à quarentena, ou seja, que ficassem por um período paradas no Banco Central, sem direito à remuneração.

Belluzzo recomendou, também, triagem na entrada de Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs). Isso exigiria a adoção de um critério objetivo para acolher com champanhe e banda de música os capitais desejáveis (que viessem para investir e criar empregos) e mandar de volta os indesejáveis. A ideia não é só evitar a entrada de recursos destinados a especular com diferença de juros; é, principalmente, evitar que capitais predatórios concorram para valorizar o real (derrubar o dólar) e, assim, tirar competitividade da produção nacional.

Essas propostas enfrentam dois problemas. O primeiro é entender que a entrada de recursos especulativos seja relevante. Dirigentes do Banco Central têm dito que não são. E o segundo, que esse controle qualitativo dos investimentos seja de aplicação simples. Por que investimentos em indústria de capital chinês seriam bem-vindos e os feitos em supermercados (como Walmart ou Carrefour) não? Ontem, Mantega negou a intenção do governo de "taxar a entrada de IEDs".

Fica no ar a pergunta: afinal, o que a presidente Dilma pretende fazer para evitar o canibalismo das grandes potências sobre as vítimas emergentes?

Dora Kramer - Apendicite aguda

O Estado de S. Paulo - 02/03/2012
 

 Explodiu mais cedo do que se imaginava a insatisfação latente entre os aliados do governo com a percepção de que são apenas linhas auxiliares na construção do projeto hegemônico do PT, assunto abordado aqui a partir de entrevista do líder do partido na Câmara, Jilmar Tatto, na qual deixava patente o papel secundário dos parceiros de aliança.

A reação surgiu na forma de um manifesto assinado por mais da metade da bancada do PMDB na Câmara reclamando da relação "injusta e desigual" com o PT.

O documento refere-se ao tratamento diferenciado dado aos petistas no governo na comparação com outros integrantes da base de sustentação, tem algum caráter de pressão fisiológica, mas na essência alcança razões mais profundas.

São compartilhadas por todos os demais partidos da coalizão governamental, mas explicitadas pelo PMDB que, até pelo peso e pelo fato de ocupar a Vice-Presidência da República, acaba funcionando como uma espécie de porta-voz da revolta geral.

Se a ópera pudesse ser resumida numa frase, seria a seguinte: o PMDB cansou de ser periferia. Percebeu que estava melhor quando não submetido à obediência decorrente da ocupação da Vice-Presidência da República e concluiu que fez um mau negócio.

A contrariedade emerge de um motivo pragmático: o risco iminente à sobrevivência do partido.

Importante por ter presença no País todo, por ocupar o maior número de prefeituras Brasil afora e por ter representação forte no Congresso, o PMDB começou a se dar conta de que não apenas a situação pode mudar (para pior) como detecta no PT a execução de um plano estratégico para virar esse jogo.

Avançando sobre as trincheiras peemedebistas nos Estados e municípios sem levar em conta critério de contrapartida na formação das alianças eleitorais e, no plano nacional, alijando o partido do centro das decisões de poder.

É um movimento de confronto ao governo? Não só. Oficialmente o ataque dirige-se ao PT, mas internamente a intenção é "sacudir" a cúpula, tida como excessivamente submissa ao Palácio do Planalto por causa de projetos individuais.

Principalmente dois: o do líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves, e o do vice-presidente Michel Temer. O primeiro quer presidir a Casa a partir de 2013; o segundo pretende assegurar o lugar de vice na eleição de 2014.

Em nome disso, reclamam os deputados, submetem-se passivamente à ofensiva do PT sem cuidar da preservação do partido em si que, na avaliação de lideranças, corre o risco de virar o DEM do PSDB.

Ou seja, tanto atua a reboque do carro-chefe, quanto aceita as regras da conveniência do outro que, quando acorda, está em vias de extinção sem força, voz nem consistência para reagir.

É essa a discussão de fundo, muito mais que a reivindicação de cargos aqui e ali. Uma situação complicada, pois o PMDB não tem para onde ir. Mas ali já começa a crescer a percepção de que talvez seja melhor tentar sobreviver só do que permanecer como apêndice e morrer mal acompanhado.

Algo se move. As condenações em primeira instância de Marcos Valério e Waldomiro Diniz, nos últimos 15 dias, lançam crédito na eficácia, ainda que lenta, da Justiça e desmoralizam as afirmativas sobre o caráter "fantasioso" e "golpista" dos escândalos em que ambos dividiram a cena com figuras proeminentes do governo federal.

Febeapá. Marcelo Crivella diz que terá de "aprender muito" sobre suas novas funções. Maravilha. Mais não seja para, uma vez inteirado do assunto, explicar ao País qual é mesmo a serventia do Ministério da Pesca.

Ademais, a declaração de Crivella sobre inépcia no trato de minhocas e anzóis é especialmente constrangedora para a presidente Dilma que inaugura o que seria o "primeiro ano de seu verdadeiro governo", como se diz por aí, enveredando pelo perigoso terreno da galhofa.

Homens (e mulheres) de preto :Nelson Motta

O Globo - 02/03/2012
 

 

Como um capitão Nascimento da magistratura, a ministra Eliane Calmon está combatendo os bandidos de toga, os traficantes de sentenças e os vagabundos infiltrados no Judiciário, em defesa da imensa maioria de juizes honestos e competentes que honram a instituição. Por isso é alvo do tiroteio corporativo que tenta fazer de acusações a maus juízes suspeitas sobre toda a classe.

Para merecer os privilégios de que desfrutam, maior rigor é exigido dos que julgam. Nesta nobre função não basta ser honesto, é preciso parecer honesto, ter a integridade, a independência e a competência exigidas pela magistratura, para que a Justiça seja respeitada, e temida, porque sem ela não há democracia.

"Não tenho medo dos maus juízes, mas do silêncio dos bons juízes, que se calam quando têm que julgar colegas", fuzilou a faxineira-chefe, e quem há de contestá-la? Todo mundo entende as relações de amizade que se estabelecem ao longo de muitos anos de trabalho, mas quem escolhe esta carreira - ao contrário de engenheiros, médicos, advogados ou músicos - tem que estar preparado para julgar igualmente a todos, do batedor de carteiras ao presidente da República - e aos seus colegas.

Com razão, ela diz que os juízes de segundo grau, quando enveredam para o mal, são os mais deletérios, porque os de primeira instância, por corrupção ou incompetência, podem ter suas sentenças anuladas pelo colegiado do tribunal superior. Mas é quase impossível um desembargador ser condenado pelos seus pares.

A ministra os conhece bem: "esses malandros são extremamente simpáticos, não querem se indispor, dizem que o coração não está bom, que estão no fim da vida." Alguém imagina os desembargadores do Tribunal de Justiça, digamos, do Maranhão, condenando à pena máxima - aposentadoria remunerada - algum colega agatunado? Quanta pressão um juiz pode suportar do político que o nomeou ?

