Entrevista:O Estado inteligente

domingo, maio 01, 2011

As pompas do mundo DANIEL PIZA

O Estado de S.Paulo - 01/05/11

Cobertura extensiva e intensiva nos canais de notícias na TV; revistas semanais falando da "princesa encantada" e de um "sistema que dá certo há mais de mil anos"; Gloria Kalil comentando ao vivo na Globo; intelectuais republicanos como Timothy Garton Ash e Gilles Lapouge reconhecendo a magia da "continuidade" ou "permanência" para as massas; um casal de tigres sendo batizado de William e Kate; filmes como A Rainha sendo reexibidos e O Discurso do Rei ganhando Oscar; os EUA acompanhando em peso como se o casamento fosse entre americanos; a nova princesa lançando modas como o "fascinator", espécie de casquete moderna; Elton John, o amigo de Diana, presente na cerimônia sem suas extravagâncias do palco - afinal, o que é tudo isso? Não me surpreende a curiosidade, mas a intensidade. Precisei buscar no saudoso Otto Lara Resende o título acima. O que o mundo vê além daquelas pompas todas?

A explicação usual diz que se trata do velho conto de fadas. Na frase de uma amiga, "é a realização do sonho de muita gente", por eles serem "bonitos, jovens, ricos, elegantes, apaixonados" e, ainda por cima, se casarem com "carruagem e coroa de diamante". Apesar do consumismo e do "fast fashion", eles exibem privilégios e luxos realmente exclusivos, inacessíveis a mortais comuns, salvo a "eleita" Kate Middleton. Também parecem atrair uma juventude conservadora crescente, que quer resgatar tradições, que defende o valor dos rituais (não basta usar aliança no dedo; é preciso tatuar o nome do amado no corpo, mesmo que depois se separe), que acha "lúdico" acompanhar a sorte dos que não precisam penar por dinheiro. Mesmo quem tem marido apaixonado, vida confortável, filhos adoráveis e bom emprego dá mais valor ao que não tem; sonha com os diamantes, a juventude e os não-problemas de Kate. E o fato de ela optar por um estilo simples só aumenta a admiração por sua fortuna.

Mas isso tudo mostra que há algo mais, que transcende a mera curiosidade pelo glamour monárquico. O evento veio se encaixar em nossa era de celebridades, em nossa era People, na qual as aparências importam mais que tudo. É a ilusão de perfeição coroada. É a encarnação do medo de enfrentar as responsabilidades, do medo de envelhecer, do medo de não ser desejável. É um sintoma do mal atual, o mal da idolatria, em que os famosos parecem pertencer a uma corte, parecem ser mais especiais e interessantes do que de fato são, parecem livres para fazer o que quiserem. Ou, como já chamei, é a "imagocracia", o poder da imagem, que em cidades grandes se traduz na sede pelo status que um carro, uma grife e uma plástica (bem-feita, não essas que fazem bocas de pato nas peruas) podem dar. Vivemos numa idade teatral - vide as cantoras, mais e mais performáticas - em que o furor narcisista menospreza as qualidades interiores. As utopias coletivas morreram; as individuais nunca estiveram tão vivas.

Rodapé. Do livro A História da (In)Felicidade, de Richard Schoch (Record): "O que está longe de ser trivial é a crença perturbadora e que prevalece com demasiada frequência de que, para encontrar a felicidade, devemos dar as costas a tudo o que é familiar, forjar uma nova vida, viajar para terras distantes, realizar feitos extraordinários, trocar um presente sombrio por um futuro fantástico ou torcer para aparecer uma estrela auspiciosa. Esforços desse tipo são destrutivos, porque desperdiçam a oportunidade que se encontra sempre diante de nós: tornar-se não outra pessoa, porém uma versão melhor da pessoa que somos. (...) Embora os gurus da autoajuda, os consultores de estilo e outros fornecedores de autoestima possam afirmar o contrário, tornar-se feliz não é um tipo de escolha de consumo deliberada".

De la musique. Cobramos mais de quem mais gostamos, mas às vezes exageramos dando o tom errado à frase "mais do mesmo". Por exemplo, o novo CD do Radiohead, The King of Limbs, tem apenas oito canções, todas na mesma linha dos últimos trabalhos, e não por acaso a dancinha de Thom Yorke em Lotus Flower gerou mais comentários. Mas ouça Codex, de uma tristeza agônica, e diga quem faz igual. Idem para Elvis Costello em National Ransom. Costello deu cano no show que faria no Brasil, mas o CD vale todas as audições porque conseguiu misturar sua vertente meio country e bem-humorada (com T-Bone Burnett) com a cancionista, como em You Hung the Moon e One Bell Ringing. E quantos letristas são capazes de escrever "I lost you/ You slipped from your costume/ Like an actress in this tragedy" (Eu te perdi/ Você escorregou de seu vestido/ Como uma atriz nesta tragédia)?

Já de dois cantores compositores brasileiros que admiro, Tiê e Marcelo Camelo, não se pode dizer o mesmo a respeito dos novos CDs, respectivamente A Coruja e o Coração e Toque Dela. Senti falta da tristeza autoirônica de Tiê no disco anterior, apesar de Te Mereço, e tudo soa voltado a um público mais juvenil, com voz dobrada e andamentos únicos. A única exceção, até pelo contraste, é a versão mourisca do clássico brega Você Não Vale Nada. Embora um tanto mais elaborado em termos instrumentais, Camelo também está singelo demais nas novas canções, de poucos versos, com alguns achados como "Trago nestes pés o vento pra te carregar daqui". Entre as que lembram um pouco os bons tempos de Los Hermanos, estão Despedida e Acostumar.

