Entrevista:O Estado inteligente
- Índice atual:www.indicedeartigosetc.blogspot.com.br/
- INDICE ANTERIOR a Setembro 28, 2008
domingo, maio 29, 2011
Resistindo à chantagem Suely Caldas
O ESTADO DE S. PAULO
A aparição do ex-presidente Lula em Brasília, tentando impor à sua pupila a volta da chantagem política na relação com o Congresso, foi péssima para Dilma Rousseff. Um lastimável retrocesso que fortaleceu os políticos que só querem cargos, e deles tirar proveito, e enfraqueceu o trabalho de cinco meses da presidente de a eles reagir e tentar dar ao País uma gestão técnica, profissional, séria e qualificada. Ainda há tempo, Dilma. Responda a ele que a caneta é sua, a responsabilidade perante os brasileiros é sua e este momento da história é seu. Portanto, Lula, vá beber água de coco em São Bernardo, vá engordar seu patrimônio com palestras milionárias e deixe o governo em paz.
O governo Lula foi marcado por oito anos de escândalos financeiros, fraudes e muito desvio de dinheiro público praticados em estatais e repartições federais loteadas por políticos aliados incompetentes para administrar e espertos para dali extrair vantagens para seus partidos, amigos e parentes. Na época ministra, Dilma a tudo assistia de longe. Por não ter perfil (nem estômago) para enfrentar o jogo sujo da barganha e da chantagem política, ao ser transferida para a Casa Civil, pediu para tirar das funções da pasta a relação com parlamentares, que seu antecessor José Dirceu abraçou com tal gula e avidez, que acabou demitido e com direitos políticos cassados. É verdade que Dilma não tem o menor traquejo, habilidade nem paciência para lidar com parlamentares que nos anos 80 Lula chamava de "picaretas". Todo o tempo fugiu de encontros com partidos e fez do ministro Antonio Palocci seu interlocutor para negociar cargos no governo. Em cada lista de dez nomes indicados pelos partidos, ela aceitava discutir dois ou três, no máximo - aqueles com algum conhecimento técnico especializado. Mas resistia em dar a palavra final e não os atendia.
Dá para entender, mas o silêncio de Dilma não foi a melhor estratégia para abolir a prática que Lula deixou impregnada e que fez o País pagar muito caro a cada proposta que o governo levava à votação no Congresso. O pior da chantagem é seu poder multiplicador de preço e exigências. Uma vez aceita, o chantagista quer sempre mais. A inflexibilidade de Dilma funcionou em fevereiro, na aprovação do salário mínimo, com adesão unânime dos partidos aliados. Mas cinco meses de silenciosa rejeição a pedidos por cargos levaram os partidos a retaliarem no episódio da crise de confiança do ministro Palocci e na votação do Código Florestal na Câmara.
Há 15 dias o governo está parado, a pneumonia da presidente a enclausurou ainda mais e o principal ministro se escondeu, acusado de enriquecimento ilícito. Empacaram assuntos que exigem ação rápida do governo, como a licitação de aeroportos para a Copa, tocada por Palocci, que, tocaiado, não se reúne com empresas interessadas. Os dois reapareceram na quinta-feira por determinação do interventor Lula.
Transparência, comunicação direta, diálogo sincero e aberto com a população são qualidades e o cacife político de bons governantes. Ao contrário da mentira camuflada, do jogo sujo e da chantagem. E, se os políticos são ou não os "picaretas" de Lula, é bom lembrar que foram eleitos pelo voto popular. Portanto, a presidente e seu primeiro-ministro não lhes podem negar o diálogo.
Nos próximos dias Dilma e Palocci se reunirão com os partidos aliados. É a oportunidade para os dois se explicarem. Ele, se nada tem a temer, se não praticou tráfico de influência, venha a público, identifique as empresas, o trabalho que realizou e quanto ganhou de cada uma. Ela deveria ouvir o que os políticos têm a dizer e reafirmar que seu estilo de governar não aceita o jogo da barganha, da chantagem, do toma lá dá cá de seu antecessor. E que o sistema de representação democrático-partidária já está contemplado na composição do primeiro escalão. O segundo escalão precisa ter perfil técnico para dar eficiência à gestão e frear interferências políticas que resultem em corrupção, favorecimentos e desvios de dinheiro público.
Dilma precisa falar, reagir, provar ao País que não é um poste nem está ali esquentando cadeira para Lula.
Jornalista, é professora da PUC-Rio
Esse Palocci é um gênio CLÓVIS ROSSI
Mas aproveitei para tentar mostrar ao leitor como era a vida de um ex-trotskista, daqueles de gritar "abaixo o FMI", como ele próprio me contou, convertido, então como agora, à ortodoxia do Fundo.
Perguntei se Palocci entendia de economia. Respondeu que sabia apenas o macro. Aprendera, como prefeito de Ribeirão Preto, que "é preciso pagar as contas".
Vê-se agora que Palocci é um aluno excepcional: mesmo sem entender muito de economia, deu consultorias, que lhe permitem pagar todas as contas e ainda sobrar renda, que "chamam a atenção", como diz um raro petista não contaminado pelo total cinismo, caso do governador Jaques Wagner.
Chama mais a atenção porque, apenas três anos antes de dar início à exuberante carreira de consultor, Palocci recebia consultoria, em vez de prestá-la.
Está lá, no texto publicado em 2003, uma lista parcial de economistas nacionais e estrangeiros que o ministro dizia consultar: de Delfim Netto a Maria da Conceição Tavares, de Joseph Stiglitz a Jeffrey Sachs, todos grifes de porte no ramo, embora de etiquetas diferentes, até opostas.
Tudo somado, acho que só cabem duas linhas de investigação para apurar a evolução patrimonial que tanto chamou a atenção de Jaques Wagner (e das torcidas do Corinthians e do Flamengo em peso):
1 - A neurociência ou qualquer outra ciência prova que o cérebro de Palocci é uma esponja extraordinária, capaz de absorver conhecimentos em quantidade, qualidade e velocidade inéditas no planeta.
2 - É tráfico de influência mesmo, tentado pelas empresas contratantes ou efetivamente levado a cabo.
Jaques Wagner, colega que foi de Palocci no Ministério Lula, não parece acreditar na hipótese 1.
Educação para o debate SERGIO FAUSTO
Disseram que o livro Por uma Vida Melhor estaria autorizando o desrespeito generalizado às regras da concordância e abolindo a diferença entre o certo e o errado no emprego da língua portuguesa. Tudo isso com o beneplácito do MEC.
A celeuma ganhou os jornais nas últimas semanas. Foi motivada por um trecho no qual se afirma que o aluno pode dizer "os livro". Parece a senha para um vale-tudo na utilização da língua. Não é, mas assim foi lido.
Não conheço a autora nem sou educador, embora vínculos de família me tenham feito conviver com educadoras desde sempre. Escolhi comentar o caso não apenas porque se refere a um tema importante, mas também porque exemplifica um fenômeno frequente no debate público. Tão frequente quanto perigoso.
O procedimento consiste na desqualificação de ideias sem o mínimo esforço prévio de compreendê-las. Funciona assim: diante de mero indício de convicções contrárias às minhas, detectados em leitura de viés ou simples ouvir dizer, passo ao ataque para desmoralizar o argumento em questão e os seus autores. É a técnica de atirar primeiro e perguntar depois. A vítima é a qualidade do debate público.
Existem expressões, e mesmo palavras, que têm o condão de desencadear essa reação de ataque reflexo. Há setores da opinião pública para os quais a simples menção à privatização é motivo para levar a mão ao coldre. No caso em pauta, o gatilho da celeuma foi a expressão "preconceito linguístico" para qualificar a atitude de quem estigmatiza o "falar errado" da linguagem popular. Houve quem aventasse a hipótese de que o livro visasse à justificação oficial dos erros gramaticais do ex-presidente Lula. Um despropósito.
Dei-me ao trabalho de ler o capítulo de onde foram extraídas as "provas" do suposto crime contra a língua portuguesa. Chama-se Escrever é diferente de falar, título que já antecipa uma preocupação com o bom emprego da língua no registro formal, típico da escrita. São algumas páginas. Nada que um leitor treinado não possa enfrentar em cerca de 10 ou 15 minutos de leitura atenta. Se a fizer sem prevenção, constatará que o livro não aceita a sobreposição da linguagem oral sobre a linguagem escrita em qualquer circunstância, como chegou a ser escrito.
Ao contrário, no capítulo em questão, a autora busca justamente marcar a diferença entre a norma culta, indispensável na escrita formal, e as variantes populares da língua, admissíveis na linguagem oral. Não se exime ela do ensino das regras. Mas, em vez de recitá-las, vale-se da técnica da reescrita. Há uma seção particularmente interessante sobre o uso da pontuação. Vale a pena citar uma passagem: "(...) uma cuidadosa divisão em períodos é decisiva para a clareza dos textos escritos. A língua oral conta com gestos, expressões, entonação de voz, enquanto a língua escrita precisa contar com outros elementos. A pontuação é um deles".
Noves fora um certo ranço ideológico, aqui e ali, o livro é de bom nível. Trabalho de gente séria, que merece crédito. E um pouco mais de respeito. Fica o testemunho: a ONG responsável pela obra tem entre seus dirigentes, se a memória não me trai, profissionais responsáveis, no passado, por um dos melhores cursos de Educação para Jovens e Adultos da cidade de São Paulo, o supletivo do Colégio Santa Cruz.