Por tudo isto a corregedora nacional apoia a emenda constitucional do senador Demóstenes Torres para que os desembargadores sejam julgados com isenção, não por seus colegas de tribunal, mas pelos juizes do Conselho Nacional de Justiça.

Gastar é fácil, investir nem tanto Rogerio Furquim Werneck


O Globo - 02/03/2012
 

Em artigo publicado há quase cinco anos, o ex-ministro Antonio Palocci fez ponderações sobre entraves aos investimentos do PAC que, a cada dia, soam mais oportunas (O GLOBO, 16/9/2007). Arguiu que, no governo, o investimento costuma ser "a mais difícil das tarefas". E que, em vista das dificuldades envolvidas, não só na escolha dos projetos, como nas fases de planejamento, financiamento e execução, "os gastos correntes tendem a ganhar de goleada dos gastos com investimentos".

O que Palocci queria dizer era que, ao escolher que uso dar aos recursos fiscais adicionais propiciados, ano após ano, pelo crescimento da arrecadação, o governo vinha mostrando preferência inequívoca por aumento de dispêndio corrente. E que, mesmo quando a escolha recaía sobre o investimento, à medida que a execução dos projetos se atrasava, na esteira de incontáveis dificuldades, a sobra de recursos fiscais acabava por viabilizar expansão adicional de gastos correntes.

São ponderações que continuam a merecer atenção. Nos últimos anos, o governo não encontrou dificuldade para expandir em muito seus gastos correntes. Aumentar o investimento público, no entanto, continua sendo muito difícil. E não se trata apenas de evitar que a expansão tão fácil dos gastos correntes acabe por inviabilizar o aumento dos investimentos. Trata-se também, e principalmente, de conseguir fazer o investimento acontecer, quando o financiamento está plenamente garantido.

No ano passado, o governo não tinha qualquer intenção de conter seus gastos de investimento. Muito pelo contrário. Ainda assim, o que se constatou, afinal, foi que tais gastos permaneceram estagnados, em nível equivalente ao de 2010. Não por ter havido contingenciamento de verbas ou qualquer outra forma de restrição ao financiamento. Mas, simplesmente, porque, em ministérios infestados por esquemas de corrupção, o governo se viu obrigado a desmantelar as cadeias de comando que acionavam o investimento. E ainda não conseguiu remontá-las.

A remontagem promete ser bem mais complexa do que o governo antevia, como bem ilustram as dificuldades de reconstrução do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, o emblemático Dnit. De acordo com seu novo diretor, o órgão teria de contar com o dobro dos funcionários com que agora conta, para que pudesse ter chance de desempenhar a contento o papel que dele se espera, na gestão dos programas de investimento público sob sua responsabilidade. Em vista dessas dificuldades, já há quem argua que talvez faça mais sentido reconstruir o Dnit em outras bases.

Além de corrupção escancarada, o atrofiado esforço de investimento que ainda subsiste no orçamento federal vem enfrentando os custos do problemático loteamento de cargos que vem sendo feito pelo governo, em nome de um presidencialismo de coalizão que parece já ter ido bem mais longe do que seria razoável. A mídia tem dado destaque à licença com que políticos agraciados com a gestão de determinados órgãos da administração pública interpretam os poderes de que foram investidos. Proliferam casos de gestores que se permitem concentrar a maior parte dos investimentos dos órgãos que administram em projetos de interesse exclusivo dos Estados de onde são oriundos.

A grande vantagem da presidente é que dela não se pode dizer que lhe falte reflexão prévia sobre esses problemas. Desde o primeiro mandato do presidente Lula, Dilma Rousseff está mobilizada com o desafio de assegurar que os programas de investimento público avancem conforme previsto. E foi exatamente isso que, na transição do governo anterior para o atual, assegurou tão alto grau de continuidade na gerência dos programas de investimento público. Prestes a completar sete anos de envolvimento diário com tais problemas, a presidente já não tem como alegar surpresa diante de qualquer dos desafios envolvidos na complexa gestão dos investimentos do governo. Não pode se dar ao luxo de apresentar mais um ano de desempenho medíocre nessa área.

Governo ainda não conseguiu deslanchar o investimento público

ROGERIO FURQUIM WERNECK é economista e professor da PUC-Rio.

quinta-feira, março 01, 2012

Xeque em quatro - ALEXANDRE SCHWARTSMAN

VALOR ECONÔMICO - 01/03/12

O crescimento industrial em 2011 foi fraco, marcado pela expansão
pífia da indústria de transformação, apenas 0,2%. Mesmo este
resultado, todavia, não revela a real extensão da questão: seguindo-se
a um crescimento robusto no primeiro trimestre do ano passado, a
produção manufatureira caiu nos três trimestres seguintes, apesar do
desempenho mais favorável no fim de 2011.

Em que pese a ligação entre produção industrial e o Produto Interno
Bruto (PIB) ter perdido força nos últimos anos, tal resultado parece
ter reforçado a noção que o Banco Central (BC) teria "acertado o
cenário" ao apostar suas fichas na crise internacional, que teria
efeito de natureza semelhante, embora em escala menor, ao da crise de
2008-09. A redução da produção teria resultado da fraqueza da demanda
externa, afetando mais a indústria, por ser este um setor mais exposto
ao comércio internacional, em particular exportações.

No entanto, uma investigação mais detalhada revela que os dados não
apoiam a conclusão acima. A começar porque, ao contrário do observado
em 2008-09, a queda da produção não aparenta ter resultado
primordialmente do desempenho das exportações industriais. Àquela
época os segmentos industriais com maior exposição ao mercado externo
lideraram a redução da produção, fenômeno que não encontra paralelo na
situação atual, uma indicação que a natureza da estagnação é distinta
da observada no passado.

Projeções do BC já indicam que queda da inflação pode acabar,
provavelmente, no terceiro trimestre

Ainda que esta observação já indique uma diferença potencialmente
relevante entre o desempenho industrial corrente e passado, com
consequências que exploraremos à frente, é necessário dar um passo
adiante na análise do problema, o que requer um pouco mais de
estrutura, a saber, um modelo que permita decompor os impactos sobre a
produção local advindos da demanda doméstica, aqui aproximada pelo
comportamento das vendas varejistas, e da demanda externa, medida
pelas quantidades exportadas de produtos industrializados.

O gráfico mostra os resultados de nossa estimação (omitindo, para fins
de clareza de exposição, outras variáveis utilizadas no modelo)
revelando que, em contraste com o que se observou durante a fase mais
aguda da crise internacional, não foi a fraqueza das exportações de
industrializados que trouxe o crescimento manufatureiro para baixo,
mas sim, principalmente, a demanda interna (no caso, as vendas
varejistas).

Isto dito, resta ainda saber o que restringiu o crescimento das vendas
no varejo e, mais importante, suas implicações. A evidência disponível
aponta para a elevação das taxas de juros em conjunto com as medidas
de restrição ao crédito como os suspeitos mais prováveis. De fato, a
desaceleração mais intensa ocorreu nos setores mais sensíveis à taxa
de juros e às condições de crédito, em particular no segmento
automotivo, uma indicação forte da característica do processo.