Novidade de fato é a inglesa Adele, no CD de nome 21. Ela começa com pegada bem blues, em Rolling in the Deep, mas também canta canções de amor como, ora, Lovesong (com versos eficientes como "Whenever I"m alone with you/ You make me feel like I am free again") e Turning Tables. Mas é a última canção, Someone Like You, que junta todos esses atributos e atravessa o mundo com sua beleza. Todo mundo que já perdeu um amor ou está com medo de perder se emociona com a melodia, a letra e a voz de Adele nessa canção.

La isla perdida. Raúl Castro aprovou mais um projeto de reformas, que inclui abertura ao setor privado, corte de subsídios e descentralização estatal. A compra e venda de casa por particulares também foi aprovada, e Fidel Castro deixou o comando do Partido Comunista. Estive em Cuba em 2000 e vi claramente a existência de dois mundos, o da fantasia revolucionária - que é comum ouvir dizer que apresenta estatísticas boas de saúde e educação, mas a educação é ideológica e os dados não são críveis - e o da realidade, com carência de produtos, em que o turismo se torna a única alternativa para muita gente, regido em dólares. O congresso também quer terminar com esse câmbio duplo e "levar em conta as tendências do mercado". Há muitas e muitas dúvidas sobre o futuro, mas aí está: é o início do fim do socialismo cubano.

As dúvidas são sobre o modelo que querem adotar. Estariam pensando numa "linha chinesa", ou seja, num capitalismo dirigido, com um partido político único e pouca liberdade de expressão? Mas os chineses têm uma população e um país enormes e uma cultura asiática de disciplina, de esforço nos estudos e firmeza nos negócios, a ponto de agora buscarem a geração de tecnologia e não mais a "maquiatura" de produtos alheios. Cuba é uma ilha de belezas tropicais e descontração musical, na qual o turismo será mais e mais a principal fonte de renda. O povo, apesar da lavagem cerebral que a propaganda e a repressão exerceram por 50 anos, pode muito bem querer mais liberdades civis e políticas, uma democracia ao estilo ocidental. Vamos aguardar os próximos capítulos, mas algo me diz que o gradualismo de Raúl pode não conter tudo.

Por que não me ufano (1). Achei curiosos os resultados da pesquisa da Ipsos sobre crenças religiosas. O Brasil é o terceiro país onde mais se acredita em Deus (84% dos entrevistados), atrás apenas de Indonésia (93%) e Turquia (91%). A média mundial é 51%. O Brasil também é o terceiro onde mais se acredita que a vida pós-morte não tem nem inferno nem pecado (32%), seguindo México (40%) e Rússia (34%), e o segundo onde mais se acredita em reencarnação (12%), atrás da Hungria (13%). Outros 28% acreditam que vão para paraíso ou inferno. O país é o quarto em crença no criacionismo (47%, contra 28% da média mundial), à frente inclusive dos EUA (40%). No Brasil, só 3% não acreditam em entes ou forças superiores (no mundo, 18%; na França, 39%) e apenas outros 4% têm dúvidas (no mundo, 17%).

Em outros termos, o Brasil talvez seja o país menos materialista ou secular do mundo. Somando as três crenças (Deus, vida pós-morte e criacionismo), atinge uma combinação de resultados que nenhum outro atinge. A esmagadora maioria nem sequer aceita a hipótese de que não existem fenômenos sobrenaturais e de que ao morrer vão desaparecer totalmente.

Por que não me ufano (2). O que os brasileiros são barraqueiros dentro de casa, são cordeirinhos fora. Se você abre uma página de política, lê absurdo atrás de absurdo e, aí, se arranja a desculpa de que não dá para ficar se indignando o tempo todo, que isso não vai levar a nada. Mas por que então não selecionamos determinados movimentos e não vamos às ruas protestar? Por exemplo, poderíamos lançar o "Fora, Sarney", cujos aliados e familiares dominam o Conselho de Ética, os mesmos que violaram a ética várias vezes com atos secretos e nepotismos mil. Ou então poderíamos ir à sede do PT com faixas "Delúbio não volte", para impedir que o operador do esquema do mensalão seja perdoado por um partido que ficou 20 anos prometendo mais ética no poder. Não estamos em ano de eleição, logo ninguém poderia alegar motivações partidárias. Ou a sociedade fala ou seus representantes não a representam.

Tudo como dantes DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 01/05/11

Partidos, como se sabe, são pessoas jurídicas de direito privado. Nessa condição, a despeito de custarem aos cofres públicos muitos milhões de reais anualmente entre as cotas do fundo partidário (R$ 301 milhões em 2011) e a renúncia fiscal decorrente da propaganda gratuita no rádio e na televisão, são donos dos próprios narizes.

Em tese, tomam suas decisões internas sem a obrigatoriedade de prestar contas à sociedade, adequando os respectivos custos e benefícios às suas conveniências.

Às vezes dá certo, às vezes não. Quando expulsou José Roberto Arruda depois do flagrante do vídeo em que o então governador recebia dinheiro do operador do esquema de corrupção montando no governo do Distrito Federal, o DEM calculou que com isso reduziria seu prejuízo político.

Não adiantou. A situação do partido já era difícil, só fez piorar e o caso, definitivamente batizado como "mensalão do DEM", contribuiu decisivamente para a derrocada.

Pesou mais a opinião que o público formara ao longo dos anos sobre o partido e sua fragilidade política para reagir.