É justamente a esse público que o livro se dirige. Ele é formado por alunos que estão travando contato com a norma culta da língua mais tarde em sua vida. Nesse contato tardio, frequentemente se envergonham do seu falar. Emudecem. Reconhecer a legitimidade do repertório linguístico que carregam é condição para que possam aprender. Não se trata de proteger esse repertório das convenções da norma culta, para supostamente preservar a autenticidade da linguagem popular. Isso, sim, seria celebração da ignorância. E populismo. O livro não ingressa nesse terreno pantanoso.
O que está dito acima se aplica também às crianças quando iniciam o processo de alfabetização. Sabe-se que o primeiro contato com a norma culta da língua é crucial para o desempenho futuro do aluno como leitor e escritor. Sabe-se igualmente que a absorção da norma culta é um longo processo. O maior risco é o de bloqueá-lo logo ao início, marcando com o estigma do fracasso escolar os primeiros passos do aprendizado. No início dos anos 1980, mais de 60% dos alunos eram reprovados na primeira série do ensino fundamental, o que se refletia em altas taxas de evasão escolar. Embatucavam no contato com as primeiras letras (e as primeiras operações aritméticas). Melhoramos desde então? Sim, as taxas de repetência, defasagem idade/série e evasão escolar diminuíram. Parte da melhora se deve à adoção da progressão continuada, outra presa fácil da distorção deliberada, pois passível de ser confundida com a aprovação automática.
Não aprendemos, ainda, porém, como assegurar a qualidade desejada no aprendizado da língua. Mas há sinais de vida. O desempenho dos alunos em Português vem melhorando, em especial no primeiro ciclo do ensino fundamental, conforme indicam avaliações nacionais e internacionais, ainda que mais lentamente do que seria desejável e necessário. A verdade é que o desafio é enorme: não faz muitos anos que as portas da educação fundamental se abriram para todos e a escola passou a ter de ensinar ao "filho do pobre" - dezenas de milhões de crianças - a norma culta da língua, que seus pais não dominam.
Há muita discussão e aprendizado a serem feitos para vencer esse desafio. É ótimo que todos queiram participar. Mas é preciso educar-se para o debate. Isso implica desde logo dar-se ao trabalho de conhecer o tema em pauta e ter a disposição de entender o ponto de vista alheio antes de desqualificá-lo. Sem querer ser pedante, é o que dizia Voltaire, séculos atrás: "Aprendi a respeitar as ideias alheias, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar". Todo mundo ganha com isso.
O criador contra a criatura JANIO DE FREITAS
Brasília emitiu uma demonstração de quanto é extensa a insatisfação com Dilma no Congresso
O CASO PALOCCI toma rumo apropriado, com os dois pedidos de explicação e de documentação que a Procuradoria da República enviou ao ministro, mas o conceito e a natureza da Presidência de Dilma Rousseff foram levados, não diretamente por seu multimilionário auxiliar, ao risco de perder o seu rumo.
Pior: os riscos da ação presidencial, já parcialmente atingida, incidem sobre a sua reformadora contribuição para reduzir as práticas de estilo mafioso que proliferam entre congressistas, ocupam o espaço das funções parlamentares e vão inviabilizando a democracia política.
Durante toda a semana que passou, Brasília emitiu uma demonstração eloquente de quanto é extensa a insatisfação com Dilma Rousseff na Câmara e no Senado. Por palavras e por atos, nem o PT a poupou de queixas irritadas e de represálias, ou ameaças de, em votações. Não sem motivo, considerada a maneira atual de conduzir-se como parlamentar -com as exceções realmente honrosas.
Se por uma face eram positivas, por outra as adesões feitas ou ameaçadas de "aliados" do governo à convocação de Palocci, senão mesmo de CPI, foram apresentadas com toda a clareza. São formas de exigir atendimento da Casa Civil às pretensões de parlamentares e de abertura do gabinete presidencial à frequência dos deputados e senadores da "base aliada".
Vários líderes de bancada, a começar do PMDB, comunicaram que "votariam o projeto do Código Florestal e depois mais nada", até que atendidos. Para demonstrar sua disposição, aprovaram a emenda, chamada por Dilma de "uma vergonha", que premia os grandes proprietários de terra onde se fizeram e se fazem os desmatamentos gigantescos.
A ampliação da revolta e das represálias e ameaças deve-se a um motivo simples: as nomeações e outros favorecimentos pretendidos pela voracidade dos parlamentares. Dilma, de fato, fechou as portas do Planalto tanto quanto possível.
As nomeações, se saem, tardam. Só uma ou outra é para o cargo pretendido pelo patrocinador do nomeado, e a troca nunca é para melhor. Como complemento, Dilma recusa-se a nomeações políticas para funções cuja eficiência requer formação específica -uma providência fundamental para recuperar alguns nacos da eficácia do Estado.
Acesso restrito: palácio do Executivo não é lugar de deputado e senador. Cujas obrigações estão no Legislativo ao qual pouco comparecem, e cada vez menos (os dois dias e meio de presença razoável na Câmara e no Senado já foram reduzidos, pelos empossados neste ano, a dois, no máximo).
Para questões próprias do parlamentar, há os ofícios e outros modos formais de comunicação com o Executivo. Deputado e senador sérios vão a palácio do Executivo quando solicitados. Afora isso, começa o motivo para suspeitas. Infalíveis, com maior probabilidade.
Senadores e deputados bem que podiam notar a equivalência da troca de apoio por favorecimentos, que são ganhos, à venda de segurança do governo nas votações parlamentares. E tal venda de segurança à que fazem as milícias e bandos nas comunidades. Ou à venda de segurança consagrada em Chicago-1920, Nova York e Miami. As modalidades variam com as circunstâncias, mas a prática e sua finalidade são equivalentes: o atendimento à exigência ou a represália.
Se o deputado ou senador vota em tal ou em qual sentido conforme o que recebe do governo, está traindo a representatividade que os eleitores lhe entregaram. O interesse do seu eleitorado está em um ou está em outro voto, e não em qualquer deles conforme a vantagem para o próprio parlamentar.
Mais grave: acima do interesse da parcela de eleitores, está o interesse do país. Única razão legítima, honesta e justificadora da existência do Congresso, de cada deputado e cada senador. Aquele que, por qualquer motivo, não se enquadra nesse princípio, está fazendo ao país o mesmo que faz ao seu eleitorado.
Lula foi a Brasília "para a defesa de Palocci". Fez um almoço político com os líderes de bancadas no Senado. Ouviu as acusações a Dilma. E explicou: "Ela não tem experiência nisso [convívio com os parlamentares], vou dar uns conselhos a ela". A narrativa é de um dos presentes.
Deu os conselhos, sim. E Dilma recebeu os primeiros parlamentares, já tem encontros coletivos marcados para os próximos dias, já sabe o que vai ser tratado e a resposta que lhe foi aconselhada. Produto daquela experiência de que fomos testemunhas por 8 anos. Ou, mais correto, por 16.
Dilma Rousseff põe na mesa, não se sabe se como trunfo ou como pagamento, o conceito e a natureza do governo Dilma Rousseff.
Verdade e preconceito FERREIRA GULLAR
Tenho comentado aqui o fato de que, para alguns linguistas, nunca há erro no uso do idioma: tanto faz dizer "problema" como "pobrema" que está certo. Confesso que, na minha modesta condição de escritor e jornalista, surpreendo-me, eu que, ao suspeitar que poderia me tornar poeta, passei dois anos só lendo gramáticas. E sabem por quê? Porque acreditava que escritor não pode escrever errado.
E agora descubro que ninguém escreve errado nunca, pois todo modo de escrever e falar é correto! Perdi meu tempo? Mas alguma coisa em mim se nega a concordar com os linguistas: se em todo campo do conhecimento e da ação humana se cometem erros, por que só no uso da língua não? É difícil de engolir.
Essa questão veio de novo à baila com a notícia de um livro, adotado pelo Ministério da Educação e distribuído às escolas, em que a autora ensina que dizer ´os livro´ está correto. Estabeleceu-se uma discussão pública do assunto, ficando claro que, fora os linguistas, ninguém aceita que falar errado esteja certo.
Mas não é tão simples assim. Falar não é o mesmo que escrever e, por isso, falando, muita vez cometemos erros que, ao escrever, não cometemos. E às vezes usamos expressões deliberadamente "erradas" ou para fazer graça ou por ironia. Mas, em tudo isso, está implícito que há um modo correto de dizer as coisas, pois a língua tem normas.
O leitor já deve ter ouvido falar em ´entropia´, uma lei da física que constata a tendência dos sistemas físicos para a desordem. E essa tendência parece presente em todos os sistemas, inclusive nos idiomas, que são também sistemas.
Devemos observar que as línguas, como organismos vivos que são, mudam, transformam-se, como se pode verificar comparando textos escritos em épocas diferentes. Há ainda as variações do falar regional, que guarda inevitáveis peculiaridades e constituem riqueza do idioma.
Mas isso não é a mesma coisa que entropia. Já violar as normas gramaticais é, sim, caminhar para a desordem. Se isso é natural e inevitável, é também natural o esforço para manter a ordem linguística, que não foi inventada pelos gramáticos, mas apenas formulada e sistematizada por eles: nasceu naturalmente porque, sem ela, seria impossível as pessoas se entenderem.
Na minha condição de ´especialista em ideias gerais´ (Otto Lara Resende), verifico que, atualmente, não só na linguística, tende-se a admitir que tudo está certo e, se alguém discorda dessa generosa abertura, passa a ser tido como superado e preconceituoso.