Todavia, se isto é verdade (e eu creio que é), quais seriam as
decorrências de tal fato?

Considerando que os juros caíram para suas mínimas históricas e que as
restrições ao crédito foram afrouxadas no fim de 2011, conclui-se que
a demanda doméstica deverá, provavelmente já ao fim deste trimestre,
começar a crescer de forma mais vigorosa, fenômeno que deve se
fortalecer a partir do segundo trimestre deste ano, a valerem as
defasagens habituais entre alterações da política monetária e a
resposta da demanda (cerca de dois trimestres).

Como os efeitos contrários dos ventos internacionais são mais fracos
do que presumido pelo BC, a aceleração da demanda doméstica deve se
traduzir, a exemplo de 2009, em expansão mais vigorosa da indústria.
Porém, em contraste com o ocorrido àquela época, a economia brasileira
não dispõe da mesma folga de recursos para expandir a produção sem
incorrer em pressões inflacionárias.

Não é demais lembrar que a indústria em 2009 partiu de uma situação em
que o nível de utilização de capacidade instalada caíra abaixo de 79%,
contra um pico de quase 84% no terceiro trimestre de 2008, correndo
hoje pouco acima de 81%. Já o desemprego subira para algo mais de 8%
em seguida à crise, uma elevação da ordem de 1 ponto percentual. Agora
observamos o desemprego (na série livre de influências sazonais) na
casa de 5,5%, o mais baixo desde que a série se iniciou em 2002.

Não por acaso, portanto, as próprias projeções do BC já indicam que a
queda da inflação medida em 12 meses tem data marcada para acabar,
provavelmente no terceiro trimestre de 2012. A partir daí a inflação
deve retomar a trajetória ascendente, sem convergência à meta,
colocando em xeque a estratégia atual de política monetária.

Uma vela para Deus, outra... - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 01/03/12

BRASÍLIA - Ao nomear Marcelo Crivella para o Ministério da Pesca, a
presidente Dilma Rousseff tenta matar dois coelhos com uma cajadada
só, ou melhor, com uma canetada só. Quer satisfazer o PRB e, ao mesmo
tempo, acalmar os evangélicos, de olho no Congresso e na eleição para
a Prefeitura de São Paulo.

Crivella é senador do PRB, partido que não tinha nenhum ministério até
agora, coitado, e tem um nome para a prefeitura, Celso Russomanno, que
lidera as pesquisas e pode tirar votos do candidato do PT, Fernando
Haddad. Uma coisa -o ministério- pode compensar a outra -o fim da
candidatura de Russomanno.

Mais que isso, Crivella é bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e
influente integrante da chamada "bancada evangélica", que anda de mau
humor com o Planalto e com Haddad por erros e por acertos do governo:
a nomeação da ministra Eleonora Menicucci (Mulheres), defensora
assumida do aborto; a convocação do ministro Gilberto Carvalho
(Secretaria-Geral da Presidência) para que as esquerdas travem uma
"disputa ideológica" com as igrejas pela "nova classe média"; e o kit
anti-homofobia do MEC à época de Haddad.

Colocados os dados políticos da escolha de Crivella, vem a pergunta
que não quer calar: o que o senador evangélico entende de pesca?

Provavelmente, nada, o que não é nem mais nem menos do que seus
antecessores no governo Dilma, os petistas Luiz Sérgio, que conseguiu
a proeza de pescar duas demissões num único governo, e Ideli Salvatti,
que virou ministra da articulação política e foi jogar o arrastão em
águas mais profundas -no Congresso.

Essas escolhas apenas comprovam que o Ministério da Pesca é uma
abstração e foi criado exatamente para isso: acomodar interesses e
aliados políticos, além de justificar uma penca de emendas
parlamentares. Poderia ser o ministério do frango, da soja, do gado de
corte, do gado leiteiro, quem sabe das almas?

Mais meio trilhão de euros - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 01/03/12


Foi grande ontem o comparecimento dos bancos europeus à segunda
megaoperação de crédito barato promovida pelo Banco Central Europeu
(BCE).

Desta vez, nada menos que 800 bancos tomaram 529,5 bilhões de euros em
empréstimos, por três anos, dentro das condições da Operação de
Refinanciamento de Longo Prazo (LTRO, na sigla em inglês).

Para as instituições financeiras europeias, é mamão com açúcar.
Poderão agora aplicar esse capital (pelo qual pagarão juros de apenas
1% ao ano) em títulos dos países do euro que lhes renderão, no mole,
juros de 3%, 4% ou 5% ao ano. Até recentemente, um banco que se
atirasse ao crédito fácil junto ao banco central de seu país era visto
com suspeita, porque indicava problemas patrimoniais. Pois até esse
estigma parece ter sido removido depois que, encorajados pelo BCE,
bancos reconhecidamente sólidos admitiram ter recorrido a esse guichê.

Só nas duas operações desse tipo - a de ontem e a de 21 de dezembro -
o BCE, presidido pelo italiano Mario Draghi (foto), despejou mais de 1
trilhão de euros. O objetivo é proporcionar abundância de recursos
que, em seguida, vão disputar a compra de títulos que vierem a ser
colocados no mercado para dar cobertura a déficits e, assim, ajudarão
a derrubar os juros de longo prazo - cuja alta vinha tirando
sustentação das dívidas públicas da área do euro (veja o Confira).

Desde 2008, o BCE emitiu nada menos que 3,2 trilhões de euros para
tirar o fôlego da crise. Mas esses mecanismos não resolvem os enormes
problemas que estão nos fundamentos do euro; apenas desmontam fatores
imediatos de pânico que uma quebra em cadeia dos bancos provocaria.
Nessas condições, ajudam a ganhar tempo que pode, em princípio, ser
aproveitado pelas autoridades para encaminhar soluções de fundo.

O BCE corre dois grandes riscos: primeiro, o de provocar inflação, que
poderia vir na cauda dessas enormes emissões de moeda; segundo, perder
certa dose de credibilidade. Explica-se: como garantia desses
empréstimos de três anos, o BCE passou a aceitar títulos públicos e
privados de dívida cuja qualidade levanta reservas no mercado.

Essas operações do BCE somam-se às equivalentes do Federal Reserve
(Fed, o banco central dos Estados Unidos), do Banco da Inglaterra e do
Banco do Japão na produção de importantes efeitos colaterais. Geram
enorme liquidez (abundância de dinheiro). Se somente um grande banco
central recorresse a elas, o efeito da desvalorização de sua própria
moeda seria mais visível. No entanto, como todos eles estão emitindo,
as desvalorizações em boa parte se anulam quando comparadas entre si -
e arrastam também o yuan da China, que tem suas cotações amarradas à
do dólar. É o grande jogo global das moedas que o ministro da Fazenda
do Brasil, Guido Mantega, está chamando de guerra cambial.

Como já analisado nesta Coluna em outros momentos, do ponto de vista
do Brasil essa megainjeção de moeda nos mercados já provocou - e tende
a continuar provocando - valorização do real (baixa do dólar), porque
o Banco Central brasileiro não tem capacidade de contra-ataque que
evite inflação imediata nas proporções que neutralizariam essa
consequência.