Com o PT, ocorreu o oposto: teve a direção nacional e a imagem devastadas por denúncias de corrupção, mas recuperou-se tão bem que hoje pode dar-se ao desfrute de ignorar possíveis danos na opinião pública, decretar unilateralmente a absolvição da figura símbolo do mensalão e expor o poder de José Dirceu, elegendo presidente um oficial de seu quartel general.

Quando o PT decide que é chegada a hora de reabilitar Delúbio Soares, o ex-tesoureiro que, como disse a senadora Marta Suplicy ao defender sua reintegração, "segurou tudo calado", trata o assunto unicamente sob a perspectiva do partido, cujo interesse é "zerar" as penalidades e fortalecer sua unidade a fim de consolidar sua hegemonia no governo Dilma Rousseff e enfrentar o processo a ser julgado no Supremo Tribunal Federal.

Aos dirigentes parece pouco importar se vai repercutir mal a concessão de tal recompensa ao silêncio do homem que jurou ser o único responsável pelo esquema de arrecadação e distribuição de dinheiro tido como "criminoso" pela Procuradoria-Geral da República.

Ao contrário, pelas declarações feitas, consideram que, quanto mais cedo, melhor. O cenário, de fato, lhes é favorável.

Não há eleições a não ser em 2012, quando só então o Supremo deve começar a examinar o processo do mensalão.

A oposição encontra-se desmobilizada; problemas decorrentes do agravamento da inflação ainda não tomaram a cena de modo a alterar a confiança no governo, que está com popularidade alta e recolhendo novas adesões naquela parcela da sociedade que não gostava de Lula, mas anda gostando muito de Dilma.

Certamente o PT contabilizou perdas e ganhos e concluiu que o momento permite manobras radicais. Ao mesmo tempo recebe Delúbio e põe Rui Falcão na presidência.

Linha de frente da concepção aguerrida de José Dirceu de fazer política, Falcão ficou no "limbo" durante a campanha presidencial de 2010 por suspeita de ter exposto o esquema de montagens de dossiês contra adversários no comitê em Brasília.

Esses dois movimentos, a reabilitação de Delúbio e a eleição de Falcão, reconduzem o PT à rota anterior ao baque do mensalão. Sinalizam que o partido se sente forte e inimputável perante o eleitorado. Livre, leve e solto para abandonar a promessa de que, daquele ano de 2005 para frente, tudo seria diferente.

Paz de cemitério. A ordem unida no PSDB é água fria na fervura da crise paulista, a fim de que o clima não fique ainda pior nas semanas que antecedem a convenção nacional do partido, a ser realizada no fim de maio.

Na realidade, o tucanato não tem autoridade moral para pôr publicamente o dedo em cima da ferida e dizer que a crise resulta da afirmação de hegemonia regional por parte do governador Geraldo Alckmin, em detrimento da unidade partidária.

Simplesmente porque cada um dos figurões do partido faz exatamente o mesmo: a política do cada um por si e ninguém por todos.

Um novo Brasil FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

O ESTADO DE SÃO PAULO - 01/05/11
Décadas atrás havia uma discussão sobre a "modernização" do Brasil. Correntes mais dogmáticas da esquerda denunciavam os modernizadores como gente que acreditava ser possível transformar o País saltando a revolução socialista. Com o passar do tempo, quase todos se esqueceram das velhas polêmicas e passaram a se orgulhar das grandes transformações ocorridas. Até mesmo pertencermos aos Brics, uma marca criada em 1999 pelo banco Goldman Sachs, passou a ser motivo de orgulho dos dirigentes petistas: finalmente somos uma economia emergente!

Na verdade, o Brasil é mais do que uma "economia emergente", é uma "sociedade emergente" ou, para usar o título de um livro que analisa bem o que aconteceu nas últimas décadas, somos um novo país (ver Albert Fishlow, O Novo Brasil, Saint Paul Editora, 2011). Para entender as dificuldades políticas que foram transpostas para acelerar estas transformações basta ler a primeira parte de um livrinho que tem o instigante título Memórias de um Soldado de Milícias, escrito por Luiz Alfredo Raposo e publicado este ano em São Luís do Maranhão.

Embora os livros comecem a registrar o que é este novo Brasil - e há outros, além do que mencionei -, o senso comum, especialmente entre os militantes ou representantes dos partidos políticos e seus ideólogos, ainda não se deu conta por completo dessas transformações e de suas consequências.

Os fundamentos deste novo País começaram a se constituir a partir das greves operárias do fim da década de 1970 e da campanha das Diretas-Já, que conduziram à Constituição de 1988. Este foi o marco inicial do novo Brasil: direitos assegurados, desenho de um Estado visando a aumentar o bem-estar do povo, sociedade civil mais organizada e demandante, enfim, liberdade e comprometimento social. Havia na Constituição, é certo, entraves que prendiam o desenvolvimento econômico a monopólios e ingerências estatais. Sucessivas emendas constitucionais foram aliviando essas amarras, sem enfraquecer a ação estatal, mas abrindo espaço à competição, à regulação e à diversificação do mundo empresarial.

O segundo grande passo para a modernização do País foi dado pela abertura da economia. Contrariando a percepção acanhada de que a "globalização" mataria nossa indústria e espoliaria nossas riquezas, houve a redução de tarifas e diminuição dos entraves ao fluxo de capitais. Novamente os "dogmáticos" (lamento dizer, PT e presidente Lula à frente) previram a catástrofe que não ocorreu: "sucateamento" da indústria, desnacionalização da economia, desemprego em massa, e assim por diante. Passamos pelo teste: o BNDES atuou corretamente para apoiar a modernização de setores-chave da economia, as privatizações não deram ensejo a monopólios privados e mantiveram boa parte do sistema produtivo sob controle nacional, seja pelo setor privado, seja pelo Estado, ou em conjunto. Houve expansão da oferta e democratização do acesso a serviços públicos.

