Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

Acerto de contas - NELSON MOTTA



O ESTADÃO - 03/02/12

Uma denúncia do Ministério Público e uma liminar da juíza Maria Paula Galhardo impediram que os conselheiros e auditores do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro se esbaldassem em quatro camarotes no sambódromo, gentilmente oferecidos pela Riotur e pela Liesa. Adivinhem quem fiscaliza as contas da Riotur e seus contratos com a Liga dos bicheiros, ops!, das escolas de samba?

Mas não valeu o escrito, a juíza acertou o grupo na cabeça: 'O Código de Ética dos Tribunais de Contas veda aos conselheiros receberem doações, benefícios ou cortesias de empresas, grupos econômicos e autoridades publicas'. E pior: proibiu os integrantes do TCM de aceitar convites para qualquer camarote no sambódromo 'como cortesia, presente ou agrado, sob pena de multa e sem prejuízo da investigação criminal correspondente'. Alguma dúvida?

Como é uma liminar, os foliões do TCM têm esperanças de que seja derrubada até o carnaval. Mas quem vai ter a cara de pau de recorrer da decisão da juíza? Como a cessão dos camarotes está no contrato entre a Riotur e a Liga, só eles podem recorrer. O TCM diz que não tem nada com isso: era só o beneficiário. Ah, bom. Seu castigo é perder a boca-livre carnavalesca.

No mesmo dia da liminar saneadora, o TCM realizou com pompa e circunstância, nos salões do Palácio da Cidade, a solenidade de outorga do Colar do Mérito Ministro Victor Nunes Leal a diversos políticos, juízes e membros de outros Tribunais de Contas. Discursando em nome dos agraciados, o ministro Aroldo Cedraz, do TCU, parabenizou o TCM 'pelo seu propósito de condecorar autoridades que contribuem para a sustentação do imprescindível controle realizado pelos Tribunais de Contas por reconhecerem que o atual modelo de controle da administração pública brasileira ainda é o melhor em todo o mundo'.

No Rio de Janeiro é melhor ainda. Dos sete conselheiros do Tribunal, quatro são indicados pela Câmara dos Vereadores, quase sempre ex-colegas e correligionários, e conhecendo o histórico do pessoal, nada mais surpreende. Surpresa seria se recusassem os camarotes oferecidos pelos seus fiscalizados, antes da liminar.

O custo da indústria Celso Ming



O Estado de S. Paulo - 03/02/2012
 
 Todos os dias o noticiário vai sendo martelado por informações de que o setor produtivo brasileiro (e não só a indústria) vai ficando inviabilizado por seus custos excessivos.
Ontem, por exemplo, o brasileiro ficou sabendo que o governo Dilma decidiu romper o acordo automotivo com o México, porque as importações de veículos made in Mexico estão tomando o mercado do produto brasileiro.
As queixas são recorrentes. Vêm do setor produtor de máquinas, passam pela área têxtil, surgem na indústria eletrônica e se estendem até aos produtores de brinquedos. Na semana passada, o presidente da Embraer, Frederico Curado (foto), advertia em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial, que o gasto com mão de obra no Brasil estava ficando proibitivo para sua empresa. Segunda-feira, o Estado publicou que a execução do programa Minha Casa, Minha Vida vem se tornando difícil dado o aumento dos custos de terrenos, materiais e da mão de obra - até há alguns anos, considerada das mais baratas do mundo.
Não é de hoje que o setor produtivo tem esses problemas, mas, em vez de buscar soluções, prefere eleger culpados. Entre eles, o mais citado é o câmbio, "sempre defasado em, pelo menos, 30%" - como já nos anos 70 reclamava o então presidente da Duratex, Laerte Setúbal, fosse qual fosse a cotação do dólar. Lá pelas tantas, o governo tratava de "dar câmbio" para devolver algum mercado para a indústria, no entanto, até agora, não houve câmbio que chegasse. (Para o caso dos veículos do México, veja ainda o Confira.)
Além do câmbio, são apontados outros culpados: chineses, coreanos, crise global (que empurra encalhes de mercadoria para o Brasil) e, agora, mexicanos, que conseguem a proeza de enfiar cada vez mais veículos e autopeças nas tabas tupiniquins.
Não é preciso ter QI de Ph.D. para desconfiar que o buraco é mais embaixo. E não custa bater no mesmo bumbo em que esta Coluna vem batendo. O grande problema do setor produtivo brasileiro chama-se custo Brasil. Com algumas diferenças, é a mesma lista de barreiras à produção há mais de 50 anos: carga tributária insuportável; quarta mais cara energia elétrica do mundo; juros escorchantes; encargos sociais cada vez mais altos (de que se queixa o presidente da Embraer); e infraestrutura cara e precária.
Nos últimos anos, foram os serviços que passaram a custar o olho da cara. Faz sentido pagar de R$ 20 a R$ 30 por uma hora de estacionamento em São Paulo? Por que tarifas de banda larga e telefone no Brasil estão entre as mais caras do planeta? Por que se cobra R$ 1,6 mil para impermeabilizar dois metros lineares de caixilhos? Por que qualquer assistência técnica tem preços elevados? E o que tem a ver o câmbio com essas maluquices?
Com esses diagnósticos capengas, em vez de tratar de derrubar o custo Brasil, o governo Dilma vai enveredando para o protecionismo tosco, à la Argentina, e para opções de reserva de mercado, porque já não pode mais "dar câmbio" para compensar esses desequilíbrios. É o que faz agora, especialmente na indústria têxtil e na de veículos.
Durante certo tempo, esses artifícios reduzem o afluxo de importados. Mas não restabelecem a competitividade do setor produtivo nacional no mercado externo.

O engasgo da Petrobras Rogério Furquim Werneck



O Globo - 03/02/2012
 

Ao dar por encerrada a longa permanência de José Sérgio Gabrielli na presidência da Petrobras, o Planalto deflagrou saudável debate na mídia sobre as dificuldades que a empresa vem enfrentando, para cumprir a parte que lhe cabe no problemático modelo de exploração do pré-sal.
Nesse modelo, exigiu-se, de um lado, que a Petrobras tivesse monopólio da operação dos campos do pré-sal e participação de pelo menos 30% em cada consórcio que viesse a explorar tais campos. E, de outro, que arcasse com a "nobre missão" de desenvolver a indústria de equipamentos para o setor petrolífero no país.
Tais atribuições vêm impondo enorme ônus à Petrobras. Com necessidades de investimento brutalmente sobrecarregadas, a empresa teve de apelar para uma ruidosa operação de capitalização em 2010, envolvendo nada menos que R$ 75 bilhões de preciosos recursos do Tesouro, que, num país de tantas carências, poderiam ter tido destino incomparavelmente mais nobre. E, mesmo com esse aporte tão generoso, a empresa continua engasgada com as funções que lhe foram atribuídas.
Como todos os campos do pré-sal têm de ser operados pela Petrobras e, em cada consórcio, a empresa tem de manter participação mínima de 30%, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) tem sido obrigada a postergar o anúncio de novas licitações para não sobrecarregar em demasia a estatal. Tal sobrecarga vem sendo agravada pelo vertiginoso encarecimento dos custos de investimento que a empresa vem tendo de absorver, para cumprir a "missão" de desenvolver a indústria nacional de equipamentos para o setor petrolífero. Na especificação dessa "missão", a insensatez que pautou a concepção do modelo de exploração do pré-sal assumiu proporções assustadoras.
A exigência de que os equipamentos utilizados no pré-sal tenham nada menos que 65% de conteúdo nacional vem tendo efeitos devastadores sobre custos e prazos dos projetos.
A experiência ilustra de forma lapidar a enorme distância que pode separar intenções e resultados, na condução de políticas públicas. Ao dar asas à ideia de dar à Petrobras sólido controle da exploração do pré-sal e, ao mesmo tempo, transformá-la num poderoso cartório de distribuição de benesses a produtores de equipamentos, o governo estava fascinado com os enormes benefícios políticos que poderia extrair desse arranjo. O que antevia era uma gigantesca operação de "parceria" com o setor industrial, em que a estatal controlaria "o cofre das graças e o poder da desgraça", para usar a forma inspirada com que Victor Nunes Leal caracterizou, há mais de 60 anos, os poderes da situação política dominante no interior do país.
Mas as contradições do modelo não tardaram a aflorar. E o que agora se vê não é bem o que o governo esperava.
No fim do ano passado, horrorizada com os preços preços de contratação de sondas marítimas de perfuração de alta tecnologia, a Petrobras se viu obrigada a parar tudo e simplesmente cancelar a licitação. O que fez acender a luz vermelha no Planalto.
A engenheira Maria das Graças Foster, que deverá assumir a presidência da Petrobras, vem sendo descrita na mídia como pessoa determinada e com grande disposição para levar adiante as mudanças que se fazem necessárias na empresa. Será muito bom se puder fazer bom uso da ascendência que parece ter sobre a presidente Dilma Rousseff, para fazer ver ao Planalto que o modelo de exploração do présal, concebido no calor da precoce mobilização do governo com a eleição de 2010, precisa ser repensado e flexibilizado.
Não faz o menor sentido — nem para a Petrobras nem para o Brasil — que grande parte do excedente potencial do pré-sal acabe dilapidada em faustoso programa de favorecimento à produção local de equipamentos Será lamentável se a determinação da nova presidente da Petrobras se traduzir apenas na disposição de pagar o que for necessário pelos equipamentos, por proibitivos que sejam os preços, para cumprir a qualquer custo o cronograma de investimento da empresa.
Não é desse tipo de "eficiência" que o país precisa.