Heraldo, a cor e a alma - DEMÉTRIO MAGNOLI

O Estado de S.Paulo - 01/03/12


A retratação, obtida por meio dos tribunais, circula na imprensa e na
internet. Nela o blogueiro Paulo Henrique Amorim retira cada uma das
infâmias que assacou contra o jornalista Heraldo Pereira, apresentador
do Jornal Nacional e comentarista político do Jornal da Globo. No seu
blog, entre outras injúrias, Amorim classificou Heraldo como "negro de
alma branca" e escreveu que o jornalista "não conseguiu revelar nenhum
atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem
humilde".

Confrontar o poder, dizendo verdades inconvenientes às autoridades -
na síntese precisa do intelectual britânico Tony Judt, é essa a
responsabilidade dos indivíduos com acesso aos meios de comunicação.
Amorim sempre fez o avesso exato disso. A adulação, reservada às
autoridades, e a injúria, dirigida aos oposicionistas, são suas
ferramentas de trabalho. Não lhe falta coerência: ao longo das
oscilações da maré da política, do governo João Figueiredo ao governo
Dilma Rousseff, sem exceção, ele invariavelmente derrama elogios aos
ocupantes do Palácio do Planalto e ataca os que estão fora do poder.
Às vésperas da disputa presidencial de 1998, no comando do jornal da
TV Bandeirantes, engajou-se numa estridente campanha de calúnias
contra Lula, que retrucou com um processo judicial e obteve desculpas
da emissora. Há nove anos, desde que Lula recebeu a faixa de Fernando
Henrique Cardoso, o blogueiro consagra seu tempo a cantar-lhe as
glórias, a ofender opositores e a clamar contra o jornalismo
independente. Funciona: a estatal Correios ajuda a financiar o blog
infame.

Amorim não tem importância, a não ser como sintoma de uma época, mas a
natureza de sua injúria racial tem. "Negro de alma branca", uma
expressão antiga, funciona como marca de ferro em brasa na testa do
"traidor da raça". No passado serviu para traçar um círculo de desonra
em torno dos negros que ofereceram seus préstimos interessados ao
proprietário de escravos ou ao representante dos regimes de segregação
racial. Hoje, no contexto das doutrinas racialistas, adquiriu novos
significados e finalidades, que se esgueiram em ruelas sombrias, atrás
da avenida iluminada da resistência contra a opressão. Brincando com a
Justiça, Amorim republica no seu blog um artigo do ativista de
movimentos negros Marcos Rezende que, na prática, repete a injúria
dirigida contra Heraldo. Custa pouco girar os holofotes e escancarar o
cenário que a infâmia almeja conservar oculto.

O líder africânder Daniel Malan, vitorioso nas eleições de 1948,
instituiu o apartheid na África do Sul. Amorim e Rezende certamente
não o classificariam como "branco de alma negra", pois uma "alma
negra" não seria capaz de fazer o mal e, mais obviamente, porque Malan
não traiu a sua "raça". Sob a lógica pervertida do pensamento racial,
eles o designariam como "branco de alma branca", embutindo numa única
expressão sentimentos contraditórios de ódio e admiração. Como fez o
mal, o africânder confirmaria que a cor de sua alma é branca.
Entretanto, como promoveu os interesses de sua própria "raça", ele
figuraria na esfera dos homens respeitáveis. William Du Bois
(1868-1963), "pai fundador" do movimento negro americano, congratulou
Adolf Hitler, um "branco de alma branca", pela promoção do "orgulho
racial" dos arianos.

Confiando numa suposta imunidade propiciada pela cor da pele ou pelo
seu cargo de conselheiro do Ministério da Justiça, Rezende
converteu-se na voz substituta de Amorim. No artigo inquisitorial de
retomada da campanha injuriosa, ele não condena Heraldo por algo que
tenha feito, mas por um dever que não teria cumprido: o jornalista é
qualificado como "um negro da Casa Grande da Rede Globo", que "não
dignifica a sua ancestralidade e origem" pois "nunca fez um comentário
quando a emissora se posiciona contra as cotas". No fim, os dois
linchadores associados estão dizendo que Heraldo carrega um fardo
intelectual derivado da cor de sua pele. Ele estaria obrigado, sob o
tacão da injúria, a subscrever a opinião política de Rezende, que é a
(atual) opinião de Amorim.

O epíteto lançado contra Heraldo é uma ferramenta destinada a policiar
o pensamento, ajustando-o ao dogma da raça e eliminando simbolicamente
os indivíduos "desviantes". O economista Thomas Sowell produziu uma
obra devastadora sobre as políticas contemporâneas de raça. Ward
Connerly, então reitor da Universidade da Califórnia, deflagrou em
1993 uma campanha contra as preferências raciais nas universidades
americanas. José Carlos Miranda, do Movimento Negro Socialista,
assinou uma carta pública contra os projetos de leis de cotas raciais
no Brasil. Sowell é um conservador; Connerly, um libertário; Miranda,
um marxista - mas todos rejeitam a ideia de inscrever a raça na lei.
Como tantos outros intelectuais e ativistas, eles já foram tachados de
"negros de alma branca" pela Santa Inquisição dos novos arautos da
raça.

A liberdade humana é a verdadeira vítima dos inquisidores do
racialismo. Mas, e aí se encontra o dado crucial, essa forma de
negação da liberdade opera sob o critério discriminatório da raça, não
segundo a regra do universalismo. Se tivesse a pele branca, Heraldo
conservaria o direito de se pronunciar a favor ou contra as políticas
de preferências raciais - e também o de não opinar sobre o tema. Como,
entretanto, tem a pele negra, Heraldo é detentor de uma gama muito
menor de direitos - efetivamente, entre as três opções, só está
autorizado a abraçar uma delas.

Sob o ponto de vista do racialismo, as pessoas da "raça branca" são
indivíduos livres para pensar, falar e divergir, mas as pessoas da
"raça negra" dispõem apenas da curiosa liberdade de se inclinar,
obedientemente, diante de seus "líderes raciais", os guardiões da
"ancestralidade e origem". Hoje, como nos tempos da segregação oficial
americana ou do apartheid sul-africano, o dogma da raça prejudica
principalmente os negros.

Viciados em liquidez - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 01/03/12

Com a operação de ontem, o Banco Central Europeu injetou 1 trilhão no
sistema financeiro em três meses. Os bancos tomaram o dinheiro
emprestado e isso diminuiu a desconfiança entre eles. Uma parte dos
recursos será usada para comprar títulos dos países em crise, o que
diminuirá o custo da dívida dos governos. O problema é que o dinheiro
barato buscará rentabilidade em vários mercados, aumentando a chance
de formação de bolhas.