Agora mesmo, durante essa discussão em torno do tal livro, os defensores da tese linguística afirmaram que quem dela discordava era por preconceito.
Um dos secretários do ministro da Educação declarou que aquele ministério não se julgava ´dono da verdade´ e que, por isso mesmo, não poderia impedir que o livro fosse comprado e distribuído às escolas.
Uma declaração surpreendente, já que ninguém estava pedindo ao ministro que afirmasse ou negasse a existência de Deus e, sim, tão somente, que decidisse sobre uma questão pertinente à sua função ministerial.
Não é ele o ministro da Educação? Não é ele responsável pelo rumo que se imprima à educação pública no país? Se isso não é de sua competência, é de quem? De fato, o que estava por trás daquela afirmação do secretário não era bem isso e, sim que a crítica ao livro em discussão não tinha nenhum fundamento: era mero preconceito. Ou seja, simples pretensão de quem se julga dono da verdade que, como se sabe, não existe...
Esse relativismo, bastante conveniente quando se quer fugir à responsabilidade, tornou-se a maneira mais fácil de escapar à discussão dos problemas.
Certamente, não se trata de afirmar que as normas e princípios que regem o idioma ou a vida social estejam acima de qualquer crítica, mas, pelo contrário, devem ser questionados e discutidos. Considerar que todo e qualquer reparo a este ou aquele princípio é mero preconceito, isso sim, é pretender que há verdades intocáveis.
Não li o tal livro, não quero julgá-lo a priori. Creio, porém, que quem fala errado vai à escola para aprender a falar certo mas, se para o professor o errado está certo, não há o que aprender.
Turbulência no voo MIRIAM LEITÃO
Na política os últimos dias têm sido desastrosos para o governo da presidente Dilma Rousseff. O enfraquecimento do seu ministro mais forte, a intervenção direta do ex-presidente Lula, a falta de clareza na comunicação de temas delicados que vão do aumento patrimonial do ministro Palocci à saúde da presidente, tudo está diminuindo a musculatura do governo.
Argumentos como o que á presidente Dilma usou, de culpar a oposição por estar querendo um suposto terceiro turno, não têm valor significativo. Convence apenas os convencidos, é um discurso para dentro. A opinião pública ainda aguarda que o ministro Antonio Palocci saia do seu estranho e prolongado mutismo a respeito das dúvidas levantadas. É difícil entender, por mais boa vontade que se tenha com o ministro, a coincidência de datas. Exatamente no momento em que ele teve mais demanda no seu trabalho de coordenação da campanha presidencial e da sua própria campanha, e na preparação do novo governo, Palocci teve mais faturamento na consultoria.
Ele está preparando argumentos para respostas institucionais ao Ministério Público. Isso é relevante, mas não suficiente. Através do Congresso ou da imprensa, Palocci tem de sair do seu casulo e esgotar as dúvidas. Não há outro caminho a não ser esse: explicação clara e convincente.
A entrada excessivamente desenvolta do ex-presidente Lula em cena foi um espanto. Todos se comportaram como se ele fosse ainda o chefe da presidente e o dono da bola e do mandato. Distribuiu ordens, mudou estratégias, deu broncas em ministros e foi ouvido e atendido. Em 24 horas de atuação extravagante - e de sinais de subserviência da chefe de governo - Lula conseguiu trazer de volta o maior temor levantado durante a campanha presidencial: que Dilma fosse ser apenas a segunda pessoa em seu próprio mandato. Tudo virou uma aberração institucional.
Na votação na Câmara do novo Código Florestal, ficou explícita a fraqueza do governo. O mandato começou há cinco meses com cálculos dos analistas políticos de que ela teria uma sólida maioria - até maior do que a do governo anterior - e teve na terça-feira uma derrota desmoralizante. Os grandes perdedores foram os que combateram as mudanças no Código, sejam ambientalistas, cientistas, técnicos, partidos menores de oposição; mas o processo de votação revelou um problema político também. Foi a demonstração de que a base se partiu, a grande maioria dos governistas votou contra a orientação e os sinais enviados pelo governo. Faltou coordenação e sobrou ambiguidade em relação ao tema.
O assassinato dos ambientalistas, as notícias de aumento do desmatamento e os sinais dados pela Câmara montaram um quadro de assustador retrocesso na área ambiental, o pior possível para um país que se prepara para sediar uma reunião de cúpula mundial do clima no ano que vem.
Houve uma sucessão enorme de problemas nas obras do PAC desde que o governo começou, mas no caso da Usina de Belo Monte está em curso um fenômeno estranho: o consórcio que ganhou a concorrência está se desfazendo aos poucos. Primeiro saiu a Bertin que, a propósito, tem um problema por semana com seus credores. "O Estado de S. Paulo" publicou semana passada que estão para sair do consórcio a Galvão Engenharia, Serveng, Cetenco, Contern, Mendes Junior e J.Malucelli. O consórcio montado no Planalto, por interferência direta do governo passado, está se desmontando como um castelo de cartas.
Essa debandada mostra que a entrada da Vale não foi por qualquer avaliação sólida da viabilidade econômico-financeira do empreendimento, mas a primeira demonstração de que a empresa segue ordens do Planalto. Mas a Vale não foi o suficiente. Agora, outros terão de entrar para salvar o consórcio.
O empreendimento tem problemas de engenharia, de viabilidade financeira, de custo fiscal, de conflitos diplomáticos, de segurança de produção de energia, ambiental, social e agora também é um problema empresarial. Só a teimosia explica por que não é postergado ou suspenso. Belo Monte é um mau negócio e um alto risco, qualquer que seja o aspecto pelo qual se analise a obra. E é um dos dois projetos que a presidente Dilma pessoalmente defende. O outro é o trem-bala, também uma incógnita do ponto de vista de custo para os cofres públicos.
Com projetos de infraestrutura duvidosos, uma base parlamentar rebelada, o ministro mais forte acuado, com dúvidas sobre sua saúde e com o ex-presidente dando demonstração de que quer tutelar sua sucessora, a presidente Dilma precisa urgentemente salvar seu próprio governo.
Primeiro, ex-presidente é como o nome diz, um ex. Ela é a dona do mandato, da cadeira, da caneta. De alguma forma isso tem de ficar mais explícito. Uma semana mais dessa exibição de "quem manda aqui sou eu" do presidente e nada mais sobrará do governo Dilma. Segundo, o ministro Palocci tem de sair do esconderijo onde se escondeu e dar as explicações devidas. Terceiro, respostas sobre a saúde da presidente têm de ser dadas com clareza, porque um dos ônus de ter o cargo mais importante da República é o de perder a privacidade em alguns temas, como por exemplo, a saúde.
Em relação ao Código Florestal no Senado, o melhor a fazer é encontrar um relator que consiga trabalhar pela conciliação; não pode ser um senador que já comece dizendo que concorda inteiramente com o texto aprovado na Câmara. Isso deixará à presidente o ônus político do veto.
Política e democracia DORA KRAMER
Dilma Rousseff seria a última pessoa autorizada a tratar a atividade política com menosprezo, produto que é da dedicação exclusiva de seu antecessor, mentor e agora também tutor, à política no exercício da Presidência da República.
No entanto, a presidente repete neste aspecto Fernando Collor, que assumiu a chefia da Nação, em 1990, com ares imperiais e assim se manteve até que o Congresso lhe mostrasse com quantos paus se faz o equilíbrio entre Poderes.
O distanciamento a que se impõe a atual presidente é o mesmo imposto pelo ex. A motivação objetiva pode até ser diferente, mas há um dado subjetivo que os aproxima: ambos carecem de substância no ramo e chegaram à Presidência por razões alheias a uma trajetória pessoal consistente.
Ele por uma obra de ficção publicitária muito bem engendrada, ela por unção do então presidente Luiz Inácio da Silva e sua inesgotável capacidade de mirar os fins sem se importar com os meios.
Dilma Rousseff está apenas no começo de seus quatro (ou oito) anos de mandato e já precisou da interferência externa para lidar com a evidência de que a fidelidade de uma base parlamentar ampla e diversificada como a que Lula lhe legou requer manutenção.
Não apenas com verbas e cargos. A coisa não é tão fácil assim. A presidente, seus auxiliares e quase a totalidade do País têm todo o direito de considerar que no Congresso só há vendilhões.
Ocorre que essa, além de ser uma visão distorcida da realidade, desconsidera o fato de que mesmo os vendilhões não necessariamente têm de si essa mesma impressão.
Dilma pode achar que aquela maioria está ali para servi-la ao custo da submissão à majestade detentora do poder de lhes distribuir benesses. Mas os parlamentares também acham que seus votos lhe conferem outros direitos.
Querem acesso ao poder, querem prestígio, querem ser levados em conta. Submetem-se, mas exigem em contrapartida não ser tratados como meros carimbadores das vontades do Palácio do Planalto.
Por mais que o comportamento da maioria leve os menos íntimos com o ofício a concluir que o peso da Presidência, ainda mais quando exercida com distanciamento e uma boa dose de atitude de intimidação, seja o suficiente.
Não é. Há sutilezas envolvidas no jogo bruto do poder. E até por ser violento requer alguma sofisticação estratégica. A isso se pode chamar genericamente de fazer política.
O primeiro dado é levar em consideração o outro. No caso, o Parlamento. O governo da presidente Dilma não o faz quando põe na articulação política um deputado de inépcia reconhecida, sinalizando que para ela a área é um pormenor.
Concentra poder nas mãos de um só ministro que, por excesso de atribuições e soberba decorrente da posição, não faz a interlocução com o Congresso como deveria.