Eleições e cidade inteligente Fernando Gabeira



O Estado de S. Paulo - 03/02/2012
 

Este ano é de eleições municipais. Elas costumam ser mais empolgantes do que algumas presidenciais. Estimuladas pela proximidade dos problemas, as pessoas acompanham mais, opinam mais e pedem mais mudanças.
Não dá para prever uma eleição com base na anterior, pois, assim como as batalhas militares, eleições não se repetem. O momento é de satisfação econômica e desânimo com a política. Mas a crise das metrópoles assusta, como se viu na cracolândia, em São Paulo, ou na queda de três prédios no centro do Rio.
O desenvolvimento econômico resolve muitos problemas, mas agrava alguns e cria outros. Por mais que a imagem dos políticos tenha decaído, é temerário fechar os olhos para as eleições municipais.
Existe algo a favor: nunca os meios tecnológicos para uma gestão inteligente foram tão desenvolvidos como agora. E uma das primeiras grandes contradições está precisamente entre o avanço desses meios e a cabeça de grande parte dos políticos.
Vi de perto duas experiências que merecem ser avaliadas: nas cidades de Curitiba e do Rio de Janeiro foram montados centros de controle e tomada de decisão capazes de recolher grande número de dados, monitorar câmeras, expor mapas - enfim, um aparato capaz de reunir o maior número de informações para uma tomada de decisão. O centro no Rio foi montado com a ajuda da IBM, no seu programa global de cidades inteligentes. O de Curitiba é mais antigo, mas desenvolveu mais a interação com os moradores.
O sistema paranaense dispôs-se a responder a qualquer reclamação em 48 horas. Os moradores são atendidos e convidados a se inscrever como colaboradores. Quando há uma intervenção urbana com repercussão na vida da comunidade, o governo já tem geoprocessados os colaboradores da área, que são consultados sobre o projeto.
No caso do Rio, a energia maior está concentrada na gestão de desastres naturais e na intervenção num trânsito cada vez mais lento por causa das grandes obras. A recente queda dos três prédios levantou o problema da fragilidade da fiscalização, que só pode ser superada com o esforço coletivo.
Buenos Aires viveu um desastre semelhante e encontrou uma solução inteligente: pôr à disposição, na internet, todas as licenças de obras na cidade. Isso abre a possibilidade de cada indivíduo se informar a respeito de alguma obra que tenha repercussão na sua vida e na de sua família. Se não houver licença, ele pode notificar as autoridades.
No caso de prédios caídos, o sistema ajuda também a definir responsabilidades. A notificação de uma obra sem licença, em caso de desastre, é uma prova contra o governo. Em zonas urbanas degradadas, como a cracolândia, a interação com moradores é igualmente vital para avaliar a teoria da janela quebrada: segundo ela, se não a consertamos, a tendência é que as outras janelas sejam quebradas também.
Um dos problemas que os novos prefeitos encontrarão é exatamente dar resposta rápida ao surgimento dessas áreas degradadas. As eleições terão de abordar outros temas além dos que se destacaram neste início de ano. Em todos eles, principalmente no da sustentabilidade, a escolha estratégica por uma cidade inteligente deveria ser levada em conta.
Os governos encontram em 2012 uma nova realidade social. Milhões de moradores das metrópoles têm acesso à internet e se integram em redes sociais. Não se deve temê-los por desejarem ter acesso aos dados do governo, mesmo porque os que querem transparência já venceram no plano legal, somente esperam que o governo se organize para cumprir a lei. Deve-se é respeitá-los, pelo potencial de contribuição, sobretudo nos momentos caóticos, em que as metrópoles se tornam grandes e complexas demais para os recursos mentais do governo.
Faz alguns anos que se repete a tese de que, numa região metropolitana, uma cidade, sozinha, não resolve os seus problemas. Mas não se avança na construção de uma governabilidade mais ampla. Os novos instrumentos podem contribuir para o primeiro passo: a troca de dados. Que pode evoluir para operações mais complexas, como, por exemplo, a compra conjunta de remédios, com potencial de reduzir o seu custo em 20%.
Claro que a corrupção sempre ronda projetos desse gênero. Mas, embora não seja uma panaceia, o novo instrumento é o mais indicado para se obter a transparência. Essa necessidade de transparência poderá ser um tema importante em cidades como Campinas, Teresópolis e Friburgo, onde prefeitos foram afastados, acusados de corrupção.
Traumas urbanos, traumas éticos. Certamente as cidades que comparecem às urnas estão mais amadurecidas para participar de um tipo mais inteligente de governo. Inteligente não apenas porque utiliza instrumentos tecnológicos, mas porque se enriquece com a inteligência social.
Isso pode parecer ingenuamente otimista. Diante desse argumento, só posso responder com as condições combinadas: problemas urbanos cada vez mais complexos, novos e poderosos instrumentos tecnológicos de gestão e uma sociedade mais ligada. Ignorar essa conjunção, representa quase o mesmo que ignorar nos programas para as cidades litorâneas a tendência à elevação do nível do mar. Aliás, nas cidades pernambucanas de Paulista, Jaboatão e Recife, de certa forma, o futuro já chegou: o avanço do mar é visível há alguns anos.
Que vengan los toros. Mas depois do carnaval. É quando se começa a notar a presença dos candidatos. E avaliar como se comportam diante de novas realidade, como os desastres climáticos, por exemplo. Palco de um debate indispensável sobre o destino de suas cidades, o Brasil abriga ainda em 2012 a Rio+20. Sua agenda - combate à miséria, economia verde, sustentabilidade, proteção dos mares - pode entrelaçar-se com o debate metropolitano.
Há muito que esperar do processo eleitoral de 2012, embora um morador do Rio tenha ainda de se guardar para as visitas do Sobrenatural de Almeida, o personagem de Nelson Rodrigues. E ele não respeita fronteiras.

Balanço dos Brics Adriana Erthal Abdenur



O Globo - 03/02/2012
 

Nas relações internacionais, a influência de um grupo de países não depende apenas da vontade dos seus membros em constituírem-se como coletividade, mas também do reconhecimento alheio: a partir do momento em que o grupo se mostra mais do que a mera soma das suas partes, ele ganha peso e legitimidade. Em 2009, Brasil, Rússia, Índia e China — países extremamente heterogêneos que haviam sido reunidos sob a sigla Bric quase que por um capricho de um economista da Goldman Sachs — criaram um fórum internacional para articular certas posições em comum. Passados três anos e o ingresso da África do Sul, podemos dizer que os Brics são um grupo, ou ainda trata-se de uma coleção de países demasiadamente díspares para serem levados a sério em conjunto? Desde a primeira Cúpula, realizada em 2009, as iniciativas do agrupamento vêm provocando uma variedade de reações, do entusiasmo ao alarme, passando pelo desprezo e pelo ceticismo.
Nos debates, percebe-se uma certa polarização acerca dos Brics.
Se, por um lado, os pessimistas argumentam que as disparidades geográficas, políticas e culturais entre os países impedem a formação de qualquer grande consenso, os românticos afirmam que os Brics irão revolucionar a governança global. Os Brics aparecem ora como salva-pátria, ora como motivo de chacota.
Por mais sedutoras que pareçam, ambas visões impedem uma análise mais apurada. Os pessimistas esquecem que a História está repleta de alianças duradouras entre países que pouco compartilham além de interesses estratégicos (Estados Unidos e Arábia Saudita, por exemplo). Sem dúvida, afinidades históricas ajudam a cimentar alianças, mas não constituem uma condição sine qua non. Apesar das diferenças entre os Brics, os cinco países compartilham uma certa desconfiança do sistema atual de governança internacional, ainda marcado pela hegemonia dos países avançados.
Para os românticos, os Brics ofereceriam um novo modelo de governança, menos assimétrico. Nas versões mais otimistas, qualquer assistência financeira prestada à zona do euro representaria uma mudança sísmica no sistema internacional. A vanguarda da torcida deleita-se com o ineditismo da visita da diretora do FMI, Christine Lagarde, que veio ao Brasil com pires na mão, e não — como outrora — oferecendo empréstimos com condições draconianas. E baseiam seus argumentos em três pressupostos tão ambiciosos quanto duvidosos: 1) que o poder dos países avançados vem sofrendo não apenas uma erosão temporária, mas um declínio permanente; 2) que a ascensão dos Brics é inevitável; e 3) que os Brics já oferecem um projeto alternativo coerente e viável para a governança internacional. Ao apostarem cegamente na capacidade dos Brics de superar suas desavenças, os românticos pecam pela ingenuidade.
O potencial de coordenação entre os Brics ainda está sendo testado — não apenas pelos membros, mas também pela própria crise.
Estas visões polarizadas, que exageram tanto os obstáculos como os sucessos dos Brics, escondem uma realidade bem mais complexa. Nem sempre os países conseguem alcançar um consenso: ano passado, os Brics deixaram transparecer vários pontos de discórdia e falhas de comunicação, inclusive na tentativa de oferecer assistência à Europa. Por outro lado, há maior coordenação entre os Brics nos temas que chegam ao Conselho de Segurança, assim como novas iniciativas de reforma e cooperação. Diplomatas contam que, durante as reuniões da ONU e do G20 representantes dos Brics dialogam pelos corredores — uma diplomacia informal que ajuda a consolidar as relações.
No fim das contas, o grupo representa uma tentativa ainda embrionária de forjar novas parcerias. Quanto ao reconhecimento, muitos países ainda preferem lidar com os Brics individualmente, mas o agrupamento vem ganhando espaço. Ao assumir a presidência da União Europeia, a Dinamarca anunciou que as relações com os Brics serão uma das prioridades da nova gestão. Aos poucos, os Brics passam de mero agrupamento a verdadeiro grupo.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