O BCE espera por três coisas ao colocar mais dinheiro na mão dos
bancos: que eles melhorem seus balanços, evitando a desconfiança entre
eles e uma crise no sistema financeiro; que usem parte dos recursos
para comprar títulos dos governos da região; e que repassem o crédito
à iniciativa privada, estimulando investimentos das empresas e consumo
das famílias. Dos três objetivos, os dois primeiros, de fato, parecem
estar acontecendo. A ameaça de uma crise financeira na Europa ficou
menor nos últimos meses, as taxas de juros do interbancário caíram. Ao
mesmo tempo, os juros pagos pelos governos da Europa para rolagem de
dívidas ficaram menores. E isso é bom principalmente para os casos de
Espanha e Itália, duas economias grandes demais para serem socorridas.

Mas a indução do crescimento via aumento de crédito não está
acontecendo. A demanda na Zona do Euro está fraca, o desemprego está
alto, com média de 10,4%, seis países da região estão em recessão, e o
mercado já está inundado de liquidez. Não há apetite por mais dívidas
e os bancos estão preferindo manter o dinheiro em caixa.

José Júlio Senna, da MCM consultores, explica que o BCE foi obrigado a
flexibilizar as exigências de garantias para os empréstimos, para que
mais bancos pudessem participar da operação. Isso tirou do radar dos
investidores o risco de quebra de alguma instituição e aumentou o
apetite por risco nos mercados:

- Os governos da região ganham mais tempo para fazer os ajustes que
têm que fazer, como privatizações, corte de salários de funcionários
públicos, mudanças nas legislações, aumento da idade das
aposentadorias. Mas a operação não muda a essência do problema
europeu, que é de um estoque muito grande de dívida por parte dos
governos dentro de um ambiente de recessão. Ainda estamos a uma longa
distância da linha de chegada.

O estrategista da Pentágono Asset, Marcelo Ribeiro, acredita que a
medida não irá resolver o problema de baixa competitividade de vários
países da região. Também aponta uma série de riscos que serão
contratos para o futuro.

- O grande risco da operação é o excesso de liquidez que será gerado.
A Europa tem muitos países com problemas, e os bancos vão pegar esse
dinheiro para comprar títulos desses governos. Os juros vão cair,
dando a impressão de que o risco ficou menor. Mas na verdade ele
continua lá. Teremos uma melhora aparente, que acontecerá via indução
monetária. Além disso, haverá um descolamento ainda maior entre ativos
financeiros e a economia real. O lucro das empresas continuará baixo,
o desemprego continuará alto - explicou.

Newton Rosa, da Sul América Investimentos, ainda não vê um risco
iminente de bolhas porque o mundo está crescendo pouco e não há espaço
para a valorização forte dos ativos. Mas diz que os bancos centrais
terão o enorme desafio de saber quando toda essa liquidez terá que ser
recolhida.

- Essa discussão já está acontecendo dentro do Fed, o banco central
americano. Alguns dos seus membros estão votando pelo aumento de juros
e pelas restrições das políticas monetárias. A dificuldade dos bancos
centrais será saber quando reverter essa política - disse.

A operação de ontem do BCE é mais uma das várias operações das
autoridades monetárias na mesma linha: uma superexpansão de crédito
num mundo já de juros em torno de zero, para através dessas ações
evitar o pior da crise. Isso funciona num primeiro momento, mas depois
o mercado começa a exigir mais e mais injeções monetárias. Cada evento
desses tem um efeito menor e mais curto. E novas enxurradas monetárias
são exigidas. Todo esse dinheiro reduz os efeitos da crise, mas começa
a causar desequilíbrios como a formação de bolhas ou a distorção em
preços de ativos.

Na maioria das economias emergentes as moedas estão ficando muito
valorizadas, como no Brasil. Para piorar um quadro já complexo, a
China não tem câmbio flutuante. Isso faz com que o maior exportador do
mundo tenha a vantagem de um anabolizante cambial tornando seus
produtos mais competitivos do que normalmente já seriam. O comércio
internacional passa a ser impactado diretamente por toda essa
alteração artificial dos preços das moedas.

No momento de desespero, quando houve o colapso do Lehman Brothers, em
2008, havia necessidade dessa expansão monetária para evitar que
aquela crise aguda de confiança entre os bancos provocasse uma queda
em dominó de instituições financeiras. Agora, há uma crise fiscal
crônica e de superendividamento. O que houve ontem foi a administração
de mais um pouco da droga para um organismo que já está ficando
viciado. Até agora, os maiores bancos centrais do mundo - Fed, BCE,
Banco do Japão e da Inglaterra - ofereceram aos bancos em ajuda de
liquidez mais de US$ 5 trilhões.

Enfim, uma política de Estado - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 01/03/12

A aprovação na Câmara do projeto que institui novas regras para a
aposentadoria dos servidores públicos é um passo importante para
equilibrar as contas no sistema previdenciário brasileiro. E deve ser
saudada como a concretização de uma política de Estado de reforma do
sistema previdenciário que atravessa quatro governos, dois tucanos e
dois petistas.

Desde 1995 os governos vêm perseguindo reformas do sistema
previdenciário, tendo conseguido avanços quanto aos servidores
privados, mas encontrando resistências corporativas e sindicais quando
se trata do servidor público.

Foi aprovada no final do primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso
a legislação que passou a permitir a criação de fundos de previdência
complementar para os servidores públicos através de lei complementar,
mas somente em 2003, já no governo Lula, uma lei nesse sentido passou
no Congresso.

A reação dos sindicatos e corporações foi tamanha que o então
presidente Lula desistiu de regulamentar a lei, que não entrou em
vigor. Esse episódio, aliás, foi decisivo para que Lula abandonasse o
ímpeto reformista com que assumiu o Palácio do Planalto. Ele, a partir
do desgaste que sofreu em sua base política, desistiu dessa e de
outras reformas estruturais.

Agora, a presidente Dilma aproveita a boa fase da economia para afinal
regulamentar o funcionamento dos fundos de pensão para os três
poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário.

A necessidade da reforma fica patente quando se analisam os números do
sistema previdenciário brasileiro: pelo quarto ano consecutivo, o
déficit da previdência dos servidores públicos federais superou o
rombo do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que se refere aos
trabalhadores da iniciativa privada. O déficit do sistema do
funcionalismo público cresceu 9,8% de 2010 para 2011, totalizando R$
56 bilhões para atender cerca de um milhão de servidores, e o do INSS
- que atende cerca de 29 milhões de pessoas - foi reduzido em 22,3%,
fechando o ano no menor patamar desde 2002, com cerca de R$ 36
milhões.

Para este ano, a previsão é de um déficit da previdência dos
servidores públicos de R$ 60 bilhões, enquanto o do INSS deve se
manter no mesmo nível do ano passado.

O economista Fábio Giambiagi, especialista em Previdência, considera
que o Fundo de Previdência dos Servidores Públicos é uma excelente
iniciativa do Executivo que, ele confessa, o surpreendeu
positivamente, "pois não esperava no começo do ano que o governo fosse
se empenhar tanto na sua aprovação".