O terceiro passo foi o Plano Real e a vitória sobre a inflação, não sem enormes dificuldades e incompreensões políticas. Juntamente com a reorganização das finanças públicas, com o saneamento do sistema financeiro e com a adoção de regras para o uso do dinheiro público e o manejo da política econômica, a estabilização permitiu o desenvolvimento de um mercado de capitais dinâmico, bem regulado, e a criação das bases para a expansão do crédito.

Por fim, mas em nada menos importante, deu-se consequente prática às demandas sociais refletidas na Constituição. Foram ativadas as políticas sociais universais (educação, saúde e Previdência) e as focalizadas: a reforma agrária e os mecanismos de transferência direta de renda, entre eles as bolsas, a primeira das quais foi a Bolsa-Escola, substituída pela Bolsa-Família. Ao mesmo tempo, desde 1993 houve significativo aumento real do salário mínimo (de 44% no governo do PSDB e de 48% no de Lula).

Os resultados veem-se agora: aumento de consumo das camadas populares, enriquecimento generalizado, multiplicação de empresas e das oportunidades de investimento, tanto em áreas tradicionais quanto em áreas novas. Inegavelmente, recebemos também um impulso "de fora", com o boom da economia internacional de 2004-2008 e, sobretudo, com a entrada vigorosa da China no mercado de commodities.

Por trás desse novo Brasil está o "espírito de empresa". A aceitação do risco, da competitividade, do mérito, da avaliação de resultados. O esforço individual e coletivo, a convicção de que sem estudo não se avança e de que é preciso ter regras que regulem a economia e a vida em sociedade. O respeito à lei, aos contratos, às liberdades individuais e coletivas fazem parte deste novo Brasil. O "espírito de empresa" não se resume ao mercado ou à empresa privada. Ele abrange vários setores da vida e da sociedade. Uma empresa estatal, quando o possui, deixa de ser uma "repartição pública", na qual o burocratismo e os privilégios políticos, com clientelismo e corrupção, freiam seu crescimento. Uma ONG pode possuir esse mesmo espírito, assim como os partidos deveriam possuí-lo. E não se creia que ele dispense o sentimento de coesão social, de solidariedade: o mundo moderno não aceita o "cada um por si e Deus por ninguém". O mesmo espírito deve reger os programas e ações sociais do governo na busca da melhoria da condição de vida dos cidadãos.

Foi para isso que apontei em meu artigo na revista Interesse Nacional, que tanto debate suscitou, às vezes a partir de leituras equivocadas e mesmo de má-fé. É inegável que há espaço para as oposições firmarem o pé neste novo Brasil. Ele está entre os setores populares e médios que escapam do clientelismo estatal, que têm independência para criticar o que há de velho nas bases políticas do governo e em muito de suas práticas, como a ingerência política na escolha dos "campeões da globalização", o privilegiamento de setores econômicos "amigos", a resistência à cooperação com o setor privado nos investimentos de infraestrutura, além da eventual tibieza no controle da inflação, que pode cortar as aspirações de consumo das classes emergentes. Para ocupar esse espaço, entretanto, é preciso que também as oposições se invistam do espírito novo e sejam capazes de representar este novo Brasil, tão distante do pequeno e às vezes mesquinho dia a dia da política congressual.

Era uma vez na América VINÍCIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/05/11

Espirros americanos não causam mais pneumonia, mas convém notar a rateada do maior PIB do mundo
FAZ MENOS de uma década, era corrente o lugar-comum de dizer que, "quando a economia dos EUA pega um resfriado, a do Brasil cai no hospital com pneumonia".
O último contágio, ou pelo menos o último surto desse clichê, aconteceu durante as crises americanas de 2001-2002, mistura de estouro da bolha pontocom com espirros econômicos causados pelo terrorismo.
Na verdade, porém, o Brasil padecia mesmo é de imunodeficiências autóctones, tais como desordem fiscal, incertezas sérias sobre inflação, dívida externa alta, efeitos restantes do erro do câmbio fixo e ameaças de petismo alucinado.
Agora, o país parece vacinado por um terço de trilhão de dólares em reservas, algo mais em forma nas medidas macroeconômicas e vitaminado pela China. Tanto assim que a gente mal dá bola para as desventuras da economia americana.
A contaminação de origem americana mais relevante, a torrente de dólares derivada da política monetária frouxíssima, é assunto complicado demais para chamar a atenção além das gentes especializadas.
A feia rateada do PIB dos EUA no primeiro trimestre mal foi notada por aqui. Decerto, nosso provincianismo autocentrado e juvenil também pouco se ocupa de saber o que nos causaria um possível, embora ainda remoto, desarranjo chinês, que cairia muito mal. Ainda assim, dado o nosso histórico de dependência americana, causa impressão que a economia deles agora seja nota de pé de página de jornal.
Há uma conversa persistente sobre o risco de estagflação, de crescimento econômico baixo com inflação (faz menos de um ano, temia-se a deflação...). Esse nome feio foi o apelido dado aos problemas macroeconômicos americanos da década dos 1970 e início dos 1980. Não há medida precisa para o fenômeno, mas uma inflação além dos 5% e crescimento inferior a 2% seria um chute razoável para caracterizá-lo.
Pois bem, a economia dos Estados Unidos cresceu pouco mais de 2% nos últimos quatro trimestres ("ano"). A inflação medida pelo índice de preços ao consumidor (CPI) está em 2,7%, sobre um ano antes. A medida levada mais a sério pelo Fed, o banco central deles, está em 1,8% (inflação dos gastos pessoais).
O crescimento vai mal, certo -o ritmo do PIB da década passada foi o pior em quase 60 anos. Mas onde está a inflação? Está chegando, dizem os mais ortodoxos.
O Fed não acredita. Projeta para este ano crescimento do PIB em torno de 3,2%, com inflação abaixo de 2%. Para o fogo da inflação pegar, em tese é preciso desemprego baixo -a taxa caiu de 10% em 2010 para algo menos que 9%, ainda alta. De resto, Paul Krugman não cansa de lembrar que o nível de ocupação na economia na verdade não se recuperou após 2008.
Mas o crescimento vai pegar? A venda de casas novas voltou a cair ao nível da Grande Recessão. Entre quem paga prestação da casa, um em cada cinco deve mais que o valor do imóvel -indicador de calote próximo. O investimento das empresas voltou a cair. O preço do petróleo, persistentemente alto mas não explosivo, também faz estrago. O estímulo econômico do gasto do governo acabou. O monetário vai diminuir. Não há cheiro de desastre no ar, nem de estagflação ao estilo anos 1970. Desta vez, a encrenca é diferente. Mas é uma encrenca.