O descompasso Míriam Leitão


O Globo
Há sinais de que as vendas do comércio perderam fôlego nos últimos dois meses. As vendas no Natal vieram abaixo do esperado, as lojas anteciparam promoções em janeiro e a confiança dos consumidores e dos empresários do comércio caiu. Ainda assim, o ano para o varejo pode ser tão bom quanto 2011, com um ritmo mais forte no segundo semestre. A crise de 2008 atingiu em cheio a indústria e ela estagnou, mas o consumo das famílias foi um pilar importante de sustentação do PIB. O gráfico abaixo mostra como o varejo voltou rapidamente a crescer, e a indústria continuou patinando. Por isso, tem chamado atenção os últimos dados do comércio, que têm decepcionado. Ontem, a CNC divulgou queda de 2,3% na confiança dos empresários do setor. O que forçou a queda foi o item expectativas, que recuou 3,3%. A intenção de investir caiu 4,5% e a de contratar funcionários despencou 10,8%. Por trás da queda do otimismo, há alguns fatos. As vendas no Natal não atingiram a meta esperada. Em janeiro, as promoções começaram mais cedo porque os estoques estavam elevados. É bom lembrar que o setor calculou uma meta para crescimento em relação ao ano anterior, que havia sido de forte alta. Portanto, crescer menos do que o projetado não é exatamente um problema. E é consistente com o quadro geral da economia que foi mesmo de desaceleração. Segundo o presidente da CNC, Carlos Thadeu de Freitas, o esfriamento da economia no terceiro e no quarto trimestres também atingiu o varejo. Ele lembra que 2011 foi ano de inflação alta, que chegou a passar de 7%. Isso tirou renda dos consumidores: - A economia andou devagar a partir do terceiro trimestre. O Natal foi mais fraco e a projeção de crescimento de 7,5% não foi atingida. Ficamos em 6,5%, o que é um ótimo resultado. Para este ano, prevemos o mesmo ritmo, com um primeiro semestre mais fraco sendo compensando por um segundo semestre mais forte. A FGV mostrou uma queda forte na confiança dos consumidores em janeiro. O quesito que mais caiu foi a intenção de compras de bens duráveis. O economista Aloisio Campelo, coordenador de pesquisas da FGV, explica que o indicador de duráveis já havia caído nos dois meses anteriores, em faixas de renda mais baixas e nas capitais. Em janeiro, caiu nas faixas de renda mais altas e nas cidades com maior peso: Rio e São Paulo. Ele acha que pode estar diminuindo a demanda por bens duráveis, depois de dois períodos fortes de vendas, entre os anos 2007 e 2008; 2010 e 2011: - Em dezembro, fizemos uma sondagem para entender o que as pessoas fariam com o dinheiro extra. Aumentou o percentual dos que iriam pagar dívidas ou fazer poupança, e caiu a taxa dos que iriam gastar com duráveis. Há uma postura maior de cautela por parte dos consumidores. O presidente do Instituto de Desenvolvimento do Varejo (IDV), Fernando de Castro, também enxerga uma desaceleração ao longo de 2011. Mas acredita que ela foi interrompida pela redução do IPI de linha branca, adotada pelo governo em novembro, e pela antecipação das promoções em janeiro: - Nossos indicadores fechariam o ano em 4% não fosse a redução do IPI. Fechou em 5,5%. A antecipação das promoções deve levar a taxa para 6,5% em janeiro. Houve uma quebra no processo de desaceleração. A redução do IPI sustentou a venda de itens de linha branca e ajudou os resultados das grandes redes. O presidente do conselho de administração da Máquina de Vendas, Luiz Carlos Batista, holding que controla as marcas Ricardo Eletro, Insinuante, City Lar e Eletro Shopping, conta que o grupo não notou redução de consumo neste início de ano: - O segmento de eletroeletrônicos teve em janeiro deste ano um crescimento muito superior a janeiro de 2010, na casa de 7%. No Natal, também batemos a nossa meta. O crescimento da classe C tem mantido o consumo forte desses itens, as pessoas estão montando a casa. O presidente da Associação dos Lojistas de Shoppings, Nabil Sahyoun, espera um crescimento entre 5% e 6% do setor este ano, mantendo a tendência de uma alta duas vezes maior que o PIB . Ele explica que alguns setores estão com ritmo mais forte, como calçados, perfumaria e cosméticos e eletroeletrônicos. Em ritmo mais fraco, Sahyoun aponta o vestuário: - O setor têxtil está sofrendo pelo aumento de custos e também pelos gastos dos brasileiros no exterior. O real forte estimula as viagens e gasta-se muito com roupas fora do país. Esse dinheiro deixa de ser gasto aqui. Mas quem realmente está com passo preocupante é a indústria. Veja abaixo o descolamento entre varejo e indústria. A distância tem aumentado, mostrando um crescimento sustentado pelo incentivo ao consumo e não à produção.

Tudo em família Merval Pereira


O Globo
Quando todos são culpados, ninguém tem culpa. Foi mais ou menos isso o que a presidente Dilma Rousseff tentou fazer em sua visita a Cuba: tirar a responsabilidade do regime ditatorial sobre as transgressões aos direitos humanos, passando a ideia de que esse é um problema generalizado, inclusive no Brasil e nos Estados Unidos, como se as barbaridades que acontecem em Cuba fossem comuns na maioria dos países do mundo e, portanto, uma questão que tem de ser tratada globalmente. É um raciocínio político absurdo, porque iguala democracias e ditaduras. Já havia tratado do assunto no meu blog no site do GLOBO com a seguinte nota: "Alhos com bugalhos "O raciocínio da presidente Dilma sobre os direitos humanos faria até sentido se ele comparasse regimes políticos semelhantes. Mas ela simplesmente está misturando alhos e bugalhos. "Uma democracia como a brasileira tem de ser criticada, e frequentemente o é, pelas falhas nos direitos humanos nas suas prisões, por exemplo, que são vergonhosas, ou nas comunidades pobres. "Ou os Estados Unidos, como a própria presidente brasileira lembrou, quando abusam dos direitos dos prisioneiros de Guantánamo. "E a imprensa internacional não se cansa de denunciar esses abusos, lá e em outras regiões do mundo onde os Estados Unidos, através de seus agentes, cometem qualquer tipo de barbaridade. "E geralmente, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos - mais lá do que aqui, temos que admitir -, os agentes públicos que abusaram de seu poder e mancharam o nome do país são punidos, e o sistema judiciário costuma atuar com rigor. "O mesmo não se pode dizer de Cuba, onde o abuso dos direitos humanos é uma política de Estado, e onde dissidentes morrem de fome por falta de um mínimo de atuação do Estado, que é uma ditadura de mais de 50 anos, sem Parlamento livre nem liberdade de imprensa, e, portanto, não pode ser comparada com outros países democráticos que falham na proteção dos direitos humanos." Mas é preciso retomar o assunto, para que pelo menos fique claro que não é possível enganar todo mundo sempre. Na primeira visita de Lula a Cuba como presidente, logo após a crise em que alguns dissidentes que tentaram fugir da ilha foram fuzilados, Frei Betto, que era assessor especial da Presidência, garantiu que Lula conversara com Fidel sobre o assunto, a ponto de irritá-lo. O velho ditador, como reação, cobrara de Lula atuação mais firme na reforma agrária, a favor do MST. O fato é que Lula e todos os membros do governo que têm uma relação pessoal com Cuba consideram que não devem fazer críticas públicas ao governo cubano. Tilden Santiago, que foi embaixador do Brasil em Cuba durante um período do governo Lula, quando era petista - depois aceitou uma boquinha no governo tucano de Aécio Neves e teve que sair do partido -, disse claramente certa vez que não se sentia bem em criticar o governo cubano, pois era sua "família". Ou seria "famiglia"? Alegam os petistas que é mais eficiente tratar de assuntos delicados discretamente. É uma tática de quem trata com um amigo, e não de Estado para Estado. E os resultados, até o momento, têm sido nulos. A Espanha, por exemplo, um dos maiores financiadores de Cuba, trabalhando junto à Igreja Católica de Cuba, representada por seu ministro das Relações Exteriores, Miguel Ángel Moratinos, conseguiu obter do governo ditatorial cubano o compromisso de libertar 52 dos 167 presos políticos do país, em junho do ano passado. Essa atitude brasileira já produziu fatos vergonhosos, não condizentes com o Estado democrático, como a entrega ao governo cubano dos pugilistas cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que haviam fugido da concentração durante os Jogos Pan-Americanos no Rio, em 2007, e queriam ficar no Brasil asilados. Meses depois, desmentindo o governo brasileiro, que disse que os cubanos pediram para voltar ao seu país, Erislandy Lara, bicampeão mundial amador da categoria até 69 quilos, chegou a Hamburgo, na Alemanha, depois de ter fugido em uma lancha de Cuba para o México. Em 2009, Rigondeaux acabou fugindo para Miami, nos Estados Unidos. O prestígio internacional do então presidente Lula ficaria abalado depois de sua atitude diante da morte do dissidente cubano Orlando Zapata Tamayo em uma prisão, após 85 dias de greve de fome. Lula posou sorridente ao lado de Fidel e Raúl Castro, e, quando questionado sobre a greve de fome, fez diversas declarações, todas elas defendendo o governo cubano e acusando os presos políticos. "Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubano de prender as pessoas em função da legislação de Cuba, como quero que respeitem a do Brasil." Mais uma vez a confusão proposital entre leis de uma ditadura e as de uma democracia. Pois a presidente Dilma repete a mesma tática, ela que vendia a ficção de que sua política externa se diferenciava da de Lula pelo respeito aos direitos humanos quando deu uma entrevista ao jornal "Washington Post" antes mesmo de tomar posse, condenando o apedrejamento de mulheres no Irã. Não se diga que ela foi específica com relação à condenação por apedrejamento por se tratar de uma questão que envolve preconceito contra a mulher. O jornal destacou o fato de Dilma ter lutado contra o regime militar no Brasil e ter sido torturada, e a presidente eleita afirmou que tinha "compromisso histórico" com aqueles que foram ou estão na condição de presos políticos. Depois de tomar posse, a presidente deu novos passos no sentido de reparar essas violações dos direitos humanos dos presos políticos brasileiros. Em novembro de 2011 sancionou a lei que instituiu a Comissão da Verdade. Segundo suas declarações na ocasião, a sanção significava que o Estado deve subordinar-se aos direitos humanos, mas enfatizou que não se tratava de uma "revanche histórica", mas uma garantia do direito à memoria, à verdade e à cidadania. Todas essas belas palavras valem para o Brasil, para os Estados Unidos, para o Irã, mas não valem para Cuba?