O fato de a maioria do PSDB ter votado a favor, repetindo um padrão de
comportamento que já tinha sido observado por ocasião da reforma
previdenciária de Lula em 2003, é indicativo de que deveria haver um
espaço para o PT e o PSDB se entenderem minimamente em relação a
certas questões de Estado, diz Giambiagi.

Mas ele ressalta que "é uma pena, porém, que em São Paulo, a nível
estadual, o PT não tenha tido a mesma atitude em relação à proposta do
governador Alckmin, em essência a mesma que o governo está tentando
implementar a nível federal".

Por outro lado, ele lembra que, por mais meritória que seja a proposta
a longo prazo, é importante que fique bem claro que a rigor, nos
próximos anos, ela terá um efeito negativo sobre as contas fiscais,
pelo fato de que o governo deixará de receber a receita de
contribuições que exceder o teto do INSS, ao mesmo tempo em que terá
que passar a contribuir com a parcela do empregador para o Funpresp.

"Por muitos anos, portanto, haverá um efeito duplamente negativo, que
será diluído e depois revertido daqui a algumas décadas, quando o teto
de todas as aposentadorias for igual ao do INSS."

Outro especialista, Fabio Zambitte, mestre em Direito Previdenciário,
autor do livro recém-lançado "A previdência social no Estado
contemporâneo", defende o fim dos regimes diferenciados para
servidores, pois "não há razão para a divisão".

Na verdade, ele lembra que a origem dessa divisão é histórica, pois a
aposentadoria de servidores possuía a natureza jurídica de prêmio, já
que a função pública nada mais era do que uma delegação real. "Era um
prêmio pela atividade leal ao Rei."

Após a reforma de 2003, com a consolidação no Brasil do modelo
contributivo também para os servidores, "o melhor seria a unificação".

Ele admite que a proposta é ousada, "pois a segregação em regimes
diferenciados, também pelos mesmos motivos históricos, é a regra mundo
afora. Todavia, se os riscos são os mesmos (doença, idade avançada,
morte etc.), não há motivo para distinções".

O fundo dos servidores é um primeiro passo nesse sentido, "pois
nivelará os benefícios do regime geral com os regimes próprios".

No seu livro, Zambitte propõe, em linhas gerais, adotar um modelo
universalista, como primeiro pilar, com garantia universal de
benefícios em determinadas contingências (idade avançada, doença
etc.), financiado por impostos. "Não estabeleço um patamar
remuneratório determinado, pois isso dependerá de quanto a sociedade
estará disposta a financiar, e deverá ser fixado pelo Parlamento",
esclarece o autor.

Um segundo pilar, igualmente compulsório, complementaria o primeiro,
visando atender, além do mínimo existencial, algum grau de bem-estar
compatível com a vida ativa da pessoa. "O financiamento seria por
adicional de imposto de renda, viabilizando a tributação de acordo com
a renda e, então, fixando o benefício de acordo com o custeio
individual."

O terceiro pilar seria a previdência complementar privada de hoje

Ajoelhou, resta rezar - DORA KRAMER

O ESTAO DE S PAULO
A troca de ministro da pasta da Pesca tem vários significados, nenhum
deles relacionado à versão palaciana de que o senador Marcelo Crivella
"prestará relevantes serviços ao Brasil" depois do trabalho feito (?)
pelo deputado Luiz Sérgio ao qual o governo empresta "profundo
reconhecimento".

Relação alguma, tampouco, com a necessidade de "prestar uma homenagem"
ao falecido vice-presidente José Alencar por ter sido do PRB agora
presenteado por Dilma Rousseff.

A substituição diz respeito ao movimento de redução de danos
eleitorais que o Planalto vem empreendendo na direção das "igrejas".

Crivella é um líder importante no segmento evangélico (foi eleito
senador por isso) no qual o governo federal enxerga um potencial
grande de prejuízo se não estabelecer com ele alguns compromissos de
caráter preventivo.

A entrega de uma pasta cuja importância é nenhuma, basta? Não, mas é
um gesto. Precedido de outro, antes do carnaval, quando a presidente
Dilma Rousseff fez do secretário-geral da Presidência, Gilberto
Carvalho, seu enviado especial à bancada evangélica no Congresso para
dissolver "mal-entendidos".

Basicamente três: a opinião da ministra de Política para Mulheres
sobre aborto, as cartilhas anti-homofobia encomendadas pelo Ministério
da Edu­­cação na gestão de Fer­­nando Haddad e declarações do próprio
Gilberto Carvalho no Fórum Social de Porto Alegre sobre a necessidade
de o PT disputar a classe média emergente com "setores conservadores",
segundo ele dominados pelos evangélicos.

Como se vê agora pela entrega de um ministério – ainda que
desimportante, dado que a generosidade do PT no quesito perda de
espaços tem limites estreitos–, a ofensiva continua.

Não por acaso ontem mesmo Haddad tratou de se declarar contra o aborto.

Duas inverdades são esclarecidas nesse episódio: uma a de que a
presidente não se envolverá em eleições e outra dá conta de sua recusa
a incluir ministérios na mesa de negociações políticas.

Sob essa alegação de princípios Marta Suplicy não ganhou lugar na
Esplanada para desistir da candidatura a prefeita. Mas os evangélicos
ganharam, na expectativa de que persistam no apoio ao governo.

Calcanhar

Aliados de Serra atestam sua desistência de disputar a Presidência em
2014 a fim de aplicar um antídoto antecipado ao discurso adversário
sobre a hipótese de, se eleito, renunciar como fez em 2006 para
concorrer ao governo de São Paulo e depois em 2010 para ser candidato
à presidencial.

O próprio, quando confrontado com o assunto, diz o seguinte: "O
projeto Presidência fica para depois".

Sim, mas depois quando? "Aí tenho de confiar na minha juventude."

O tema, no entanto, vai permear a campanha e na seara tucana há quem
tenha argumento engatilhado: se houvesse condenação incontornável a
renúncias, Serra não teria sido eleito governador depois de deixar a
prefeitura.

Faca de gume duplo que poderá não soar convincente ao eleitorado

Confusão à toa

Militares da reserva insistem em confrontar os fatos e desqualificar
autoridade do ministro da Defesa por causa da Comissão da Verdade,
segundo eles "um ato de revanchismo explícito e de afronta à lei da
Anistia".

Criam um caso, desprovidos de sustentação consistente. A comissão é
fruto de lei e não tem poder sequer de sugerir punições: seu objetivo
é relatar ao país as agressões aos direitos humanos ocorridas durante
o regime autoritário.

A reação desses militares não se justifica entre outros motivos porque
o Supremo Tribunal Federal já decidiu que a anistia é intocável.

Portanto, quaisquer ações judiciais pedindo punições a partir de
informações levantadas pela Comissão da Verdade cairiam no Supremo.

A única possibilidade seria o Congresso alterar a Lei da Anistia, o
que está inteiramente fora de cogitação.