Ignora a política e acredita que mandando seus líderes transmitirem recados sobre o quanto está irritada com esta ou aquela conduta obterá automaticamente obediência.
Mesmo depois da intervenção de Lula, Dilma não dá mostras de boa vontade em aprender. Defendeu Palocci dizendo que a oposição "faz política" como se fosse atividade menor, quando é na política que se movem as democracias. Em toda e qualquer decisão ela está presente.
Por orientação de Lula, a presidente marcou encontros com parlamentares de sua base, mas já foi logo avisando ao PT que não sabe quando e se haveria novas reuniões.
Na votação do Código Florestal na Câmara supôs que bastasse baixar uma ordem para vê-la cumprida. A ameaça de demitir os ministros do PMDB foi ato de quem não entendeu da missa a metade.
Agora, quando o Senado se prepara para examinar alterações no rito das medidas provisórias simplesmente manda dizer que, com ela, "não tem acordo".
Como, se a política é a arte de compor interesses? Algo que se aprende fazendo.
A respeito disso, o compositor Gutemberg Guarabyra faz um pertinente resumo: "Um verdadeiro presidente é formado, educado, aperfeiçoado no exercício da atividade política. Lula foi um verdadeiro presidente. FHC idem. Dilma está mais para interventora, delegada para assumir o governo provisoriamente".
Um amigo leve DANUZA LEÃO
Não espere considerações sobre a complexidade dos sentimentos, mas ninguém será melhor companhia
É SEMPRE ASSIM: com tanto para fazer e sem tempo para nada, a gente acaba negligenciando um monte de coisas, entre elas nossos afetos.
E como os sentimentos não sobrevivem sem uma certa atenção, um dia se começa a achar que o coração não consegue -e nunca mais vai conseguir- gostar, ou ao menos sofrer por alguém.
Mas o tempo passa, aquele amigo que a gente via o tempo todo viaja e um belo dia você sente saudades dele. Preste atenção: esse fato é mais merecedor de uma comemoração do que qualquer data querida. Ter saudades de um amigo, há quanto tempo isso não acontecia? Ah, que coisa boa.
Uma simples saudade faz com que você se sinta viva, mesmo que sejam saudades apenas de um amigo -como se um amigo pudesse ser chamado de "apenas". Mas tantas vezes você amou apaixonadamente, e quando ele fez uma viagem sentiu um alívio, até para descansar de tanta paixão e poder se encher de cremes, sem ele por perto para reclamar? E tem melhor do que de vez em quando ter aquela cama enorme só para você, e até dormir com a televisão ligada?
Ter um amigo é coisa muito boa, e sendo um que não te patrulha, não te inveja, não te analisa nem discute a relação, é bom demais -e raro. Um amigo tão bom que te aceita do jeito que você é, que não faz perguntas indiscretas, que te entende e está por ali sem ser, jamais, invasivo. Você sabe de certas particularidades dele, ele das suas, mas delas não falam, só quando é necessário. E com pouca intimidade.
O excesso de intimidade pode ser fatal, mesmo entre mãe e filho, marido e mulher. A intimidade física não é nada, perto da dos pensamentos e sentimentos. Pode ser pior do que ouvir a pergunta "em que você está pensando?". Pode sim: é quando alguém tenta analisar a razão pela qual você disse ou fez determinada coisa num determinado dia, pretendendo, assim, conhecer você melhor do que você mesma se conhece.
Um distanciamento saudável é indispensável às boas relações humanas.
Qual a primeira qualidade que deve ter um amigo? Bem, além das clássicas, como lealdade, fidelidade, discrição sobre as intimidades que ouviu nas horas do aperto, disponibilidade para escutar as histórias, bom humor, e mais o quê? Leveza. Ter um amigo leve é uma benção dos céus.
Não espere dele considerações sobre a vida e a complexidade dos sentimentos humanos, mas ninguém será melhor companhia para jantar, viajar, conviver, do que um amigo leve. Já pensou, passar três dias seguidos com um amigo profundo? Se estiverem tomando banho de mar, ele pode se lembrar do tempo em que era criança, falar da relação que tinha com a mãe e o pai, e daí para cair no divã é um pulo; eles gostam de falar como são tolos os banqueiros e políticos, que só pensam em dinheiro e poder e não compreendem que a vida real etc. etc., quanta profundidade.
Com essa mania, quando estão numa rede em frente à praia, comendo um camarãozinho frito e tomando uma cerveja estupidamente gelada, se esquecem de que nessa hora o bom é não pensar em nada.
É isso que faz um amigo leve; ele não diz nada, apenas usufrui a vida, e quem tiver a sorte de estar perto dele vai ter momentos de grande felicidade - ou pelo menos quase isso.
Com um amigo assim, até a vida fica mais leve.
Furando as teias mafiosas GAUDÊNCIO TORQUATO
O chiste tem algum fundamento. Cabral inaugurou por estas bandas o toma lá dá cá. Vejam. Dois dias depois do Descobrimento do Brasil, em 24 de abril de 1500, o capitão-mor recebeu os tupinambás em sua caravela. Para causar forte impressão, pôs a vestimenta mais exuberante. Desconfiados, os índios provaram a água e o vinho que lhes foram oferecidos e cuspiram. Não aprovaram o velho líquido barrento, tirado do alforje, nem a bebida com gosto de vinagre. Só tinham olhos para o brilho das roupas e o imenso chapéu de abas para o céu, que dava ao descobridor a feição de deus das matas e das águas. O cacique e seus índios desceram da nau, sem arcos e flechas, mansos e felizes por ganharem os primeiros mimos na simbólica troca que plantou a árvore do fisiologismo em terras tupiniquins. Foi assim que os indígenas, cheios de bugigangas, e o cacique, com um pitoresco chapéu, abriram as páginas de nossa História de cinco séculos, em que tramoias mesclam coisas do Estado com negócios privados. Há poucas dúvidas de que a herança ibérica, carregando a tiracolo o patrimonialismo, tenha salpicado os ciclos históricos com as sementes da corrupção, particularmente na seara das teias criminosas que encobrem maquinações de servidores públicos, mandatários, grupos e indivíduos, todos girando na órbita do Estado.
Dito isto, vamos à assertiva que ganha força neste momento em que mais um episódio assoma no painel da perplexidade nacional: não há governo que não abrigue seu escândalo particular. Nos episódios mais recentes - consultoria do ministro Antônio Palocci com suspeita de favorecimento a terceiros e denúncias de peculato envolvendo servidores da empresa de saneamento de Campinas - o imbróglio gira em torno da linha que estabelece os limites entre legalidade e ilegalidade, a começar pela possibilidade de um detentor de mandato popular realizar serviços de consultoria. Pois bem, legalmente isso é possível. Na atual legislatura, alguns deputados se apresentam como consultores. Mas o servidor público, vale frisar, incluindo o mandatário, deve regrar-se por princípios de probidade e moralidade. É proibido usar o cargo ou a posição para obter vantagens indevidas (sejam econômicas ou até de natureza valorativa/sentimental). O detentor de mandato agrega, na escala do poder, condição mais elevada que a média dos cidadãos, ou seja, tem mais influência nas frentes onde presta, eventualmente, seus serviços. Donde se aduz que a consultoria desenvolvida por um parlamentar obtém, ao menos teoricamente, maior eficácia que a de outras pessoas sem poder de representação.
Agora, não há impedimento a que o mandatário se dedique às demandas de suas bases eleitorais e atenda aos pedidos de grupos que representa. A proibição é de que esse apoio redunde em tráfico de influência, significando o uso do poder para favorecer junto ao Estado os negócios de patrocinadores. Neste ponto, emerge a questão do lobby. Apreciável parcela da representação exerce o lobby, seja pela defesa de interesses de grupos, seja no apoio à causas coletivas patrocinadas por setores da sociedade. Veja-se o Código Florestal, cuja aprovação só foi possível pela força da bancada ruralista. Da mesma forma, a legalização da relação estável de pessoas do mesmo sexo passou pelo corredor de grupos organizados, que acabaram fazendo pressão sobre a Suprema Corte. Há algo de errado nisso? Não. Para deixar as coisas mais transparentes, o sistema de pressão e contrapressão deveria ser escudado por uma norma. A inexistência de legislação sobre lobby abre cortinas de fumaça. Sua prática condiz com o modelo contemporâneo de democracia, cuja configuração contempla núcleos e facções da sociedade.
Trata-se de uma cultura consolidada nos EUA, país cuja fundação se inspirou nos princípios pluralistas dos pais fundadores James Madison, John Jay e Alexander Hamilton. A tradição liberal e de organicidade - bem captada por Alexis de Tocqueville - sublinha a conquista permanente de reivindicações pela sociedade civil. A imbricação entre política e interesses grupais e coletivos tem-se acentuado na moldura das nações. Nos EUA, metade dos deputados e senadores que deixam as Casas parlamentares se torna lobista. De crachá no peito, eles agem dentro da lei, representando tanto os mais claros quanto os mais difusos interesses da sociedade. Os gastos por empresas e grupos de pressão para defender suas causas atingem, hoje, cerca de US$ 3 bilhões por ano. E as agências de lobby em Washington chegam a 35 mil. Já nos países europeus há distinção entre lobbies profissionais - e interesses financeiros - e lobbies da cidadania, sob patrocínio de ONGs e associações. Os avanços nessa área ocorrem ainda na esteira de conceitos como "relações institucionais" e "negócios públicos". A exigência é de que trabalhem com transparência e ética.