Mentalidades, surtos e manias - VINICIUS TORRES FREIRE



FOLHA DE SP - 02/02/12

VEZ E OUTRA, há preocupação em espinafrar economistas que erraram tanto ou quanto nas previsões de desempenho econômico. Os economistas em geral são vítimas de "Schadenfreude" (alegria com a desgraça alheia) bem mesquinha.

Não se pode dizer que sejam vítimas inocentes, pois não raro fazem alaridos de arrogância juvenil quando seus modelos botam ovos econométricos que indicariam o destino inelutável da humanidade.

Menos comentados são os surtos e manias de ideias temporariamente fixas (sic) que dominam o debate econômico mais comum, em geral alarmismos ideológicos.

Quem acompanha essa conversa deve se lembrar, por exemplo, de quando se dizia que o aumento do salário mínimo causaria elevação do desemprego e da informalidade (uma conversa recorrente até por volta de 2006, mais ou menos).

Não aconteceu nada disso no Brasil, claro, embora seja bom observar que, em certas condições, a teoria acerta ao prever que tabelamentos de salários resultam em degradações do mercado de trabalho.

Mais recentemente, ano passado, ouvia-se que os sindicatos conseguiriam tanto reajuste de salários que haveria uma explosão inflacionária. Não aconteceu, claro, embora a oferta em geral escassa de trabalho (desemprego baixo) segure a inflação em nível mais alto. O alarmismo, porém, era miopia ou coisa pior.

A categorias mais organizadas, afora bancários e petroleiros, estão na indústria. Faz anos, uns quatro, que a indústria não consegue repassar custos para preços (na média). E quem fez o alarido da espiral preços-salários em 2011 se esqueceu de observar que o número de pessoas ocupadas crescia mais devagar, assim como a massa salarial etc.

Outro surto foi o dos alertas sobre a "explosão da dívida bruta" do governo, em 2009. O governo fez muita dívida para emprestar dinheiro para o BNDES. Mas, na dívida líquida (a mais publicada e debatida), esse endividamento adicional não aparecia: o empréstimo para um banco público também é um dos haveres do governo.

A dívida líquida do governo é a bruta afora haveres como, pela ordem, reservas internacionais, empréstimos ao BNDES (que passaram de 0,2% do PIB em 2007 para 7,3% em 2011) e dinheiro do FAT.

Dizia-se que o governo começaria a perder o crédito, dado o aumento da dívida bruta etc. Bem, a dívida bruta cai desde 2009.

Claro que o governo fazer dívida para financiar os empréstimos subsidiados do BNDES é um problema. Primeiro, trata-se de um dinheiro que não é discutido no Orçamento. Segundo, essa dívida é cara (o governo paga juros altos, o BNDES empresta a juros menores).

Isto posto, a dívida brasileira é um caso sério, por qualquer critério (afora a comparação com os governos superendividados do mundo rico): é das mais caras do mundo e é quase inteira rolada a cada três anos, entre outras aberrações custosas e potencialmente perigosas.

O resumo da ópera é que tais conversas e desconversas são politizadas de modo rasteiro, servem a propaganda barata e carecem do básico de prudência analítica.

Pior ainda, distorcem a compreensão de problemas que, em si sérios, são esquecidos depois que passa o período da marola ideológica que distorce toda a discussão.

Saudades de Jimmy Carter (Dilma em Cuba)Ricardo Noblat


Blog Noblat

Dilma e Raul Castro, presidente de Cuba. FotoO Globo

O que a militante política de esquerda Dilma Rousseff deve ter pensado quando Jimmy Carter, presidente dos Estados Unidos entre 1977 e 1981, começou a criar dificuldades para a ditadura militar brasileira cobrando mais respeito aos direitos humanos?
Ela exultou com a postura de Carter? Ou por acaso o censurou pensando assim: "Quem atira a primeira pedra tem telhado de vidro", convencida de que "não é possível fazer da política de direitos humanos apenas uma arma de combate político ideológico contra alguns países"?
Ou foi ainda mais longe e tascou: "O desrespeito aos direitos humanos ocorre em todas as nações", inclusive nos Estados Unidos. Logo... Logo Carter deveria levar em conta que o respeito aos direitos humanos "é algo que temos de melhorar no mundo de uma maneira geral"?
Na época, Carter chegou a despachar sua mulher para uma viagem ao Brasil. Aqui, ela se reuniu com o  presidente Ernesto Geisel e interrogou-o sobre denúncias de torturas e de desaparecimento de presos da ditadura. Foi um momento de humilhação para o general. E de conforto para quem a ele se opunha.
Tudo o que imaginei que a militante Dilma (vulgo Estela ou Vanda) poderia absurdamente ter pensado a respeito da intervenção de Carter em assuntos internos do Brasil foi dito hoje pela presidente Dilma Rousseff em visita à Cuba, onde vigora a ditadura dos irmãos Castro desde janeiro de 1959.
Os dissidentes cubanos torceram por uma atuação de Dilma que lembrasse a de Carter no passado, quando ele decidiu puxar o tapete de algumas das ditaduras apoiadas por seu país. Na verdade, Dilma nada tem a ver com Carter. Mas pelo menos poderia ter sido menos amigável com uma ditadura do que foi.
Essa história de não se meter em assunto de outro país é um falso dogma. Se países põem em risco a segurança do mundo ou violam princípios e valores universalmente aceitos, é compreensível que sejam criticados pelos demais. E até boicotados em casos extremos.
Lula achou que o Brasil deveria romper relações diplomáticas com Honduras quando o presidente Manuel Zelaya foi derrubado pelo Congresso, detido pelo Exército e em seguida deportado. Zelaya voltou escondido ao seu país e se abancou na embaixada brasileira. Fez dela seu bunker com a concordância de Lula.
O eclipse da democracia em Honduras durou pouco tempo. Em Cuba se arrasta há 53 anos.

Dilma desandou - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S. Paulo - 02/02/12



São improcedentes as críticas à presidente Dilma Rousseff por sua recusa em abordar as violações dos direitos humanos sob a ditadura que vigora em Cuba há meio século. Mas ela merece ser criticada - duramente - pelo palavrório com que tentou justificar em Havana o seu silêncio em face da política repressiva do regime dos irmãos Castro.

Dilma foi a Cuba, na sua primeira visita de Estado à ilha, para promover os interesses econômicos brasileiros. Por intermédio do BNDES, o País banca 70% do mais ambicioso empreendimento privado ali em curso - a transformação do Porto de Mariel em um dos maiores da América Latina, ao custo aproximado de US$ 1 bilhão. A obra é tocada pela construtora brasileira Odebrecht. O Brasil, apenas o quarto parceiro comercial de Cuba, só tem a ganhar com a ampliação da sua presença econômica na ilha, a exemplo do que fizeram, sobretudo no setor de turismo, a Espanha e o Canadá. Ganhará tanto mais - e esse deve ser o raciocínio estratégico de Brasília - se e quando se normalizarem as relações entre Havana e Washington. Trata-se de estar desde logo ali onde a concorrência virá com tudo.

Nesse quadro, não se deveria esperar que a presidente usasse a mesma mão com que assinou, metaforicamente, os cheques do novo espaço que o empresariado brasileiro ambiciona ocupar em Cuba para investir de dedo em riste contra os seus anfitriões. Nos últimos dois anos, o ditador Raúl Castro iniciou um programa de abertura econômica que, embora tropeçando na pachanga local, pretende ser uma versão caribenha do modelo chinês: economia de mercado com mordaça política. A propósito, desde que a China se abriu, a nenhum chefe de governo brasileiro ocorreu condenar as suas políticas liberticidas - e a nenhum comentarista ocorreu condená-lo por isso.

É também descabida a evocação da visita ao Brasil, sob a ditadura militar, do então presidente americano Jimmy Carter - que não só fez chegar ao homólogo Ernesto Geisel seu protesto pelo que se passava nos porões do regime, como ainda recebeu um dos maiores defensores dos direitos humanos no País, o cardeal dom Paulo Evaristo Arns. É verdade que militantes como Dilma Rousseff, que sentiram literalmente na carne o que era se opor aos generais, devem ter se regozijado com a iniciativa de Carter. Logo, ela deveria imitá-lo em Havana. Lembre-se, no entanto, que o que trouxe Carter ao Brasil foi o contencioso desencadeado pelo acordo nuclear do País com a Alemanha, tido em Washington como o atalho aberto pelos militares para chegar à bomba atômica. Sem falar nas pressões das entidades americanas de direitos humanos pela condenação ao Brasil - o que inexiste aqui em relação a Cuba.

Critique-se Dilma não pelo que calou, mas pelo que falou. Exprimir-se, como se sabe, é uma peleja para a presidente - talvez por isso seja tão avara com as palavras em público. (Há quem diga que quem não fala bem não pensa bem, mas esse, quem sabe, é outro assunto.) Perguntada pelos jornalistas que a acompanhavam sobre direitos humanos em Cuba, Dilma desandou. Poderia ter respondido protocolarmente que, dada a sua condição de chefe de Estado visitante, não poderia se manifestar sobre questões internas do país anfitrião, como seria inadmissível que um hóspede oficial do governo brasileiro fizesse algo do gênero em relação ao País - e ponto final. Em vez disso, saiu-se com um bestialógico sobre o "telhado de vidro" sob o qual estaria o mundo inteiro, democracias e ditaduras, nessa matéria.