Europa e austeridade - GILLES LAPOUGE

O Estado de S.Paulo - 01/03/12


Como se a Europa já não tivesse problemas suficientes, com o naufrágio
da Grécia, a recessão e o endividamento, eis que surge um novo
problema. A França, que com a Alemanha, são os países mais poderosos
da UE, entra em campanha eleitoral. E os seus vizinhos estão diante de
um dilema dramático: devem escolher Nicolas Sarkozy, que talvez seja
reeleito em maio, ou apoiar seu rival, o socialista François Hollande?
No conjunto, eles estão hesitantes.

Dois países apenas fizeram uma escolha clara: a Bélgica, cujo
primeiro-ministro, o socialista Elio Di Rupo, expressou seu apoio a
Hollande. E a Alemanha, já que a chanceler Angela Merkel deu seu voto
para o amigo/inimigo Sarkozy, com quem ela comanda há dois anos toda a
economia do continente, particularmente a questão da Grécia.

Os outros países ainda se interrogam. O primeiro critério na escolha é
a preferência afetiva. Eles conhecem bem Sarkozy e não o apreciam.

Acham que é um "parlapatão". Quando dois dirigentes europeus se
encontram, sobre o que conversam? Segundo um deles, "comentamos as
maledicências que Sarkozy falou sobre nós". O duo Merkel-Sarkozy, que
se proclamou salvador da Europa, exaspera. Ao mesmo tempo, as pessoas
reconhecem que o presidente francês, apesar de suas maneiras vulgares,
é enérgico, perseverante e corajoso.

Ideias pueris. E François Hollande, o socialista que pode chegar à
presidência dentro de três meses? Ele é pouco conhecido. Não tem a
dimensão de Sarkozy. É simpático, mas não se sabe ao certo o que
pretende. Suas ideias parecem confusas, desconectadas e apresentadas
sem muito convencimento. Seus ataques virulentos e vagos contra o
dinheiro e os ricos desagradam. São considerados demagógicos, ou pior,
pueris.

Se deixarmos de lado o aspecto do "afeto", que programa os europeus
preferem? O de Sarkozy ou o de Hollande? À primeira vista, uma grande
maioria de dirigentes europeus está "farta, realmente farta" da
política de austeridade imposta pela dupla Merkel/Sarkozy. Estamos
assistindo à uma revolta contra a austeridade.

Doze países estão exigindo uma reformulação do sistema imposto pela
dupla, em favor do crescimento.

Esses 12 países, às vésperas da reunião, sexta-feira, quando será
assinado em Bruxelas um novo tratado de disciplina orçamentária,
julgam que a austeridade assustadora infligida à Europa (Grécia,
Espanha...) levarão o continente a uma recessão duradoura. E esses
países em cólera são liderados pelo italiano Mario Monti. Mas Monti
não é considerado um demagogo. É um técnico, não um "político". Ele
sucedeu o lunático Berlusconi precisamente para colocar em ordem as
contas da Itália. Pois bem, este homem "austero" hoje se declara
contra a austeridade do plano Sarkozy/Merkel.

E, aparentemente, ele se coloca ao lado do socialista François
Hollande que também exige que aquele plano seja complementado por
medidas de crescimento.

Mas, na realidade, essas convergências entre Hollande e os 12 países
contrários ao plano de austeridade são ilusórias, imaginárias.

Como Mario Monti e seus aliados pretendem "relançar o crescimento?"
Por meio da liberalização, da flexibilidade do trabalho, uma maior
abertura comercial do continente, em outros termos, por uma dose de
liberalismo econômico mais generosa do que hoje.

E isto é, bem entendido, exatamente o contrário do conceito mais
"estatal", bem menos liberal, dos socialistas franceses, e portanto de
François Hollande. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Pobre comércio com a China - ALBERTO TAMER

O Estado de S.Paulo - 01/03/12


A China descobriu o Brasil muito tarde, há apenas dois anos, e corre
agora para recuperar o tempo perdido. Investe em minérios, petróleo e
alimentos para se abastecer e influenciar nos preços e não em setores
industriais que sustentam seu crescimento econômico. Quer produzir no
Brasil o que não tem condições de produzir na China. Não apenas isso,
continua exportando para nós o que produz utilizando matérias-primas
que importa do Brasil - tecidos, calçados, carros e máquinas.

São essas as conclusões das principais análises das relações
bilaterais entre os dois países. Importando a preços menores por causa
do protecionismo cambial chinês, o Brasil ganha porque pode conter a
inflação e engordar a conta das exportações, mas perde porque exporta
essencialmente commodities, o que não só prejudica a indústria, mas,
acima de tudo, atentem para isso "empobrece", tese defendida com
muitos dados e lucidez pelo professor de Economia da Universidade de
Brasília, Jorge Arbache - e muitos outros - em capítulo do livro
Brasil e China no Reordenamento das Relações Internacionais: Desafios
e Oportunidades, editado pelo Itamaraty.

Empobrece? Sim, afirma Arbache, no livro que recomendamos para quem
deseja se aprofundar no assunto. Há pouco mais de dois anos, a China
nem figurava no registro do Banco Central dos países que investiam
aqui. Tudo mudou nos últimos anos. Em 2010 foram de cerca de US$ 13
bilhões e no ano passado pelo menos US$ 15 bilhões.

Esses valores fornecem uma boa medida do crescente interesse chinês no
Brasil. "Obviamente, ele não representa o impacto macroeconômico dos
investimentos na economia brasileira, já que a maior parte desses
investimentos se refere à troca de controle entre empresas
estrangeiras. Se subtrairmos esta troca de controle, obteremos para
2010 um número surpreendentemente inferior a US$ 1,5 bilhão."

Insistimos, porém, que o valor que melhor representa as relações
China-Brasil, com todas as implicações que isso pode ter daqui por
diante, são os US$ 13 bilhões - já que esse valor marca a consolidação
da presença chinesa no Brasil por meio de investimentos, afirma ele.

Mais alimentos, minérios. Uma característica importante é que os
investimentos dos chineses no Brasil concentram-se em mineração,
alimentos, petróleo, gás e na infraestrutura como portos, ferrovias,
necessária para o seu escoamento desses produtos para a China. "Em
2010, a quase totalidade dos investimentos foram direcionados a
produtos básicos para exportação, sendo o petróleo o grande destaque.
Além de se concentrarem em commodities, 70% desses investimentos
ocorreram na modalidade de fusões e aquisições, não em investimentos
na criação de novas empresas e geração de novos empregos", assinala
Jorge Arbache no estudo.

A China também se tornou importante fonte de crédito externo para o
Brasil, mas esses créditos são normalmente vinculados a projetos de
produção, logística ou comercialização de produtos básicos. O
empréstimo de US$ 10 bilhões à Petrobrás, garantido por exportação de
petróleo, é um caso mais marcante e repete no Brasil o que a China faz
na África e está fazendo na América Latina. Onde não pode comprar
terras, financia e compra antecipadamente a produção.

Primarização empobrece. Dessa forma, a China fomenta e encoraja a
crescente primarização da produção no Brasil.