Liberdade de imprensa MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 01/05/11

Começa hoje em Washington um seminário jornalístico patrocinado pela Unesco para comemorar o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Sob o tema geral "21st Century Media: New Frontiers, New Barriers" ("Meios de comunicação no século 21, novas fronteiras, novas barreiras", em tradução livre), durante três dias jornalistas de todo o mundo dedicados à defesa da livre expressão estarão debatendo no Newseum e no National Press Club a liberdade dos meios de comunicação na era digital.

Essa comemoração do Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, a 3 de maio, acontece 20 anos depois da Declaração de Windhoek, onde jornalistas africanos proclamaram que a liberdade de imprensa é essencial para a democracia e o desenvolvimento econômico das nações.

Os debates destacarão as novas plataformas de comunicação que estão transformando a maneira como os cidadãos em todo o mundo recebem e compartilham informações, e também as novas ameaças de censura.

Um público que será alvo especial de debates são os "Digital Natives: The New Media Generation", jovens alfabetizados na era digital que cresceram junto com as novas tecnologias.

Esses jovens constituem a maioria em diversos países, e é preciso saber como eles recebem e compartilham informações na era digital, e como essa nova maneira influenciará no engajamento dessa geração no debate público.

A sessão de abertura constará de uma apresentação do levantamento anual da Freedom House, uma ONG dedicada à defesa das liberdades democráticas, em especial a de informação, sobre a situação da liberdade no mundo, seguida do primeiro debate sobre o estágio atual da liberdade de imprensa no mundo, e de que maneira os meios de comunicação digitais, as redes sociais (como Facebook) e as plataformas móveis (como os Ipads) estão ajudando a expandir o acesso à informação, e quais os bloqueios que estão sofrendo.

O moderador deste painel será o jornalista brasileiro Rosental Calmon Alves, fundador e diretor do Centro Knight para Jornalismo nas Américas.

O jornalista Bob Woodward, editor associado do jornal "Washington Post", famoso pelo caso Watergate, que levou à renúncia do presidente Nixon, vai fazer uma palestra sobre como repórteres e fontes atuam hoje, na era digital, em comparação à época em que sua principal reportagem foi publicada, no início da década de 1970, baseada principalmente em uma fonte anônima que só recentemente foi revelada ao público.

Ainda em plena atividade, Bob Woodward pode ser o exemplo do repórter que liga duas gerações, desde a cobertura do Watergate até a dos recentes movimentos de insurreição nos países árabes, período em que os instrumentos do jornalismo mudaram radicalmente.

A partir da experiência recente, em que documentos secretos são vazados pela internet e as fontes de informação ficam cada vez mais vulneráveis e expostas, alguns pontos fundamentais serão debatidos: o crescente número de plataformas alternativas pode garantir a proteção das fontes?

Jornalistas profissionais e os chamados "jornalistas cidadãos" podem trabalhar em conjunto? A legislação desenhada na era pré-digital está adequada às novas formas de reportagens e à necessidade de transparência?

Outro painel debaterá o papel da mídia tradicional e o da mídia digital na formação do cidadão do século 21, e até que ponto os novos canais de comunicação estão ampliando a liberdade de imprensa.

A censura na era digital será debatida em outro painel, promovido pela agência Associated Press, que reunirá quatro jornalistas de países que enfrentam ameaças à liberdade de imprensa com os governos utilizando-se das novas tecnologias para promover vigilância e ameaças digitais e outras formas de censura.

O painel será conduzido por Kimberly Dozier, um veterano correspondente internacional da AP e especialista em questões de segurança internacional.

Eu serei o mediador de um painel que debaterá o papel da mídia tradicional no novo mundo da informação.

Partindo do pressuposto de que a mídia tradicional, vista como uma plataforma multimídia, continua sendo uma importante distribuidora de notícias e informações, vamos debater como os jornais e as televisões estão integrando as novas tecnologias.

Katharine Zeleski, produtora-executiva para novos produtos digitais do "Washington Post", vai falar sobre a experiência de integração de mídias nos últimos tempos, e se essa operação afetou a qualidade dos serviços.

Mesfin Negash, da Etiópia, hoje trabalhando a partir da Suécia usando a internet e mídias sociais, vai falar de sua experiência de passar de uma publicação impressa para on-line, e como ele interage com etíopes em todo o mundo com sua publicação on-line.