Ainda na linha da "primeira pedra", disparou incongruentemente um torpedo contra os Estados Unidos, pela "base aqui que se chama Guantánamo". À parte a trôpega retórica, ao se referir à instalação americana em Cuba, onde 171 acusados de terrorismo mofam sem direito a julgamento, a incontinência verbal levou Dilma a virar contra si a "arma de combate político-ideológico" que, segundo ela - neste caso com razão - não deve predominar no debate sobre direitos humanos seja onde for. Resta ver, na hipótese de lhe perguntarem sobre Guantánamo na visita que um dia fizer aos Estados Unidos, em retribuição à do presidente Obama, se ela falará dos presos políticos cubanos.

É o sistema - CARLOS ALBERTO SARDENBERG


O GLOBO - 02/02/12


Ricos envergonhados são assim: quanto mais dinheiro ganham, mais adotam posições políticas contra o capitalismo em geral e o sistema financeiro em particular. O patrono da categoria é George Soros, que, aliás, continua lucrando com seus fundos especulativos, mas há representantes espalhados por toda parte. O número cresceu exponencialmente depois da erupção da crise global.

É como se fosse uma defesa antecipada. Reparem: a era de prosperidade do final do século passado e início deste trouxe um aumento da desigualdade. Centenas de milhões de pessoas deixaram a pobreza, formaram-se novas classes médias nos países emergentes, mas os ricos se deram melhor no mundo todo. Ganharam mais, aumentaram sua participação no bolo na fase de expansão e, se perderam muito no auge da crise, conseguiram melhor recuperação.

Logo, se os ricos foram os principais beneficiários disso tudo, então necessariamente são os culpados ou pelo menos os principais suspeitos, certo? Errado, respondem seus representantes. O problema está no sistema capitalista, explicam, apresentando-se como apenas uma peça da engrenagem. Vai daí, engrossam o coro anticapitalista e clamam por reformas.

Exagero? Pois então leiam sobre os debates no Fórum Econômico Mundial, em Davos, o tradicional encontro de líderes globais, públicos e privados, para ajustar os rumos da economia de mercado. O modelo faliu, procuram-se alternativas - foi o mote principal.

Terminou sem respostas. Ocorre que a alternativa ao capitalismo, o socialismo, morreu antes. A rigor, há apenas um regime socialista sobrevivente, o de Cuba, estagnado, pobre, com imensa dificuldade de crescimento. Por isso, está em reformas, mas em qual direção mesmo? Pois é, redução do Estado, incluindo demissão de funcionários públicos, e ampliação de áreas abertas à iniciativa privada estrangeira. A brasileira Odebrecht, por exemplo, vai produzir açúcar e etanol na ilha, com a bênção da presidente Dilma.

A presidente não foi a Davos. Foi a Porto Alegre, para o Fórum Social, a versão socialista, e lá lançou mais um ataque ao neoliberalismo, que não é bem um sinônimo de capitalismo, mas é quase.

De onde o leitor pode imaginar o tamanho da confusão. As reformas em Cuba são, nesse sentido, neoliberais. Menos Estado, mais mercado. Além disso, vamos dar uma olhada no noticiário local recente.

Está em curso o leilão de privatização de três grandes aeroportos brasileiros. OK, o governo e seus aliados de esquerda juram que não se trata de privatização, mas de concessão, porque nada será vendido. (Os demais aliados não dizem nada e muitos deles esperam obter alguma vantagem nesses grandes negócios).

Mas o mundo todo chama de privatização quando o governo pega um bem público e o concede, mediante pagamento, a empresas privadas por 30 anos, prorrogáveis. De novo, portanto, o que temos? Menos Estado, mais mercado. Aliás, membros do governo disseram isso mesmo sobre o leilão: teremos mais capital, nacional e estrangeiro, mais competição, mais tecnologia de fora. E menos Infraero, espera-se.

Também nesta semana, a área econômica do governo Dilma comemorou o superávit primário de 2011 e a redução do endividamento público como porcentagem do PIB. Alardearam: viram como este governo faz ajuste fiscal?

Ora, superávit primário, redução da dívida, ajustes, tudo isso é herança neoliberal. Mas a presidente Dilma disse em Porto Alegre que toda a América Latina, antineoliberal, vai muito bem, ao passo que os desenvolvidos, neoliberais, vão mal. E que a Europa vai cair no desemprego e na ditadura se insistir no ajuste "conservador" de redução das dívidas públicas.

Mas quais países europeus passam melhor por esse turbilhão? Alemanha e Holanda, por exemplo, justamente aqueles que cumpriram mais à risca a cartilha de ajuste conservador. Também foram os europeus que mais avançaram em reformas com o objetivo de destravar suas economias e abrir o mercado. Na Alemanha, houve até uma redução real de salários para tornar os produtos locais mais competitivos.

E a América Latina? Os países que vão bem são justamente aqueles que avançaram as reformas neoliberais dos anos 90. Podem reparar, todos têm as mesmas bases econômicas: responsabilidade fiscal, superávit primário, regime de metas de inflação, câmbio mais ou menos flutuante, privatizações, muita exportação para a China, acúmulo de reservas e, sim, programas tipo Bolsa Família. (Aliás, transferir dinheiro diretamente para os mais pobres foi uma ideia nascida no campo liberal.)

Finalmente, qual o país rico que está saindo mais depressa da crise? Os Estados Unidos, onde, aliás, há o maior número de ricos envergonhados. Ah! O sistema!

Cacoete ideológico em Cuba - EDITORIAL O GLOBO


 02/02/12

Na primeira visita a Cuba, a presidente Dilma Rousseff foi traída pelo passado. Não se esperava que abordasse o tema dos direitos humanos em público. Mas decidiu fazê-lo, numa cerimônia no Memorial José Martí, e cometeu o grave erro de tentar relativizar os fartos e conhecidos crimes cubanos nesta área, incluindo numa infeliz pensata os delitos cometidos pelos americanos na base de Guantánamo, na ilha, uma nódoa, de fato, na História dos Estados Unidos. Mas misturou coisas diferentes, na visível tentativa de, como é praxe em parte da esquerda brasileira, passar a mão na cabeça dos irmãos Castro. Dilma pontificou que não se deve usar direitos humanos como arma política.

De fato, mas, dito isto, incorreu neste mesmo erro.

Ali, logo no início da viagem oficial, transformou- se em decepção a esperança que dissidentes tinham de que Dilma não repetiria a desastrada passagem de Lula pela ilha, no mesmo dia da morte de Orlando Zapata, um dos presos políticos de Fidel e Raúl em greve de fome. De volta ao Brasil, comparou-os a prisioneiros comuns. O fato de o Brasil ter concedido visto à dissidente Yoani Sánchez, para ela vir ao país ao lançamento de um filme sobre a resistência em Cuba, alimentou as expectativas otimistas. Não que Dilma fosse discursar a favor dos cubanos perseguidos. Mas o silêncio em público poderia até levar a supor que o tema seria tratado em contatos privados.

— Ela agiu como Lula e não se interessou pelo povo cubano — desabafou Berta Soler, porta-voz das Damas de Branco, grupo formado por mulheres e familiares em geral de presos políticos.

Foi mais forte, infelizmente, o cacoete ideológico da extrema esquerda brasileira do final da década de 60 e início dos anos 70. Há neste grupo, marcado pela luta armada apoiada por Cuba, uma paixão cega e juvenil pelo castrismo.

Não importa para eles que a ilha seja, ao lado da Coreia do Norte, o último bolsão de stalinismo medieval, quase um pleonasmo.

Contaminado, também, por antiamericanismo atávico, o cacoete levou a presidente a tentar equiparar um regime brutal com uma das mais sólidas democracias do mundo, que carrega, é verdade, a mancha de Guantánamo. É risível tentar colocar no mesmo verbete os EUA e uma ditadura de mais de meio século, com inúmeros crimes cometidos contra os direitos humanos — fuzilamentos, greves de fome e mortes, perseguições, etc — no currículo.

O Brasil como nação e Estado pode e deve ajudar Cuba na transição para um regime mais arejado. Com a subida de Raúl Castro, na doença do irmão, ocorrem tentativas de alguma liberação na economia, mas ainda aquém do necessário a que alguns ingredientes do livre mercado possam aumentar a produção de alimentos, para livrar os cubanos de um já histórico racionamento.

Investimentos como os em curso na infraestrutura cubana, com apoio financeiro e tecnológico brasileiro, são ações também bem-vindas.
Mas de nada adianta fingir que Cuba não continua a ser uma ditadura violenta. A relativização na leitura da História é sempre perigosa. Por meio dela termina-se até "entendendo" por que Hitler fez o que fez com judeus, ciganos, homossexuais e artistas .