A primarização empobrece por várias razões, diz o professor da
Universidade de Brasilia. "Uma delas é que apenas 3% dos trabalhadores
com carteira estão empregados no setor agropecuário e menos de 0,5% no
setor mineral. Além de empregar pouco, o setor de produtos básicos
cria muito pouco emprego quando cresce", afirma ele. Exportar cada vez
mais commodities também empobrece porque seus preços são extremamente
voláteis, afetando os investimentos e as finanças públicas.

A produção e a exportação de commodities são certamente importantes,
como fica evidente sua contribuição para a balança comercial, "mas
elas não resolvem nem resolverão os desafios da economia brasileira de
crescer de forma sustentada." Para a coluna, não se trata de "conter"
as exportações de commodities, mas sim aplicar uma politica que
estimule as vendas de produtos industrializados e básicos. Ou isso ou
a pauta comercial brasileira vai continuar distorcida desestimulando o
crescimento econômico a médio prazo.

E se os chineses estiverem certos? - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O Globo - 01/03/12


Nem convém falar assim, em público, mas há momentos em que o
pensamento rompe nossas barreiras e cogita da eficácia do despotismo
esclarecido. A gente observa a desgraça que políticos democraticamente
eleitos espalham pelo mundo afora e imagina: e se tivéssemos um líder
com capacidade intelectual e visão de futuro absolutamente
extraordinárias, uma pessoa do bem, com senso de justiça social? Esse
líder, com poderes absolutos - quer dizer, sem os constrangimentos de
lidar com políticos interesseiros e populistas - não poderia fazer um
imenso bem ao país?

Está falando da China - é, pelo menos, o que se diz lá mesmo. O
primeiro déspota teria sido Deng Xiao Ping, que no final dos anos 70
venceu a camarilha dos herdeiros de Mao, e lançou as reformas
econômicas pró-capitalismo que trouxeram a China à posição de hoje.
Além disso, Deng teria solucionado muito bem um problema difícil para
todos os déspotas, esclarecidos ou não, que é a sucessão.

Deng não deixou um sucessor, mas um grupo, um sistema, instalado no
Partido Comunista. Assim, a China emplacou três décadas crescendo a
taxas anuais de 10% e, mais importante, retirou da pobreza algo como
800 milhões de pessoas - os chineses que hoje vivem na parte urbana e
desenvolvida.

E, para deixar o leitor ainda mais perturbado com este pensamento tão
incorreto quanto tentador, o sistema chinês oferece neste momento mais
duas demonstrações de sua eficiência política e visão de futuro.
Primeira, a sucessão: ao longo deste ano, de maneira organizada e
pré-anunciada, serão substituídos o presidente do país e chefe do
partido, Hu Jintao, e o primeiro-ministro, Wen Jiabao.

A outra demonstração é um surpreendente estudo estratégico que o
governo chinês encomendou junto ao Banco Mundial - e que foi preparado
por economistas do banco e do Centro de Pesquisa de Desenvolvimento do
Conselho de Estado da China. O título: "China 2030, construindo uma
sociedade de alta renda, moderna, harmoniosa e criativa."

É o que parece, uma tentativa de antecipar o futuro, um documento de
468 páginas, "pensando" como a China pode saltar de um país de renda
média para alta, ou seja, de emergente para rico. Parte da constatação
de que o modelo dos últimos 30 anos - trabalho duro, salário baixo,
muita economia, pouco consumo, tudo exportado - não vale mais.
Trata-se, pois, de uma troca organizada de sistema.

Reparem: o Banco Mundial é parte do sistema financeiro global, junto
com o FMI e Banco de Compensações Internacionais, o banco central dos
bancos centrais. Logo, trata-se do coração do capitalismo global. E,
como seria de se esperar, o estudo sugere menos estado e mais mercado,
menos governo agindo diretamente na economia e na sociedade e mais
espaço para a ação dos indivíduos.

Prestaram atenção? Esse é o estudo preparado com a autorização e o
apoio do Conselho de Estado da ditadura do PC chinês. Claro, o
relatório não propõe a derrubada da ditadura e a introdução da
democracia, mas sugere que não haverá como escapar de uma sociedade
mais aberta, em consequência mesmo do enriquecimento e da formação de
cidadãos mais expostos ao mundo.

Tudo considerado, como ficamos? A atual versão chinesa do despotismo
esclarecido - regime de monarcas europeus do século 18 - pode ser
repetida em outros países?

A resposta mais comum é "não". De maneira geral, entende-se que o caso
chinês é único sob diversos aspectos. Por exemplo, como sair do
desastre sangrento do período maoista para uma democracia liberal
clássica, em um país de mais de um bilhão de pessoas, em situações tão
diferentes? E como promover a mudança dramática de uma economia rural
muito pobre para outra industrializada sem uma marcha forçada pelo
regime?

Finalmente, a China seria única pela sorte. Acabou que o poder ficou
nas mãos de um Deng Xiao Ping. E se a luta interna tivesse terminado
com a vitória da viúva de Mao, Jiang Qing? Isso poderia perfeitamente
ter acontecido e a China hoje seria uma imensa Coreia do Norte.

O que nos leva ao outro lado da história. Não se podem colocar as
fichas em um regime que depende tanto de acasos históricos. Se começa
com um déspota estúpido e mau caráter, fica quase impossível
derrubá-lo. Observem como é difícil afastar os ditadores dos países
árabes. No Brasil, já tivemos ditaduras variadas, mas não
esclarecidas.

Além disso, é preciso colocar na balança os custos da expansão
chinesa, a começar pelas pessoas assassinadas na Praça Tiananmen, que
justamente reivindicavam mais abertura e benefícios econômicos. É
difícil, entretanto, fazer esse balanço: a ditadura esconde seu
passivo.

Em resumo: a China já está aí, se prepara para o futuro e ainda nos
perturba. Na economia e na política.

Aviões, submarinos? Não... é o estaleiro, estúpido Carlos Brickmann

Um grande vazamento de diálogos pelo WikiLeaks, portal especializado
em divulgar informações sigilosas, sugere que a compra de submarinos
franceses pelo Brasil é muito estranha e pode estar relacionada a
pagamentos ilegais.

Sugere também que a possível compra dos caças supersônicos Rafale,
também da França, será algo tão absurdo que pode levar a maus
pensamentos.

Os vazamentos do WikiLeaks não levam necessariamente à verdade. E é
curiosa a data do vazamento, próxima àquela em que, segundo corre em
Brasília, seria anunciada a compra dos Rafale. As fontes cujas
informações foram vazadas defendem os caças americanos Boeing F-18 - o
vazamento, portanto, lhes é conveniente.

A história mais significativa do acordo militar entre Brasil e França
não é a que aparece nos WikiLeaks: é a do estaleiro que o Brasil
constrói, com tecnologia francesa. Por algum motivo, os franceses
exigiram que o estaleiro fosse construído por uma empresa brasileira,
e uma empresa específica: a Odebrecht.

Não é comum, em acordos internacionais, que um país indique as
empresas do outro que devem ser escolhidas.

E não é nem daqueles casos em que se determinam características que
levarão à escolha de uma empresa: é aquela, só aquela e pronto.

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