Tatiana Tikhomirova, diretora-executiva de treinamento de mídia na Escola Superior de Jornalismo da Rússia, vai falar sobre como as novas mídias digitais e as novas plataformas de relacionamento social influenciaram o currículo das escolas de jornalismo na Rússia.

É possível ensinar princípios jornalísticos para estudantes que vivem num mundo em que o jornalismo é feito através de blogs? Como ensiná-los a incorporar valores que assegurem jornalismo de qualidade, com responsabilidade na checagem de informações no ambiente de blogs?

Outro debatedor será Larry Kilman, dirigente da Associação Mundial de Jornais e Editores (Wan-Ifra), que falará como os jornais associados estão se adaptando ao surgimento da era digital.

A experiência de editores na América do Norte e partes da Europa Ocidental, que sentem uma erosão na circulação paga dos jornais e a queda da receita publicitária, se repete em outras partes do mundo, ou poderá se repetir à medida em que as tecnologias de comunicação digital forem ganhando espaço?

A inflação no topo da meta JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS

O Estado de S.Paulo - 01/05/11

Em algum momento do início de maio a inflação vai ultrapassar o topo da meta, estabelecido em 6,5%. Mais do que isso, para a maior parte dos analistas e para nós, da MB, a alta dos preços vai seguir se acelerando até ultrapassar os 7% na metade do ano. Na verdade, a ultrapassagem do teto de 6,5% surpreendeu a todos, pois ocorreu antes do esperado, que era julho ou agosto.

Antes de prosseguir, gostaria de chamar a atenção para um ponto. Percebemos em várias manifestações uma tentativa de desqualificar a pesquisa Focus, que o Banco Central realiza semanalmente há muitos anos. Nela, mais de uma centena de bancos, analistas e empresas registram suas projeções e expectativas para a inflação e outras variáveis, com acertos e erros médios semelhantes às estimativas do Banco Central, como vários exercícios realizados por diferentes analistas mostraram.

No período recente, a pesquisa certamente estava correta, pois a inflação de fato vem se elevando de forma importante. Neste espaço, eu mesmo venho alertando desde agosto do ano passado (quando a inflação em 12 meses estava em 4,5%) que a inflação iria subir significativamente.

A pesquisa pode ser, sem dúvida, aprimorada, mas o que chama a atenção é a frequente sugestão que as projeções de inflação seriam sempre viesadas para cima, de sorte a influenciar na elevação da taxa de juros, beneficiando o sistema financeiro em detrimento do chamado lado real. Temos aqui uma má aplicação da teoria da conspiração, pois o que faz com que os bancos ganhem dinheiro, mesmo, é uma forte expansão da carteira de empréstimos, com baixa inadimplência, o que só ocorre quando a taxa de juros está caindo, e não se elevando. Basta olhar os dados recentes da relação crédito/PIB.

Voltando ao debate atual, este pode ser entendido a partir dos seguintes elementos:

1. Diagnóstico da inflação atual: desde julho passado, as autoridades insistem em declarar que a inflação brasileira é fruto apenas de uma elevação nos preços internacionais das commodities e apontam a estabilidade da utilização de capacidade produtiva como uma indicação da ausência de pressão da demanda, derivada do aquecimento da economia. Ora, sabe-se que a forte elevação das importações tem substituído em parte a produção nacional; confunde-se aí uma alteração na composição da oferta (via elevação das compras no exterior) com ausência de pressão da demanda. Esta pode ser facilmente vista no mercado de trabalho e em suas consequências, especialmente na forte inflação de serviços, que caminha para ultrapassar os 9% em bases anuais. A pressão dos serviços e a indexação, ainda existente na economia brasileira, junto com os preços de alimentos, petróleo e matérias-primas, explicam o esticão atual da inflação. Neste sentido, perde muita força o argumento, frequentemente utilizado, de que não teremos pressão na oferta, pois o BNDES vem financiando a expansão da capacidade. Ora, o banco faz muitas coisas, mas certamente não eleva a oferta de mão de obra nos volumes exigidos hoje pelo País. O problema, como se sabe, decorre das enormes limitações de nosso sistema educacional.

O diagnóstico das autoridades ainda deixa de observar a evidente modificação nas políticas de formação de preços na economia. Quando a inflação estava mais próxima da meta, o normal para as empresas era utilizar a política de preços como instrumento de competição e de reposicionamento de produtos. De um tempo para cá, o maior objetivo de muitos setores é repassar custos que têm subido muito aceleradamente. Disse-me um executivo de uma grande empresa que tomou um susto ao preparar a primeira versão de seu orçamento, pois todos os principais itens (salários, matérias-primas, logística, energia, etc) haviam subido mais de 8% durante os últimos 12 meses.

Os níveis relativamente elevados dos índices de difusão da inflação (que medem a cada mês quantas categorias de produtos têm se elevado em relação ao total) refletem, a meu juízo, uma piora na questão inflacionária. Tentei apontar neste espaço a impropriedade do diagnóstico das autoridades já em outubro do ano passado, quando concluí minha coluna dizendo que "o Banco Central ainda vai se arrepender amargamente por declarar vitória prematura no quesito inflação" e também em meu artigo no início de fevereiro.

2. Estrutura da política econômica: como se sabe, ela é constituída de três partes - uma proposta de corte de gastos de R$ 50 bilhões, a utilização de medidas macroprudenciais e uma elevação gradual da taxa de juros básica. Com esta estrutura, espera-se uma convergência para a meta de 4,5% em dezembro de 2012.