Sobram dólares lá fora Celso Ming



O Estado de S. Paulo - 02/02/2012
 
A forte valorização do real (baixa do dólar), de 7,8%, e a alta da Bolsa brasileira, de 11,1%, em janeiro, são montanhas da mesma paisagem.
O fator mais importante que puxou esses números para cima foi a extinção do principal foco de incêndio na Europa. Os bancos já não correm mais sério risco de quebrar, como se temia até o fim de dezembro.
Foi o despejo de quase meio trilhão de euros pelo Banco Central Europeu em empréstimos de três anos e juros de 1% ao ano para mais de 500 bancos a novidade que removeu a maior fonte de insegurança e turbulência financeira. E, confirmada nova operação no fim de fevereiro que pode alcançar 1 trilhão de euros (conforme estimativas), ficará quase definitivamente sacramentada a percepção de que não se repetirá na Europa catástrofe semelhante à do Lehman Brothers, em 2008 - embora a crise do euro continue sem solução.
Também o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) faz de tudo para garantir farta liquidez. Seu presidente, Ben Bernanke, acaba de avisar não só que os juros básicos seguirão perto de zero ao menos até o fim de 2014, mas que pode colocar em marcha nova operação de recompra de títulos do Tesouro americano (afrouxamento quantitativo) - o que implicaria novas emissões de moeda.
Essa atuação dos grandes bancos centrais, que restabeleceu no mercado financeiro internacional o apetite por aplicações de risco, é a principal explicação para o grande afluxo de moeda estrangeira ao mercado de câmbio do Brasil.
Mas não é a única. Contribui para isso o aumento da percepção de que, comparada com as demais, a economia brasileira vem tendo bom desempenho. Não é nada, exibiu em 2011 crescimento das exportações de nada menos que 26,8%, num ambiente paralisado pela crise; avanço do PIB de cerca de 2,7% (os números finais não estão disponíveis); e situação de pleno emprego como nunca se viu por aqui.
Portanto, a baixa do dólar no câmbio interno não é provocada por especuladores que trazem moeda estrangeira para tirar proveito dos juros bem mais baixos - como muita gente ainda pensa.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem repetido não tolerar uma excessiva valorização do real. Em direção aparentemente oposta, o Banco Central já não compra moeda estrangeira como antes. Isso sugere que o barateamento das importações e a consequente redução das pressões inflacionárias causadas pela valorização do real sejam parte do plano do governo que viabiliza a meta dos juros de um dígito (abaixo de 10% ao ano). Assim, a queda dos juros na economia (hoje possível a partir de melhores resultados das contas públicas) atua para atrair mais dólares. Ainda que a agonia do euro vigore em 2012, o despejo de moeda forte no mercado internacional não será reduzido nos próximos meses - tenderá a crescer. Ou seja, a valorização do real deve prosseguir.
Melhorar a competitividade do setor produtivo do País com virada no câmbio é projeto de alta probabilidade de insucesso. E, se está mesmo mais empenhado nisso, Mantega obteria melhores resultados se agisse mais eficazmente para derrubar o custo Brasil. É o caminho das reformas e dos investimentos em infraestrutura.

Satisfação garantida Dora Kramer



O Estado de S. Paulo - 02/02/2012
 
Chama atenção em alguns ministros, aliados políticos e auxiliares da presidente Dilma Rousseff a reverente, e de certo modo até prazerosa, placidez com que se submetem a humilhações públicas.
Não é raro relatarem - entre si e a jornalistas - como vantagem episódios em que foram alvos da truculência verbal da presidente da República.
Tornou-se quase um motivo de deleite levar uma "bronca" de Dilma. Outro dia mesmo o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, fez muito sucesso em cerimônia no Palácio do Planalto, relatando como a chefe costuma "espancar" projetos apresentados a ela.
Eis que, assim, o exercício da descortesia de defeito passou a ser visto como qualidade.
Nesse aspecto, o ainda ministro das Cidades, Mário Negromonte, ocupa uma espécie de tribuna de honra no quesito orgulho de apanhar.
Negromonte já se configura um problema desde o ano passado, quando foi acusado por deputados do próprio partido de distribuir mesadas em troca de apoio na bancada do PP, e também apontado como responsável pela adulteração de parecer técnico em obra de infraestrutura da Copa, por causa de conveniências políticas.
Sua cerimônia do adeus se dá ao estilo Dilma: arrastado, tortuoso e torturante. Ela mesma não diz nada, vai deixando a vítima cair de podre. No caso em questão, poder-se-ia acrescentar com requintes de crueldade, não fosse a maneira impávida com que o alvo recebe o que para qualquer ser humano normal seria uma afronta à dignidade.
Dilma já fez de tudo com Negromonte: demitiu-lhe o chefe de gabinete, o chefe da assessoria parlamentar, mandou espalhar que o considera um mau gestor, permitiu que a assessoria caprichasse nos detalhes sobre a repulsa que a presença dele no ministério lhe provoca, e o homem, ali, fazendo-se de surdo no desfrute da condição de saco de pancadas.
Já viu seu partido lhe retirar apoio, já assistiu à cena de seu padrinho, o governador da Bahia, Jaques Wagner, ser prestigiado com convite para integrar a comitiva presidencial na viagem ao Caribe logo após deixá-lo ao sol e à chuva, já recebeu todos os sinais, mas não faz concessão alguma ao amor-próprio.
Problema dele? Em parte. O método de demitir fala também sobre da sistemática de admitir e isso diz respeito à Presidência da República, ao governo, ao País.
As cenas patéticas de apego à boquinha, as frituras degradantes, a administração de insatisfações que geram também soluções insatisfatórias, as próprias contrariedades da presidente em relação ao desempenho de sua equipe, tudo poderia ser resolvido de forma mais digna.
Se o critério para ocupação de cargos fosse o mérito e não o Quem Indica. Vale para quem sai e vale para quem fica, conforme atestam as permanências dos ministros "Fernandos", Bezerra e Pimentel, e a desistência da presidente de demitir o presidente da Transpetro ao se inteirar das implicações de se livrar de um afilhado de alguém tão notório quanto o senador Renan Calheiros.
Nada com isso. As constantes trocas de ministros têm servido, entre outras coisas, para levar ao arquivo morto "os malfeitos" causadores das demissões.
É a lógica da página virada combinada à teoria da responsabilização zero.
Exemplo é o caso, agora denunciado pelo Estado, do Ministério do Esporte que pagou de R$ 4,6 milhões (sem licitação) a título de consultoria a uma fundação sobre a Empresa Brasileira do Legado Esportivo - estatal extinta antes de ser criada.
O ministro Aldo Rebelo não quer nem ouvir falar no assunto. Sugere que embalem Mateus seus genitores.
"Não estava no ministério quando houve a decisão de fazer a estatal, nem estava quando houve a decisão de extingui-la", diz, acrescentando que as explicações devem ser dadas por aqueles "que tomaram as duas decisões".
Como se o governo não fosse o mesmo, o ministério idem, o atual titular da pasta pertencente ao partido do antecessor e a presidente da República uma implacável zeladora da excelência da gestão.

Duas narrativas de uma crise Raghuram Rajan



Valor Econômico - 02/02/2012
 

Com as democracias industriais do mundo em crise despontam duas narrativas concorrentes sobre suas causas. O primeiro e mais conhecido diagnóstico é o de que a demanda desmoronou, derrubada pelas altas dívidas acumuladas no período prévio à crise. As famílias (e países) que se mostraram mais propensas a gastar não conseguiram mais fazer captações de empréstimos. Para reanimar o crescimento, outros precisam se encorajados a gastar - os governos que ainda podem captar deveriam ter déficits maiores e taxas de juros baixíssimas, deveriam desencorajar a poupança das famílias mais afeitas a economizar.
Sob tais circunstâncias, a imprudência orçamentária é uma virtude, pelo menos no curto prazo. No médio prazo, uma vez que o crescimento se recupere, as dívidas podem ser saldadas e o setor financeiro pode ser refreado, para que não provoque outra crise no mundo.
Essa narrativa - da linha padrão keynesiana, modificada pela crise da dívida - é a que arregimenta mais autoridades de governos e bancos centrais e economistas de Wall Street, e não precisa ser muito mais elaborada. Sua vantagem é dar às autoridades algo claro a fazer e trazer a promessa de retornos adequados ao ciclo político. Infelizmente, apesar dos estímulos já realizados, o crescimento ainda é moderado e está cada vez mais difícil encontrar novos gastos sensatos que possam surtir efeito no curto prazo.
Tomar emprestado, mais crescimento, pode criar a ilusão de normalidade e pode ser útil na sequência imediata de uma crise profunda, como forma de acalmar o pânico, mas não é solução para um problema nos fundamentos do crescimento.
As atenções, portanto, voltam-se à segunda narrativa, a de que a capacidade básica das economias avançadas para crescer por meio de ações úteis está em queda há décadas, uma tendência que era mascarada por gastos sustentados por dívidas.
A segunda narrativa começa nos anos 50 e 60, um período de alto crescimento econômico no Ocidente e Japão. Vários fatores - como a reconstrução do pós-guerra, o ressurgimento do comércio exterior depois do protecionismo da década de 30, a introdução de novas tecnologias de energia, transporte e comunicações pelo mundo e a expansão do nível de instrução - sustentaram essa onda de expansão. Como Tyler Cowen argumenta em seu livro "The Great Stagnation", no entanto, uma vez que esses "frutos nos galhos mais baixos" foram colhidos, tornou-se mais difícil impulsionar o crescimento depois dos anos 70.
Enquanto isso, como Wolfgang Streeck escreve de forma persuasiva na "New Left Review", os governos democráticos ampliaram rapidamente o Estado de bem-estar social. Quando o crescimento titubeou, o resultado foi que os gastos do governo cresceram, mesmo diante do encolhimento dos recursos. Por algum tempo, os bancos centrais acomodaram esses gastos. A alta inflação resultante criou descontentamento generalizado, especialmente porque houve baixo crescimento. A fé nos estímulos keynesianos diminuiu, embora a inflação elevada tenha contido o nível de endividamento público.
Os bancos centrais, então, começaram a concentrar-se em uma inflação baixa e estável como principal objetivo e se tornaram mais independentes de seus mestres políticos. Os déficits nos gastos dos governos, contudo, continuaram acelerados e a dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) aumentou de forma constante nos países industriais a partir do fim da década de 70, desta vez sem inflação para restringir seu valor real.
Percebendo a necessidade de encontrar novas fontes de crescimento, os Estados Unidos, perto do fim da presidência de Jimmy Carter e, depois, sob o governo de Ronald Regan, desregulamentaram os setores financeiro e industrial, como Margaret Thatcher fez no Reino Unido. O crescimento da produtividade acelerou-se de forma substancial nesses países, o que persuadiu a Europa continental a adotar suas próprias reformas, frequentemente promovidas pela Comissão Europeia.
A fase mais recente da busca frenética das economias avançadas por crescimento assumiu diferentes formas. Em alguns países, mais notavelmente nos EUA, a forte alta do crédito para o setor privado criou empregos em setores de baixa capacitação de mão de obra, como o de construção, e precipitou uma disparada do consumo, com as pessoas captando dinheiro com suas casas sobrevalorizadas como garantia. Em outros países, como a Grécia, assim como na Itália e Espanha, uma onda de contratações liderada pelos governos assegurou empregos para as pessoas com nível de instrução moderado.
Nessa narrativa "dos fundamentos", o PIB pré-crise dos países avançados era insustentável, já que se apoiava em captações de empréstimos e em empregos improdutivos e pouco úteis à economia como um todo. "Tomar emprestado" mais crescimento - como na narrativa keynesiana - pode criar a ilusão de normalidade e pode ser útil na sequência imediata de uma crise profunda, como forma de acalmar o pânico, mas não é solução para um problema nos fundamentos do crescimento.
Se esse diagnóstico estiver correto, os países avançados precisam concentrar-se em revigorar o crescimento da inovação e da produtividade no médio prazo e em realinhar as promessas de bem-estar social com a capacidade de arrecadação, enquanto aliviam o sofrimento dos realmente destituídos no curto prazo.
Nos EUA, é imperativo aperfeiçoar a correspondência entre possíveis empregos e capacitação da mão de obra. As pessoas compreendem melhor que o governo o que precisam e agem dessa forma. Muitas mulheres, por exemplo, vêm deixando empregos de baixos salários e adquirindo habilidades que lhes abrirão portas para cargos com melhor remuneração.
A esperança é que três forças poderosas ajudem a criar mais empregos produtivos no futuro: o melhor uso da tecnologia da informação e das comunicações (e novas formas de fazer essa tecnologia render), energia de custo mais baixo e a alta na demanda em países emergentes por bens de maior valor agregado.
Os países avançados têm escolha. Podem agir como se tudo estivesse bem, a não ser porque seus consumidores estão amedrontados e os "espíritos animais" precisam ser reanimados via estímulos. Ou podem tratar a crise como um alerta para consertar o que o endividamento escondeu nas últimas décadas. Para melhor ou para pior, a narrativa que persuadir os governos e populações desses países determinará seu futuro - e o da economia mundial. (Tradução de Sabino Ahumada)
Raghuram Rajan é professor de finanças na Booth School of Business, da University of Chicago, e autor de "Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy". Copyright: Project Syndicate, 2012.