Por aqui, como se sabe, o lobby é mascarado. Existe na prática, mas dorme nas gavetas do Congresso, sob o desprezo de alguns que o consideram incompatível com nossa realidade. Visão capenga. Basta contemplar a proliferação de entidades que fazem intermediação social. Portanto, já temos uma base formada. E, por falta da lei, vive-se o paradoxo, caracterizado pela ausência de contrapesos no sistema de pressão. Alguns setores contam com lobbies poderosos em detrimento de outros que ficam à margem do processo. Como pano de fundo, temos uma democracia representativa vivendo uma crise crônica. Partidos mais parecem massas amorfas. As bancadas corporativas, essas, sim, ganham projeção. As doutrinas são nuvens difusas dentro de discursos homogêneos. As bases cedem lugar aos setores organizados. O palco institucional, nessa configuração, sugere o ingresso de novos atores. Sob um lobby legalizado, transparente, ético, imbróglios como o do ministro Palocci deixariam de causar tanto estardalhaço. E a planilha de episódios farsescos não seria tão densa.
Observações de um usuário JOÃO UBALDO RIBEIRO
A língua inglesa nunca teve academias para formular gramáticas oficiais e certamente seria afogado no Tâmisa ou no Hudson o primeiro que se atrevesse a tentar impor normas de linguagem estabelecidas pelo governo. Sua ortografia, que rejeita acentos e outros sinais diacríticos, é um caos tão medonho que Bernard Shaw deixou um legado para quem a simplificasse e lhe emprestasse alguma lógica apreensível racionalmente, legado esse que nunca foi reclamado por ninguém e certamente nunca será, apesar de algumas tentativas patéticas aqui e ali. Ingleses e americanos dispõem de excelentes manuais do uso da língua, baseados na escrita dos bons escritores e jornalistas - e, quando um americano quer esclarecer alguma dúvida gramatical ou de estilo, usa os manuais de redação de seus melhores jornais.
A segregação racial nos Estados Unidos produziu um abismo linguístico entre a língua falada pelos negros e a usada pelos brancos. Durante muito tempo, a língua dos negros foi vista como uma forma corrompida ou degenerada da norma culta do inglês americano. Mas já faz tempo que essa visão subjetiva e etnocêntrica foi substituída e o inglês falado pelos negros passou a ser visto pela ciência linguística como "black English", uma língua perfeitamente estruturada, com morfologia e sintaxes próprias, com sua gramática e sua funcionalidade autônoma, não mais como inglês de quinta categoria. E essa visão não foi acatada "de favor" ou para fazer demagogia com a coletividade negra, mas porque se tornou inescapável a existência de uma língua falada por ela, eficaz na comunicação de informação e emoção e que prescindia, sem que isso fizesse falta, de determinados recursos do inglês dominante.
Todos nós, com maior ou menor habilidade, falamos várias línguas, ou dialetos, dentro da, digamos, língua-mãe. Falamos língua de criança, língua chula, língua de solenidade. Podemos não chegar a falar todas as muitas línguas à disposição, mas geralmente as entendemos, como, por exemplo, quando ouvimos um caipira. Essas línguas, em padrões de variedade quase infinita, são todas legítimas, não são "erradas", pois, em rigor, nenhuma língua que funcione realmente como tal é "errada". E, muitas vezes, ao falarmos "certo", estamos na realidade falando inadequadamente, como um orador que, num comício no Mercado de Itaparica, se esbaldasse em proparoxítonas, polissílabos e mesóclises. Eu mesmo falo itapariquês de Mercado razoavelmente bem e alguns entre vocês, se me ouvissem lá, talvez tivessem dificuldade em entender algo que eu dissesse, por exemplo, a meu amigo Xepa.
Cientificamente, a neutralidade quanto a línguas, dialetos ou usos subsiste. Mas não socialmente, e é isso o que me parece ainda estar sendo discutido em torno da propalada aceitação, pelo MEC, de erros de português. "Erro de português" é uma expressão que desagrada o linguista, porque ele não vê o fenômeno sob essa ótica. No entanto, é assim que o enxerga o público, mesmo o analfabeto, que aprende pelo ouvido a distinguir o certo do errado. Isto porque sempre se entendeu no Brasil que ensinar português é ensinar a norma culta, que, durante muito tempo, foi até mesmo ditada pelo usos de Portugal.
Quer se queira quer não - e há séculos de formação por trás disso - a norma culta é tida como a correta e a única que representa verdadeiramente nossa língua. Sua violação é tolerada em manifestações literárias e artísticas de modo geral - e, assim mesmo, funciona mais quando o intuito é obter efeitos cômicos, ou "folclóricos", com essa violação. As pessoas costumam observar a adesão à norma culta no que ouvem e leem. Falar e escrever de acordo com ela é socialmente muito valorizado e resulta num poder de que a maioria não se sente boa detentora e ao qual todos aspiram. Não é questão linguística, é questão política. Não se trata de dizer aos que desconhecem a norma culta que a fala deles tem a mesma legitimidade, porque não adianta, não "cola" na sociedade. Trata-se de ensinar a esse praticante o pleno domínio da norma culta, a qual, mesmo tendo que absorver mudanças, nunca abdicará de sua hegemonia e é a de que ele vai precisar para subir na vida.
Advertir contra o preconceito sofrido por quem "fala errado" também não adianta nada, diante da força onipresente da norma culta. (Aliás, no Brasil estamos sempre a frente e agora legislamos sobre preconceitos e tornamos ilegal ter preconceitos, quando isto é praticamente impossível, pois o possível é apenas tornar ilegal a manifestação do preconceito.) A fala é dos mais importantes recursos para o que se poderia chamar de reconhecimento social da pessoa. Vendo alguém pela primeira vez, fazemos, conscientemente ou não, um julgamento automático. Aprontamos uma ficha mental, avaliamos a roupa, a idade, o estado dos dentes e, inevitavelmente, a fala, através da qual é frequentemente possível saber a origem e a extração social de um interlocutor eventual. A norma culta, a dominante, a que é ensinada como correta, mostra sua cara imediatamente e se reflete logo na maneira pela qual o sujeito é percebido e tratado. Ferreira Gullar tem razão, a crase não foi feita para humilhar ninguém. Mas humilha o tempo todo. E agora, pensando aqui nessa tirania da norma culta, fico imaginando se ela não é empregada com esse fim, por certos fiscais dogmáticos. Não devia ser, porque, afinal, ela é necessária para preservar e aprimorar a precisão da linguagem científica e filosófica, para refinar a linguagem emocional e descritiva, para conservar a índole da língua, sua identidade e, consequentemente, sua originalidade. Ao contrário do que entendi de certas opiniões que li sobre o assunto, a norma culta não tem nada de elitista, é ou devia ser patrimônio e orgulho comuns a todos. Elitismo é deixá-la ao alcance de poucos, como tem sido nossa política.
Acorda, Congresso! Otávio Leite
| O Globo - 29/05/2011 |
Recentemente, O GLOBO reitera aos olhos e consciências da sociedade um diagnóstico sobre "asfixia" do Parlamento brasileiro. São milhares de pendências e retrata o que podemos intitular como um "esqueleto legislativo". Dentre as tarefas de um deputado ou senador, a fundamental delas é a de legislar. Isto é, discutir e votar matérias (do Executivo e do próprio corpo legislativo), além de propor projetos e emendas. Mas há sérios fatores que vêm entravando o desempenho dessa função. O principal deles é a avalanche de medidas provisórias (MPs) editadas pelo Executivo. Algo que está desvirtuado, seja pela quantidade excessiva (na maioria das vezes não atendendo aos critérios constitucionais de urgência e relevância); seja pela permanente agressão à boa técnica legislativa ao incluir, num mesmo texto legal, temas os mais diversos e distintos, o que é um absurdo. Como se sabe, a medida provisória deveria ser um instrumento para situações excepcionais. Mas, na prática, virou o cotidiano. O fato é que, nestes quatro meses de mandato, votamos 18 MPs provenientes no governo Lula e não votamos nenhuma das 14 MPs editadas no governo Dilma. Ou seja, até agosto a pauta estará tomada por elas. Sem contar as vindouras... O governo consegue diminuir bastante a agenda do Parlamento. São centenas de projetos que poderiam ser deliberados e não o são, pois a "fila" está repleta de MPs (que têm primazia legislativa). Mas o nosso Congresso tem também a sua responsabilidade. É simplesmente vergonhoso que os vetos apostos pelo Executivo aos projetos não sejam apreciados no prazo constitucional de 30 dias (metade mais um dos votos na Câmara e no Senado derrubam um veto). Por um artifício regimental, não são pautados com a regularidade necessária (há mais de 2.000 itens para votarmos). O que é perverso, pois a palavra final do processo de construção de uma regra jurídica, que é do Parlamento, não é dada, numa espécie de abdicação autofágica de poder. Precisamos rever os ritos e métodos. É urgente incorporar os meios digitais aos processos decisórios no Parlamento. Um projeto de lei para ser deliberado corretamente precisa ter sido examinado por comissões sim, ter sido debatido (em qualquer sessão) e ter passado por um processo de negociação para edificação ou não de consenso. Feito isso, por que não fixar um prazo para o parlamentar votá-lo por meio digital (dentro de um prazo restrito)? Ao invés de vê-lo se dirigir para o sepulcro de uma fila infindável. Quantas não foram e são as boas ideias e propostas que poderiam ter prosperado, aperfeiçoado e inovado as leis brasileiras? É hora de o Congresso brasileiro acordar para o imperativo do século XXI: o mundo digital. Ou será que, até nisso, surgirá uma medida provisória do Executivo, ou mesmo uma decisão do Supremo? OTAVIO LEITE é deputado federal (PSDB-RJ) |
sábado, maio 28, 2011
Confronto não ajuda Dilma - Alberto Dines
Observatorio da Imprensa
O retorno do ex-presidente Lula à arena política, se, por um lado, anima o noticiário, por outro nos remete ao velho faroeste com a velha e desgastada trilha sonora contra a imprensa.