Existem, entretanto, várias dúvidas quanto à eficácia de tal arranjo. Em primeiro lugar, há poucas evidências de que o ajuste de despesas esteja mesmo sendo feito, como atestam as discussões com o Congresso quanto ao efetivo corte nos chamados restos a pagar. A despesa é mesmo rígida e o inchaço da máquina torna muito difícil qualquer economia significativa no custeio; como não se deseja reduzir o investimento, a meta fiscal fica mais uma vez, e sem surpresa, dependente da elevação de tributos, onde o IOF vai tendo papel crescente.

Em segundo lugar, existem sérias dúvidas quanto à eficiência das medidas macroprudenciais. Este conjunto de medidas, bem ao gosto do Brasil, nada mais é do que um novo nome para uma velha prática, o controle do crédito. Já vi em minha vida profissional várias rodadas destes controles: estes são em geral ultrapassados por novos tipos de operações ou pela reedição de práticas antigas. Por exemplo, cheques pré-datados e leasing não pagam o novo IOF.

O resultado, em geral, é o seguinte: os efeitos dos controles de crédito não só demoram muito a aparecer como também criam distorções. Para funcionar mesmo, só com doses maciças, o que termina com o que não se deseja, que é a redução drástica do crescimento.

3. Consistência de objetivos e expectativas: finalmente, o que fica claro das declarações das autoridades governamentais é que a política econômica atual tem muitos objetivos, sendo muitos deles conflitantes. O governo quer ao mesmo tempo: (I) trazer a inflação para a meta, mas manter o crescimento em 5%; (II) quer reduzir o aumento do consumo, mas manter os gastos com investimento, que, a despeito de seus efeitos positivos sobre a inflação no médio prazo, no curto prazo, implicam em aumento da demanda; (III) quer fazer ajuste fiscal, mas com cortes pequenos nas despesas de custeio e sem aumento nos impostos; (IV) quer controlar o crédito, mas de forma extremamente seletiva; (V) quer ainda evitar uma maior apreciação da taxa de câmbio. Enfim, uma tarefa impossível, cujo efeito na verdade é uma piora no ambiente econômico. Já vimos no passado, no período de alta inflação, que quanto maior a incerteza sobre o desempenho futuro da economia, menor é a eficiência da política monetária, pela maior utilização de mecanismos formais e informais de indexação.

Assim, controlar a inflação exigirá mais esforço e, antes de tudo, a aceitação, por parte das autoridades, de que não será possível controlá-la apenas com medidas pontuais ou de pequena envergadura, que não limitem de fato a expansão da demanda. Neste aspecto, uma política fiscal mais severa seria fundamental.

ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS

Livros aprovados pelo MEC criticam FHC e elogiam Lula-

Folha de S Paulo

Obras atacam privatizações feitas pelo tucano e minimizam o mensalão

Comissão formada por professores avalia os livros, que são usados por 97% das escolas da rede pública de ensino 

LUIZA BANDEIRA
RODRIGO VIZEU
DE SÃO PAULO 

Livros didáticos aprovados pelo MEC (Ministério da Educação) para alunos do ensino fundamental trazem críticas ao governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e elogios à gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Uma das exigências do MEC para aprovar os livros é que não haja doutrinação política nas obras utilizadas.
O livro "História e Vida Integrada", por exemplo, enumera problemas do governo FHC (1995-2002), como crise cambial e apagão, e traz críticas às privatizações.
Já o item "Tudo pela reeleição" cita denúncias de compra de votos no Congresso para a aprovação da emenda que permitiu a recondução do tucano à Presidência.
O fim da gestão FHC aparece no tópico "Um projeto não concluído", que lista dados negativos do governo tucano. Por fim, diz que "um aspecto pode ser levantado como positivo", citando melhorias na educação e a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Já em relação ao governo Lula (2003-2010), o livro cita a "festa popular" da posse e diz que o petista "inovou no estilo de governar" ao criar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.
O escândalo do mensalão é citado ao lado de uma série de dados positivos.
Ao explicar a eleição de FHC, o livro "História em Documentos" afirma que foi resultado do sucesso do Plano Real e acrescenta: "Mas decorreu também da aliança do presidente com políticos conservadores das elites". Um quadro explica o papel dos aliados do tucano na sustentação da ditadura militar.
Quando o assunto é o governo Lula, a autora -que à Folhadisse ter sido imparcial- inicia com a luta do PT contra a ditadura e apenas cita que o partido fez "concessões" ao fazer "alianças com partidos adversários".
Em dois livros aprovados pelo MEC, só há espaço para as críticas à política de privatizações promovida por FHC, sem contrabalançar com os argumentos do governo.

MENSALÃO
Já na apresentação da gestão Lula, há dois livros que não citam o mensalão.
Em "História", uma frase resume o caso, sem nomeá-lo: "Em 2005, há que se destacar, por outro lado, a onda de denúncias de corrupção que atingiu altos dirigentes do PT, inúmeros parlamentares da base do governo no Congresso e alguns ministros do governo federal".
Folha não conseguiu falar com os autores da obra.
Uma das críticas feitas a Lula é o fato de ter continuado a política econômica do antecessor.
Os livros aprovados pelo MEC no Programa Nacional do Livro Didático são inscritos pelas editoras e avaliados por uma comissão de professores. Hoje, 97% da rede pública usa livros do programa.
São analisados critérios como correção das informações e qualidade pedagógica. As obras aprovadas são resenhadas e reunidas em um guia, que é enviado às escolas públicas para escolha dos professores.