Brasil, Índia e o novo Tratado de Tordesilhas Rakesh Vaidyanathan



Valor Econômico - 02/02/2012
 

Há mais de 500 anos, a Europa vivia um momento único, com as grandes navegações e a descoberta de novos continentes. Espanhóis e portugueses, sem medo do que estava por vir, foram pioneiros e lançaram-se ao mar em busca do desconhecido. Para crescer e ganhar força, já naquela época, sabia-se da necessidade de buscar novos mercados. Era impossível tornar-se uma potência sem conquistar novos territórios.
O Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494, foi um marco para as conquistas do então reino de Portugal e do reino da Espanha. O objetivo era dividir as terras, tanto as já descobertas como as por descobrir, entre os dois países. Pelo Tratado, as terras situadas até 370 léguas a oeste de Cabo Verde seriam da Espanha e à leste de Portugal, evitando assim conflitos entre potências católicas.
Hoje, mais de cinco séculos depois, o conceito e a necessidade de se buscar novos mercados prevalecem, ainda mais forte, principalmente no mundo corporativo. Para ser grande e tornar-se uma potência, é preciso cruzar as fronteiras e ir cada vez mais longe.
Uma aliança pode permitir às empresas brasileiras acesso aos países que tenham influência dos indianos
No atual momento da economia mundial, diante das crises americana e europeia, a inovação e as descobertas ficam a cargo dos países emergentes. Entre eles, além da China, destacam-se Brasil e Índia. Os dois países, além de promissores, possuem particularidades interessantes pelas quais já começamos a vislumbrar as condições de um novo Tratado de Tordesilhas.
Atualmente, nos países onde há influência indiana, percebemos uma menor penetração do Brasil, como em comunidades da África, países da Commonwealth britânica (formada pelo Reino Unido e por suas antigas colônias), no Oriente Médio ou no Sudeste da Ásia. A influência indiana vem devido à diáspora dos indianos, como publicou recentemente a revista britânica "The Economist". Já o Brasil possui mais influência em toda a América Latina e no Sul da Europa, além de Moçambique e Angola, regiões nas quais os indianos não estão presentes.
É como se as influências desses dois países estivessem relacionadas e divididas entre as igrejas católica (Brasil), devido à colonização portuguesa, e a anglicana (Índia), devido à colonização inglesa, formando uma grande linha imaginária que os separam, como se fosse um novo Tratado de Tordesilhas.
Assim, as empresas brasileiras que desejam entrar em diferentes países devem considerar uma aliança com a Índia. A partir de uma base indiana e um parceiro local, essas companhias podem ter acesso a vários países que contam com a presença e influência dos indianos.
Da mesma forma, as empresas indianas que desejam explorar a América Latina, Moçambique e Angola, ou buscam parcerias com bancos e companhias espanholas ou portuguesas, podem usar as conexões brasileiras. E já existem alguns exemplos dessa divisão estratégica. Montadores de ônibus indianos preferem a tecnologia brasileira à coreana ou chinesa. Isso porque, daqui a alguns anos, esses países competirão no Sudeste Asiático, ou seja, no próprio quintal. Para evitar possíveis conflitos, é viável aproveitar a tecnologia brasileira, que está conseguindo olhar a Ásia como mercado. Mesmo longe, essa distância geográfica permite maior sinergia e alinhamento de interesses, analisando Brasil e Índia como parceiros no âmbito do novo Tratado de Tordesilhas.
Nos mercados ricos, esse novo Tratado também pode funcionar. As commodities de chá e de café são exemplos de novos impérios. O Brasil é o maior exportador de café do mundo, mas não possui uma marca que o represente mundialmente e não retém o maior valor desse negócio. Por sua vez, a Índia é a maior exportadora de chá e só possui uma marca expressiva da bebida, que pertence ao Grupo Tata. Diante dessa realidade, e enxergando Brasil e Índia como parceiros, é possível supor que, se ambos juntassem forças, dividissem investimentos, compartilhassem operações de logística e criassem valores, uma nova potência de bebidas quentes poderia nascer.
Além desse, outros exemplos dessa sinergia existem e podem acontecer, como com os sapatos femininos que, com marca, design e know-how brasileiros e custo indiano, podem reconquistar o mercado europeu. Os agropecuaristas brasileiros, especificamente a Embrapa, também têm muito a ensinar aos indianos. A experiência brasileira com sementes pode resolver problemas graves de produtividade na Índia e, quem sabe, essa colaboração crie um gigante de sementes como a companhia americana Monsanto ou como a suíça Syngenta, que tem filiais espalhadas em 96 países, inclusive no Brasil.
O Brasil, em particular, vive às vésperas de uma década de prosperidade com grandes acontecimentos, como as descobertas de reservas de petróleo e a ascensão de nova classe média. Com o superávit econômico gerado por tudo isso, o país poderá financiar a expansão global de empresas nacionais e poderá fazer grandes investimentos em inovação. Olhando as outras potências emergentes como parceiros, não apenas como concorrentes, adotando a competição cooperativa e conhecendo sobre a cultura dos países parceiros, o Brasil fará com que este superávit renda ainda mais.
É possível afirmar, portanto, que esse novo Tratado de Tordesilhas entre Brasil e Índia, com valores democráticos e sociedades diversas, é um arcabouço, é uma colaboração para que estes outros negócios aconteçam de forma estratégica. Ao contrário do primeiro Tratado de Tordesilhas, que era sobre conquistas, o novo Tratado será sobre comércio. A nova religião que será propagada não será o catolicismo, mas, sim, a democracia e uma espécie de capitalismo que permite que o talento empresarial prospere. Considerando que muitas nações emergentes estão em busca de modelos para ir além do oeste e da China, cuja economia é dirigida pelo Estado, um novo Tratado de Tordesilhas beneficiará o mundo todo, uma vez que enfatizará um modelo colaborativo entre duas democracias emergentes que promovem o capitalismo de livre mercado.
Rakesh Vaidyanathan é sócio diretor da The Jai Group, consultoria especializada em mercados emergentes.