Jangada de pedra CESAR MAIA
A reação política europeia à crise econômica de 2008-2009 foi virar o leme à direita. Os casos residuais, atentos a essa tendência, terminaram caindo numa armadilha: adotar as mesmas políticas à direita, buscando legitimar-se pela esquerda. Não podia dar certo.
Os dois casos residuais mais importantes são os de Portugal e da Espanha. Ambos caminham para se incorporar aos demais, com a provável vitória de seus partidos conservadores, o PSD em Portugal, na próxima semana, e o PP na Espanha, no início de 2012.
As eleições regionais e locais na Espanha, na semana passada, com vitória histórica do PP, já apontaram nessa direção, incluindo a tomada de redutos tradicionais sob controle dos socialistas do PSOE.
Com isso, o georreferenciamento da política europeia em 2012 deverá mostrar uma enorme mancha azul, desde a Alemanha, a França, a Itália e o Reino Unido, chegando agora à península Ibérica.
O escritor José Saramago fez a figuração do retorno ibérico à Europa desde as Américas, onde a "jangada" aportou no final do século 15. Esta "jangada de pedra", com a democratização dos anos 1970, voltou a colar no continente. Agora, ela aporta politicamente na Europa pós-crise.
Portugal e Espanha têm um sistema parlamentar de poder binário. No caso da Espanha, de forma mais pronunciada: PSOE e PP têm em torno de 90% dos 350 deputados.
Em Portugal, o PS e o PSD têm um pouco menos, em torno de 85% dos 230 deputados.
Na eleição de 2009, tal soma caiu para 77%, com o PS perdendo 20% de seus deputados e tendo que coligar-se para formar o gabinete ministerial.
A vitória do PS em 2009 só ocorreu devido a uma escolha equivocada do PSD: a sua candidata a primeira-ministra.
Hoje em dia, a performance numa campanha sempre agrega ou desagrega algo. Se a eleição for equilibrada, isso passa a ser decisivo.
A crise obrigou o primeiro-ministro português a entregar o cargo ao presidente e este a antecipar as eleições parlamentares para 5 de junho. Portugal receberá, via UE, 40% de seu PIB em empréstimos, para enfrentar a crise.
Na Espanha, em meio à crise, numa última tentativa do PSOE, o primeiro-ministro anunciou que retira seu nome da eleição de 2012 e que não continuará como tal.
Nas últimas semanas, um movimento multitudinário via redes sociais, de jovens espanhóis, ocupou a praça central de dez grandes cidades do país, a começar por Madri. O foco dos protestos é a contrapolítica, a rejeição aos políticos, jovens antes de esquerda.
Mesmo sendo a eleição em Portugal de resultado mais estreito, o fato é que, politicamente, a "jangada de pedra" -agora de cor azul- colou na política europeia pós-crise.
Da casa do lobby ao apartamento da empresa MIGUEL REALE JÚNIOR
O recente affaire Palocci apresenta um significativo paralelismo com o sucedido com Francenildo dos Santos Costa, caseiro da chamada "casa do lobby" em Brasília, alugada por ex-assessores da prefeitura de Ribeirão Preto para negócios e prazeres. O então ministro da Fazenda, em 2006, negou que frequentasse a casa. Convocado para depor na CPI dos Bingos, Francenildo desmascarou o ministro até ser calado por mandado de segurança, em decisão absurda do Supremo Tribunal Federal, na qual se considerou que, por suas "condições culturais", o caseiro não teria como contribuir para o esclarecimento dos fatos.
Não bastou o silêncio imposto pela Justiça que desqualificou o homem humilde, era necessário desmoralizá-lo. Dois dias depois, o caseiro teve o sigilo bancário violado pela Caixa Econômica Federal, subordinada ao Ministério da Fazenda, como tentativa de desacreditar a sua palavra.
Com precipitação, festejou-se o encontro de depósitos de R$ 25 mil e concluiu-se, apressadamente, ter sido o caseiro comprado. Para o governo, a violação praticada seria pecado venial, diante do pecado mortal da compra da declaração do caseiro por inimigos do ministro.
Os súcubos do ministro, após violarem o sigilo bancário, deram a órgão de imprensa a tarefa de espalhar a calúnia. Para dar ares de legitimidade à acusação leviana o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) mandou ofício à Polícia Federal, no dia seguinte à quebra do sigilo, aventando a possibilidade de ocorrência de lavagem de dinheiro.
O tiro saiu pela culatra. O homem simples era honesto, recebera a importância de seu pai e fora submetido ao mais puro arbítrio do Estado, em grave uso abusivo do aparelho estatal. Francenildo, em lição de moral agora esquecida pelo atual ministro da Casa Civil, disse depois, ao depor na Corregedoria do Senado: "O lado mais fraco não é o do caseiro, é o da mentira. Duro é falar mentira que você tem de ficar pensando. A verdade é fácil".
O Supremo Tribunal Federal, por cinco votos a quatro, entendeu não haver provas da participação do ministro no crime de quebra do sigilo, pois "o suposto interesse de Palocci em ter desacreditado o depoimento do caseiro à CPI dos Bingos não basta para que ele seja responsabilizado, se não há provas concretas". Em suma, os cinco votos a seu favor reconheciam que não quebrara o sigilo, mas recebera os dados bancários e aceitara a prática do crime que pretensamente o beneficiava.
Agora, os fatos também se apresentam por detrás de um biombo que esconde a verdade. Após ter saído do governo Lula, Palocci fundou empresa com sua mulher. Depois, em dezembro de 2006, alterou-se o objeto social para consultoria financeira e econômica, tendo Palocci, do capital de R$ 2 mil, cotas no valor de R$ 1.980 como sócio e administrador. O outro sócio, um jovem economista, detinha apenas cota no valor de R$ 20. Em dezembro de 2009 o capital foi alterado para R$ 52 mil, dos quais Palocci tinha cotas correspondentes a R$ 51.980 e o jovem economista (presença necessária para a inscrição da empresa no Conselho Regional de Economia) continuava com os mesmos R$ 20. Em setembro de 2010, aumentou-se o capital para R$ 102 mil e Palocci passou a ter R$ 101.960 e o economista, R$ 40.
Em novembro de 2010, eleita Dilma Rousseff, de cuja campanha Palocci fora coordenador, bem como o responsável pelo processo de transição, a mesma firma de consultoria recebeu vultosos pagamentos. O lucro não foi distribuído, pois a empresa, que se confunde com seu sócio majoritário, comprou imóveis, um deles o apartamento para uso de seu administrador, avaliado em mais de R$ 6 milhões.
Em informação obrigatória prestada à Comissão de Ética Pública da administração federal, o já ministro da Casa Civil informou ser possuidor de cotas de empresa agora com objeto social modificado, não mais de consultoria financeira e econômica, mas de administração de imóveis. É apenas uma parte da verdade, pois o ministro informa ser titular de 99,99 cotas de uma empresa de administração de imóveis cujo capital é de R$ 102 mil. No entanto, usufrui valioso apartamento adquirido por sua empresa, investimento alheio totalmente ao objeto social da companhia, do qual passou a ser ocupante, sem notícia de que pague pela locação do imóvel. É um consabido subterfúgio de possuir um bem sem constar diretamente como proprietário.
Se não fosse a denúncia efetivada pela imprensa, nada do patrimônio real do ministro-chefe da Casa Civil seria sabido. E dele apenas se ouviram pedidos de respeito à confidencialidade, que tanto desprezara com relação ao humilde caseiro Francelino.
O Código de Conduta da Alta Administração Federal, de cuja elaboração participei como membro da Comissão de Ética, timbra ter por finalidade que a sociedade possa aferir a lisura do processo decisório governamental, motivo pelo qual busca evitar conflitos entre interesses públicos e privados. Por isso estabelece o Código de Conduta que, além da declaração de bens, cabe ao administrador público dar informações sobre sua situação patrimonial que, real ou potencialmente, possa suscitar conflito com o interesse público. Saber, portanto, quais foram os clientes dessa empresa de consultoria financeira administrada e pertencente, em 99,99% da cotas, a um médico sanitarista, em serviços pagos quando já previsto como forte ministro, é essencial para se poder ter a transparência visada pelo Código de Conduta.
Como dizia Francenildo, "duro é falar mentira que você tem de ficar pensando", e para não pensar os líderes do governo decretam infantilmente: "O episódio está encerrado". Chega de cinismo: o episódio apenas começa e deve-se é desvendar a verdade para verificar se houve ou não novamente abuso e tráfico de influência, que podem contaminar a confiança no atual governo.
Os estragos da tormenta EDITORIAL O Estado de S.Paulo
Onde não costuma chover, quando chove é um dilúvio. No governo Dilma, fazia bom tempo até que o céu veio abaixo por força da conjunção de duas questões tempestuosas: a revelação do enriquecimento em surdina, entre 2006 e 2010, do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, e o trâmite da reforma do Código Florestal, aprovada esta semana na Câmara dos Deputados. A tormenta ilhou o Palácio do Planalto, expôs a fragilidade congênita da base parlamentar do governo, cuja amplitude é inversamente proporcional à sua consistência programática, e trouxe de volta ao centro das decisões o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o inevitável apequenamento da liderança e do capital político de sua sucessora.