A cota de Cardozo :: Demétrio Magnoli


O Estado de S. Paulo - 02/02/2012

SOCIÓLOGO, DOUTOR EM , GEOGRAFIA HUMANA PELA USP
Anos atrás, o então ministro da Justiça, Tarso Genro, determinou a deportação de dois pugilistas cubanos que tentavam fugir de seu país. Há pouco, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, seu companheiro de partido, estabeleceu cotas restritivas para a concessão de vistos a imigrantes haitianos, anunciando a possibilidade de deportação dos que entrarem ilegalmente no Brasil. Genro fez um agrado asqueroso à ditadura dos Castros. Cardozo curva-se a reações preconceituosas que operam nas esferas superpostas das marcas social e de cor. Obviamente, os atos não são idênticos, mas ambos se inscrevem numa moldura similar de desprezo aos direitos humanos. Ministério da Deportação - é essa a placa de bronze que pretendem inaugurar sobre o espelho d"água do Palácio da Justiça?
No site de um jornal, sob a notícia de que o governo federal liberou um repasse de verbas para o Amazonas e o Acre destinado a apoiar o atendimento aos imigrantes haitianos, comentários de leitores funcionam como súmulas do preconceito. A marca da cor, indizível, oculta-se sob a da pobreza: "Lindo, Brasil! Ao invés de gastar esse dinheiro com os nossos pobres, vamos gastar com os pobres dos outros". O complemento, na mensagem seguinte: "Mais bolsa miséria a caminho. Vamos lá, Brasil". Há uma narrativa comum, insuflada pela ignorância sobre a História: "Qual país do mundo paga para receber brasileiros? Por que o governo brasileiro não olha para o norte e aprende como os EUA agem nessas ocasiões? Somos mais ricos que eles?".
Ao longo de sua História, os EUA receberam 75 milhões de imigrantes, um fenômeno sem igual que funcionou como a alavanca decisiva na configuração da maior economia do mundo. O principal ciclo imigratório, no meio século anterior a 1920, criou a agricultura farmer do Meio-Oeste e ergueu as plataformas industriais do Nordeste e dos Grandes Lagos. Eram pobres, quando não miseráveis, os europeus que desembarcavam em Nova York minutos depois de singrar ao largo da Estátua da Liberdade, fincada em 1886 numa ilha desabitada da baía.
Cardozo deveria, de fato, "olhar para o norte" antes de impor uma cota insignificante de cem vistos mensais para os haitianos. Nos EUA, o maior fluxo imigratório do mundo prossegue a taxas médias anuais superiores a 1 milhão, desde 1990. No lugar dos irlandeses, que fugiam da an Gorta Mór, a crise de fome deflagrada por uma praga nas plantações de batata, os novos imigrantes são latino-americanos ou asiáticos. Os mexicanos e seus descendentes somam 25 milhões, dois quintos dos quais residem na Califórnia. Nova York é o núcleo de uma comunidade expatriada de 600 mil haitianos, fonte principal dos recursos que, circundando a teia parasitária de ONGs internacionais atuantes no Haiti, sustentam os milhões de deslocados internos pelo terremoto de 2010.
O nome de Madison Grant está associado à única descontinuidade na história das migrações para os EUA. Grant escreveu um célebre tratado histórico sobre raças, promoveu a exibição de um pigmeu do Congo na jaula dos macacos do Zoológico do Bronx e formulou a Lei de Integridade Racial da Virgínia, de 1924. No mesmo ano, sob sua inspiração, o Congresso americano aprovou a Lei de Imigração que interrompeu o grande influxo migratório das décadas precedentes. Em nome da pureza racial da nação, a lei estabelecia cotas restritivas ao ingresso de europeus orientais e meridionais e proibia a entrada de asiáticos.
Da raça à cultura é só um passo. Há sete anos o cientista político Samuel Huntington publicou Quem Somos Nós? Os Desafios à Identidade Nacional Americana, uma obra nativista na qual caracteriza a imigração hispânica como um ácido corrosivo que ameaça a integridade cultural dos EUA. O livro ocupa lugar destacado na biblioteca de Newt Gingrich, o pré-candidato republicano que promete deportações em massa de mexicanos. Quando o ministro Cardozo seleciona os haitianos como alvos de restrições inéditas, está "olhando para o norte" - mas enxergando a porção ignóbil de uma longa história.
No primeiro semestre do ano passado, 330 mil imigrantes portugueses conseguiram regularizar seus papéis no Brasil. Cerca de 4 mil haitianos cruzaram ilegalmente a fronteira brasileira no último ano. Mas a bússola do ministro da Deportação Anunciada são as sondagens de opinião, não os fatos. Na entrevista consagrada a informar sobre a política de cotas, Cardozo invocou o imperativo da segurança nacional, dissertou sobre o conluio de "coiotes" com narcotraficantes e, astuto como uma raposa, mencionou o caso específico da entrada de um haitiano foragido de um presídio que desabou durante o terremoto. Nenhum jornalista solicitou que ele estabelecesse uma relação positiva entre a cota restritiva de vistos e o controle policial das fronteiras brasileiras. Também não se indagou o motivo para o contraste entre o tratamento dispensado aos imigrantes haitianos e portugueses.
Imigrantes são uma riqueza, um recurso social, para os países receptores. A economia ensina que eles diversificam e dinamizam o mercado de trabalho, sem aumentar as taxas de desemprego. A antropologia ensina que eles deflagram novos intercâmbios culturais, contribuindo para a criatividade geral da sociedade. Deriva do estereótipo a noção de que os haitianos que ingressam no Brasil formam uma massa homogênea de indivíduos sem qualificações profissionais. Como no caso da comunidade haitiana nos EUA, parcela significativa dos imigrantes que cruzaram nossas fronteiras é constituída por trabalhadores qualificados que abandonam um país entregue à desordem, à corrupção e à violência dos poderosos.
O Brasil não tem tradição de estabelecer distinções de origem entre os imigrantes. Cardozo criou um precedente vergonhoso - que, aliás, só beneficia os "coiotes". Felizmente, ao contrário do episódio dos pugilistas, ainda há tempo para corrigi-lo.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

A queda de braço LUIZ FELIPE LAMPREIA


O Globo
Teerã é uma enorme capital de mais de oito milhões de habitantes, enquadrada pelas montanhas Alborz e pelo deserto central iraniano. Os persas que nela habitam consideram-na orgulhosamente uma digna herdeira da sede do Império Aquemênida. Em seu apogeu no século quinto a.C., com Ciro o Grande, este domínio abrangia o Oriente Médio e todas as regiões ao redor do Mar Negro. O atual regime teocrático e militarista certamente tem a aspiração de recriar este império, ainda que com uma roupagem mais moderna. No rosto da maioria dos iranianos que vemos na televisão está estampada esta determinação fanática de afirmação nacional. Mas poucas nações modernas chegaram a um grau de isolamento comparável. Exceção feita à Rússia, o Irã é um país sem amigos relevantes no mundo. A queda de braço entre as potências ocidentais e o Irã é a questão global mais grave do momento. Do resultado, dependerá o futuro político do Oriente Médio, o controle do petróleo da Península Arábica e a segurança de Israel. Depois da retirada das tropas americanas do Iraque, Teerã ganhou uma vantagem estratégica no Oriente Médio, já que consolidou uma influência decisiva nesse país-chave de maioria igualmente xiita. Acoplada ao grande peso que tem junto ao Hezbollah no Líbano e ao Hamas em Gaza, tal vantagem permite ao Irã avançar mais adiante no xadrez geopolítico da região do que nunca. A marcha batida rumo à posse de armas nucleares sublinha a determinação tanto de dotar-se de condições de dissuasão contra ataques de inimigos, como a ambição de usar este poderoso argumento para influir mais no seu entorno, em particular no mundo árabe e no âmbito global do petróleo. Não é possível saber ao certo qual o grau de adiantamento do programa nuclear iraniano, embora ninguém com algum realismo duvide de que o objetivo é chegar à posse de armas de destruição de massa. O Irã pode estar muito perto ou não tanto dessa meta. As sanções podem estar funcionando para atrasar o programa mas podem não estar realmente abalando a determinação iraniana. As campanhas secretas para eliminar cientistas iranianos importantes podem ter afetado ou não seriamente as atividades de pesquisa e desenvolvimento. Mas nenhuma pessoa e, muito menos, nenhum governo ocidental pode deixar de encarar as piores hipóteses. Que acontecerá então? Está afastada a ideia de uma negociação com o Irã. Todas as vias diplomáticas foram exploradas em vão e o Irã furtou-se sempre a aceitar uma renúncia séria e verificável às suas instalações nucleares pela Agência Internacional de Viena. O Conselho de Segurança da ONU, os Estados Unidos e seus aliados europeus já atravessaram este Rubicão. Descarte-se igualmente, pelo menos no momento, a ideia, algumas vezes suscitada, de um ataque aéreo israelense e/ou americano. Seria uma operação de altíssimo custo político e militar, além de ter resultados incertos, que colocaria a região e o mundo inteiro em polvorosa, em abismo insondável. Alguns comentaristas, como Fareed Zakaria, da CNN, já afirmaram que um Irã atômico teria que ser objeto de coexistência, como a URSS no passado, pois apenas usaria as bombas como instrumento de dissuasão e influência. Este argumento ignora por completo, contudo, vários riscos potenciais gravíssimos — como a provável proliferação de armas nucleares na Arábia Saudita, na Turquia e no Egito, o fornecimento de materiais nucleares iranianos a países como a Venezuela ou a movimentos como Hezbollah e Hamas, entre outros. Por outro lado, não há como saber quanto tempo Israel e os Estados Unidos acompanharão, sem reagir militarmente, o desenrolar do programa atômico do Irã. Tampouco se conhece o real efeito das sanções já em ação ou o impacto dos recentes atos violentos de sabotagem sobre o programa nuclear iraniano. Todas estas questões vão ocupar o primeiro plano das atenções internacionais e constituem um dos temas mais importantes da agenda global dos próximos anos. Porém, o duelo estratégico em que o Irã decidiu empenhar-se não tem resultado previsível, hoje. O pior cenário, que infelizmente não é possível descartar, é assustador: petróleo a 250 dólares, convulsão no mundo árabe, fortes crises militares no Golfo Pérsico, riscos graves para Israel, colapso do regime de não proliferação multilateral. Isto não é ficção científica, vimos um filme parecido em 1973. Esperemos que, por desígnio, exasperação ou acidente, deste duelo não resulte uma confrontação que tenha efeitos tão graves para a paz e a economia mundiais. Se não podemos dizer que o tempo é da diplomacia, pelo menos resta esperar que a marcha da folia possa ser interrompida antes do abismo. 
LUIZ FELIPE LAMPREIA foi ministro das Relações Exteriores do governo Fernando Henrique Cardoso.

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