A crise em dose dupla levou à beira da desagregação o enlace de conveniência entre PT e PMDB, já combalido pelo ressentimento da legenda do vice-presidente Michel Temer com a expansão da presença petista no governo e a preferência de sua titular por quadros técnicos pinçados por ela mesma, em detrimento de apadrinhados políticos. Para a presidente, ficou difícil escolher o pior dos males, entre a má vontade do PMDB em assumir a defesa de Palocci - e o flerte de uma parcela de seus congressistas com a iniciativa da oposição de criar uma CPI sobre o escândalo - e a obstinação do líder do partido na Câmara, Henrique Alves, em fazer aprovar a emenda ao projeto do código que anistia plantações em áreas de proteção permanente e que Dilma considerou "vergonhosa".
A seu mando, Palocci ligou no dia da votação para Temer para informá-lo de que os cinco ministros do PMDB, a começar do titular da Agricultura, Wagner Rossi - indicado pessoalmente pelo interlocutor -, seriam exonerados caso o partido seguisse na contramão das posições da presidente. Abespinhado, o vice retrucou que a demissão seria desnecessária "porque amanhã cedo mesmo todos entregarão os seus cargos". A ríspida conversa, testemunhada em ambas as pontas da linha, revela, de um lado, a mão pesada de Dilma e a sua tremenda falta de traquejo político; de outro, a arrogância de seu "primeiro-ministro", conhecido antes pela sua afabilidade com aqueles em quem reconhece atributos de poder. Mais tarde, Palocci telefonou para se desculpar, mas o estrago estava feito. Lula decerto não deixaria as coisas chegar a tal ponto.
Ele sabe que a presidente precisa do PMDB, não tivesse sido ele quem costurou com a sigla a aliança eleitoral pró-Dilma - e, no embalo, acatou a demanda de Temer de ser o vice -, de olho tanto nas urnas quanto na governança. Ele acha também que Dilma não pode passar sem Palocci. Na mesma conversa com senadores petistas em que o comparou a Pelé, Lula teria prognosticado que, desprovida do ministro, Dilma "se arrastaria até o final do mandato". Está claro que foi por instigação de seu mentor que ela enfim veio a público "assegurar" que Palocci estava dando todas as explicações necessárias e atacar a oposição por "politizar" o caso, citando a acusação tucana à Receita Federal de privilegiar uma empresa cliente de Palocci, a WTorre.
Por inadvertência ou cautela, porém definitivamente não a pedido de Lula, Dilma se guardou de dizer que tinha "absoluta confiança" no ministro, como afirmou diante dos boatos - alegadamente insuflados por ele - de que o titular da Fazenda, Guido Mantega, estava com os dias contados no governo. Faz parte das aptidões dos políticos profissionais prestar atenção não só no que diz um governante, como também no que omite. É verdade que o PMDB parece ter se desvinculado de qualquer tentativa de inquirição parlamentar do ministro que foi de excepcional rudeza com o seu dirigente, mas, como diria Dilma (quando perguntada se manteria suspensas as multas aos desflorestadores), "o futuro a Deus pertence".
E o futuro continua carregado para Palocci. O Ministério Público Federal do DF acaba de abrir uma investigação, na esfera cível, para averiguar se os valores faturados pela Projeto, a empresa aberta em 2006 pelo então deputado, são compatíveis com os serviços prestados por ele. E no fim da semana que vem expira o prazo dado pela Procuradoria-Geral da República para o ministro se explicar.
Lula e Dilma EDITORIAL FOLHA DE SÃO PAULO
A desenvoltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília, ao empalmar o comando do combate ao incêndio do caso Palocci, é o maior sintoma da vertiginosa fragilização de Dilma Rousseff no curso da semana.
A própria presidente viu-se impelida, ato contínuo, a mostrar as caras e as falas, para reaver parte do espaço ocupado pelo mentor.
Diante da cena clássica de um homem poderoso -o ministro Antonio Palocci- recusando-se a dar explicações sobre o súbito aumento de seu patrimônio pessoal, puseram-se em marcha as engrenagens de um enredo igualmente conhecido. Manietado pela necessidade de montar operações de blindagem, silêncio e desconversa, Palocci perdeu o controle sobre a votação do Código Florestal.
O texto aprovado na Câmara dos Deputados, ao pender para o lado dos proprietários rurais, foi recebido em várias praças como uma lei para atrasar a entrada do país no século 21. Um Código Florestal que anistia responsáveis por alguns desmatamentos ilegais galvanizou uma larga maioria de parlamentares, que alia setores ruralistas tradicionais à base fisiológica do governo -todos ansiosos por mais fatias de poder.
Faltava, nesse cenário de enfraquecimento do Planalto e de volatilização de sua confortável maioria no Congresso, a contribuição de outra bancada tradicional, a dos deputados evangélicos. Manifestaram-se -e foram atendidos pelo Planalto- no caso do chamado kit anti-homofobia. O recuo de Dilma foi imediato e constrangedor, ao menos para o ministro da Educação, Fernando Haddad.
Além dos arranjos de geometria variável que reúnem ruralistas, evangélicos e fisiológicos em torno de demandas mais defensáveis ou menos, e obviamente de Lula, quem se beneficia com a presidente e seu articulador-mor na defensiva é o PMDB de Michel Temer.
Mesmo que Palocci venha a dar explicações plausíveis sobre a profícua atividade empresarial paralela (o que se afigura cada vez mais complicado), ou no caso de a blindagem tanto conter o fogo amigo quanto resistir às investigações do Ministério Público e da imprensa, o ministro verá seu raio de ação reduzido. Haverá, decerto, ampliação proporcional do balcão de varejo que o operador palaciano sempre termina obrigado a manter aberto e polido, para servir ao PMDB e a outros sócios vorazes do poder.
A julgar pela deterioração da situação política na semana, o caso Palocci não irá embora tão cedo. Na hipótese de agravar-se, quem tem mais a perder não é o ministro, mas Dilma -como parece ter intuído, rapidamente, o sempre sagaz ex-presidente Lula.
sexta-feira, maio 27, 2011
A presidente ''ultrapassada'' Editorial de O Estado de S Paulo
O Estado de S.Paulo
Nos primeiros tempos do novo governo, a presidente Dilma Rousseff era aplaudida por duas características que representavam um bem-vindo contraste com o estilo de seu mentor Lula. Para os ouvidos fartos da verborragia do então presidente e para as vistas cansadas das suas incessantes aparições, a economia de palavras e a concentração da sucessora nos seus afazeres foram recebidas com um misto de alívio e otimismo. Assim também os relatos do exame minucioso que dedicava aos assuntos de sua alçada e do rigor com que cobrava da equipe a correção das lacunas ou imperfeições identificadas nos documentos que pousavam na sua mesa de trabalho - a antítese da aversão de Lula pelos textos levados à sua leitura que excedessem um par de páginas.
Mas a política é impiedosa. Bastaram os primeiros sintomas de incerteza nas decisões do Planalto (sobre o reconhecimento de que a inflação começara a voltar e a escolha dos instrumentos para contê-la, por exemplo) e as primeiras rusgas com a balofa base parlamentar governista (sobre cargos e verbas, como sempre) para que as avaliações da conduta presidencial passassem a produzir conclusões diferentes. As suas aparentes virtudes seriam, na realidade, limitações. Se ela fala pouco, é porque, além da inaptidão para se expressar em público, pouco tem a dizer. Se ela dedica tempo e energia a perscrutar com lupa os calhamaços da administração, é porque padece do vício do detalhismo e do gosto tecnocrático pela microgestão, em detrimento do diálogo com as suas forças no Congresso. Foi em meio a essa mudança de louvores para reparos que Dilma sofreu dois golpes.
O primeiro, a pneumonia que não só a obrigou a se recolher ao Palácio da Alvorada, a sua residência oficial, e a reduzir o ritmo de sua atividade, como evidenciou, com o passar do tempo, que o Planalto mentiu sobre a gravidade da doença que a acometeu. O segundo golpe, naturalmente, foi a revelação do enriquecimento, em meros 4 anos, do principal coordenador de sua campanha, o então deputado Antonio Palocci, que ela promoveu a personagem central do governo, como titular da Casa Civil e seu interlocutor com as elites nacionais. O silêncio - só ontem rompido - e a aparente inexistência de qualquer iniciativa de Dilma em face do escândalo deram azo a uma fuzilaria de críticas: procedentes, as da opinião pública; oportunistas, as dos políticos da base aliada, descontentes com o pouco-caso de Dilma e Palocci.
O comando da base vinha bloqueando, até por meios truculentos, as tentativas da oposição de convidar o ministro a se explicar. Mas o confronto entre a presidente e o PMDB a propósito da vitoriosa emenda ao projeto do Código Florestal, que anistia os cultivos feitos até 2008 em áreas de proteção permanente, instalou um clima de mala sangre entre o governo e sua base parlamentar de que a oposição, sobretudo no Senado, poderia tirar proveito para trazer Palocci às falas, no âmbito de uma CPI. Não se sabe se a presidente e o ministro já tinham se dado conta da erosão do seu patrimônio político no Congresso - e, em caso positivo, o que pretendiam fazer para recuperá-lo. O fato é que, com a sua proverbial intuição, Lula se abalou a Brasília e chamou a si o controle da crise. O resultado de sua intervenção é incerto, mas, com a sua entrada em cena, Dilma foi "ultrapassada", como se diz na caserna quando um comandante tem diminuída a sua autoridade.
Sob a batuta de Lula, que a instou a "abrir mais" o seu governo, ela marcou sucessivos encontros com políticos petistas e aliados. Ao mesmo tempo, para dissuadir as bancadas religiosas na Câmara de abandonar Palocci à própria sorte, mandou para o arquivo morto o polêmico kit anti-homofobia - uma cartilha e cinco vídeos que o Ministério da Educação pretendia distribuir nas escolas públicas de nível médio a pretexto de promover a tolerância entre os alunos. Decerto ainda é pouco para aplacar a irritação dos políticos, a julgar pela pilha de reclamações que deixaram com Lula sobre a "indiferença" de Dilma e a "arrogância" de Palocci. Guiada pelo antecessor, ela tem o telefone e a caneta para ir ajeitando as coisas. Mas ele continua tendo de fazer o que até agora evitou: dar satisfações dos seus negócios. Do contrário, também será ultrapassado.
ANTONIO PALOCCI E MARCOS VALÉRIO: UM ESQUEMA ANÁLOGO? PALOCCIDUTO?
1. Na terça-feira (24), no Plenário da Câmara de Deputados, pelo menos três deputados do PT conversavam -nem tanto- ao pé do ouvido, afirmando a honestidade do ministro Antonio Palocci. Garantiam que os recursos "arrecadados" por Palocci não foram para sua capitalização pessoal, mas para "ajudar" a campanha de Dilma. Ou seja: ele seria um duto de captação pessoal de recursos sem que empresas tivessem que declarar doação à campanha de Dilma. 2. Se foi assim mesmo, é exatamente o mesmíssimo esquema montado pelo PT com Marcos Valério. Empresas, em vez de doar diretamente recursos ao PT, pagavam a empresa de Marcos Valério por "serviços de publicidade". Valério recebia a lista de repasses e entregava na boca do caixa àqueles que estavam autorizados a receber. 3. A isso se chamou de "Valerioduto". O núcleo do "Valerioduto" era, coincidentemente, a mesma casa civil, através de seu ministro autor das listas, que incluíam a parlamentares da base aliada. Sendo verdade o que aqueles deputados comentaram, temos agora um esquema exatamente igual, em seu conceito. Só que o ministro não apresenta uma lista para receber e doar, mas o faz diretamente através de sua própria consultoria. 4. Antes, a empresa de Marcos Valério -a SMP&B-, recebia e repassava: era o núcleo do "Valerioduto". Agora -se confirmado o que deputados disseram- é a empresa -PROJETO- de Palocci que é o núcleo do "Palocciduto". É uma investigação fácil para o MP, a PF, ou a RF. Basta seguir o caminho do dinheiro recebido e ver, fora dos imóveis (checando valor de mercado), onde foi aplicado: estão em caixa ou serviram para pagar alguém ou alguma coisa? E checar se os valores são apenas 20 milhões de reais, ou se há muito mais, como alguns especulam. 5. Na medida em que a investigação demonstre isso, a Projeto poderia contratar o Delubio para mostrar que é apenas dinheiro não contabilizado: mais uma vez. Por essas e outras é que Palocci abrir suas contas -digamos, empresariais, desde 2006 a 2010- é imprescindível..., para ele e para todos. E para o distinto público! |
Melhor que roubar bancos VINICIUS TORRES FREIRE
Surgem mais histórias de como "socorros" para a crise de 2008 acabaram favorecendo a banca global
AS BANDALHEIRAS legais e ilegais da grande finança nos anos em torno do crítico 2008 aos poucos viram poeira de história. Mas, a bem da justiça e em nome de tanta gente esfolada pela crise, convém recordar quão grande foi o descaramento.
Acaba de vir à luz, por exemplo, como mais uma operação de emergência do banco central dos EUA (Fed) tornou-se enfim um programa de subsídios para bancões.
O que nos importa o Fed dar dinheiro à banca euroamericana?
A grande banca mundial agora já se enche de ares e dá pitos em governos quebrados (dos quais são cúmplices em irresponsabilidade). Conseguiu repelir muito da modesta ofensiva regulatória de 2009. Os financistas voltaram a fazer dinheiro. A fortuna que ganharam inventando dinheiro fictício para negócios inviáveis ficou nos seus bolsos.
Ainda vai levar anos para que a conta da esbórnia seja paga, conta que de início foi bancada por governos, os quais tiveram de agir a fim de evitar colapso terminal da economia. Os governos, premidos pelos credores, agora repassam a conta para a população bestificada.
Imediatamente, há cortes de benefícios sociais por quase todo o mundo rico, em especial no sul da Europa. Mas os programas de contenção da crise têm efeitos colaterais pelo mundo. A grande expansão monetária americana causa desequilíbrios econômicos, entre eles um empurrão adicional no preço já em alta de combustíveis e comida, conta que pinga na tigela de comida de pobres da África e do sul da Ásia.
O que acabamos de saber? Meios de comunicação dos EUA, em especial a agência de notícias Bloomberg, têm se batido na Justiça contra o Fed, demandando a abertura de informações sobre os programas de socorro à banca que datam de 2008.
Premido mesmo pelo temor de paralisia e colapso gerais do sistema financeiro, o Fed abriu linhas várias de financiamento de curto prazo para a banca e pares. Dadas, ademais, a simpatia e a promiscuidade entre integrantes da autoridade monetária e a banca (o Fed é, de certo modo, "privado"), alguns arranjos terminaram em subsídio mesmo.
A partir de 2008, conta a Bloomberg, bancos como Credit Suisse, Goldman Sachs, Deutsche Bank, os quase quebrados Barclays e RBS e o UBS tomaram empréstimos a taxas de juros ainda inferiores à taxa de redesconto do Fed (taxa de empréstimos de socorro para bancos com problemas transitórios de liquidez).
Tratava-se de "repos", em suma uma troca temporária de dinheiro barato (do Fed) por (no caso) títulos lastreados em hipotecas, aqueles mesmos, que deram origem à crise e que na época ninguém trocava nem por banana passada, muito menos por empréstimo a juro real negativo.
Não foi a única farra da finança, que cometeu a alocação de capital mais estúpida e cinicamente incompetente da história (o papelório imobiliário), levou empréstimos baratinhos, viu o Fed comprar ou garantir seus papéis podres, quando não cometeu crimes, relacionados ou não à grande bolha dos derivativos.
Pois é essa gente responsável que vive a fazer a política nos corredores do G20, do G8, do FMI, de BCs etc. Ou que faz pose mesmo quando ainda pede, como agora, que o Banco Central Europeu e a União Europeia os salve de uma quebradeira que eles também ajudaram a armar, como a do governo da Grécia e cia.
O fino da grossura NELSON MOTTA
Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, é o melhor romance brasileiro que li - às gargalhadas - nos últimos anos. Um diretor de comerciais decadente e louco por sexo, drogas e encrencas, se envolve com uma seita de surubrâmanes e mergulha em uma epopeia tragicomicossexual de 480 páginas em que a invenção literária, a cultura pop e o rigor da linguagem estão a serviço do humor e da crítica social com uma graça e uma grossura raramente vistas juntas em nossas letras. É o fino do grosso.
É como se Henry Miller e Bukowski tivessem fumado, bebido, cheirado e viajado de ácido com o devasso Zeca pelo submundo de drogados, bebuns, putas, travecos e traficas da noite paulistana.
Como um Ulisses doidão, priápico e bagaceiro, Pornopopéia é movido por uma sucessão vertiginosa de acontecimentos e narrado em monólogos interiores elaborados com linguagem forte, ágil e precisa, em que Zeca relata sua epopeia pornoescatológica debochando de suas próprias metáforas e hipérboles, avacalhando o seu relato aparentemente caótico, mas baseado em uma sólida estrutura e em personagens tão sórdidos e patéticos quanto divertidos e sedutores. Poucas vezes tanta baixaria foi elevada a tais alturas.
Sem ser um livro de humor ou de sacanagem para excitar o leitor, o guia de autodestruição de Zeca dá alta ajuda para risos e gargalhadas ao evocar as forças selvagens da sexualidade e do desejo com crueza e sofisticação, oferecendo diversos níveis de leitura, entremeando a narrativa com haikais sensacionais, jogos de linguagem de pura bobagem e pensatas baratas que o próprio narrador tem prazer em desmoralizar, só para dar uma alegria extra ao leitor - além da trama eletrizante e dos personagens movidos a sexo, drogas e imaginação em doses cavalares.
Politicamente incorreto, o Ulisses bagaceiro de Pornopopéia é existencialmente incorretíssimo, química e sexualmente insaciável e literariamente inesquecível, proporcionando um prazer intelectual só comparável aos êxtases que o sexo bandalho e as substâncias proibidas dão a Zeca na epopeia que vive dentro de si mesmo e da cabeça do leitor.
Arquivo do blog
- Blog do Lampreia
- Caio Blinder
- Adriano Pires
- Democracia Politica e novo reformismo
- Blog do VILLA
- Augusto Nunes
- Reinaldo Azevedo
- Conteudo Livre
- Indice anterior a 4 dezembro de 2005
- Google News
- INDICE ATUALIZADO
- INDICE ATE4 DEZEMBRO 2005
- Blog Noblat
- e-agora
- CLIPPING DE NOTICIAS
- truthout
- BLOG JOSIAS DE SOUZA