OUTRO LADO

Ministério da Educação diz que adota critérios técnicos para aprovar obras

DE SÃO PAULO

O Ministério da Educação não comentou o tratamento dado a FHC e Lula nos livros.
Em nota, listou os critérios técnicos que usa para aprovar os livros, como o que veta obras que "fizerem doutrinação religiosa ou política".
A autora Joelza Ester Rodrigues, do livro "História em Documento", da editora FTD, afirmou que seu livro é imparcial.
Ela disse que detalhou as alianças com "conservadores" só no caso de FHC porque o contexto do livro deixa pressuposto que os "partidos adversários" aos quais o PT se aliou também eram conservadores.
A Abril Educação, que controla as editoras Ática e Scipione, afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que tem uma "política voltada à pluralidade de seus autores e à independência e excelência editoriais".
O professor Claudino Piletti, coautor do livro "História e Vida Integrada", da editora Ática, concorda que sua obra é mais favorável ao governo Lula. "Não tem o que contestar", afirmou.
Ele disse que é responsável pela parte de história geral da obra e que a história do Brasil ficou a cargo de seu irmão, Nelson Piletti, que está na Itália e não foi encontrado pela reportagem.
À Folha Claudino disse que critica o irmão pela tendência pró-Lula e vai tentar convencê-lo a mudar a obra.
"Não dá para ser objetivo. O professor de história tem suas preferências, coloca sua maneira de pensar. Realmente ele [Nelson] tem esse aspecto, tradicionalmente foi ligado à esquerda e ao PT", afirmou Claudino.
A reportagem não conseguiu encontrar até o encerramento desta edição autores de três obras das duas editoras: "História", "Projeto Radix - História" e "História em Projetos". A assessoria da Abril Educação não forneceu os contatos deles.

Melhor seria se não começasse- FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/05/11

ESTOU COMEÇANDO a ficar grilado com os inícios de ano. Até recentemente, não me preocupava com isso. Cheguei mesmo a escrever um poema em que dizia não ver, nas estrelas do céu nem nas coisas do chão, qualquer sinal de que um ano novo começa. E concluía: "Começa como a esperança de vida melhor / que entre os astros não se escuta nem se vê / nem pode haver: / que isso é coisa de homem / esse bicho estelar / que sonha e luta". Coisa de poeta, porque, na verdade, como vim a perceber depois, todos os anos, passado o Réveillon e o Carnaval, começam brabos: é IPTU, é IPVA, é declaração de Imposto de Renda, é aumento de mensalidade do plano de saúde e o mais que nem se espera!

Este ano, além de tudo o mais, decidiram atormentar-me com o plano de saúde conhecido por Geap. Uma tortura! Por isso, embora ainda estejamos em abril, penso que, findo este, outro ano começará -e entro em pânico. Vou ter que enfrentar tudo isso de novo?
Vejam como as coisas mudam para pior. Antigamente, ao ver terminar o ano, enchia-me de otimismo. E não só eu, tanto que desde que me entendo, ouço dizerem: "Ano novo, vida nova". Pode até ser, mas, antes de começar a vida nova, caem-me na cabeça as mesmas velhas aporrinhações.
Devo admitir que os problemas se tornam piores por culpa minha. Não sou um bom exemplo de organização, além do mais, confio na lógica, uma lógica que seria favorável a pessoas como eu, não muito afeitas à burocracia.
E assim é que, de repente, recebo uma intimação da Receita Federal para ir lá comprovar o que declarei no Imposto de Renda. Os carnês do plano de saúde estão no envelope, não tenho que me preocupar, mas há duas outras exigências, relativas a dependentes, cujos documentos sumiram. Depois de buscá-los, inutilmente, no envelope onde guardei a declaração, decidi procurá-los em outros envelopes, depois em outras gavetas, depois pela casa inteira. Nada. Estou frito, concluí.
Bem, esse problema está em aberto, espero que não me metam no xadrez. Minha sorte é que conto com a boa vontade das pessoas que me atendem. Não obstante, o estresse me domina.
E me domina porque, como se não bastasse, sumiu também o boleto do IPTU da garagem (como meu edifício não tem garagem, comprei uma vaga na garagem mecânica, aqui perto). E o boleto sumiu. Dano-me a procurá-lo, resmungando, por todas as gavetas. Pergunto à faxineira, que me olha espantada. IPTU? Que diabo é isso?
Deito-me no sofá para relaxar. E eu recebi mesmo esse boleto? Vou até a garagem: o boleto estava lá, à minha espera. Coisa que só acontece no começo do ano, quando nos cobram IPTUs, IPVAs... IPVA?! Acho que não paguei o IPVA do carro! A placa termina em zero, vai ver que o prazo já venceu! Se venceu, como vou fazer a vistoria? E, sem vistoria, não vou poder andar com o carro. Era só o que me faltava!
Telefono para o Detran e recebo uma boa notícia: o prazo foi ampliado, posso ir ao banco e pagar o IPVA. Aliviado, dirijo-me à agência bancária mais próxima e pago o IPVA no caixa eletrônico, que emite um recibo. Bem, agora é só marcar a vistoria.
Ligo para o Detran, dou o número da placa e do Renavam. "O IPVA de 2011 não está pago, meu senhor." Como não está pago, se acabo de pagá-lo e tenho comigo o recibo? O funcionário me aconselha a ligar para a Receita Estadual, mas, após 50 inúteis tentativas, decido ir ao banco e descubro que o valor do IPVA não foi abatido em minha conta, ou seja, o caixa eletrônico me enganou: fez que pagou e não pagou.
Como estão vendo, em começo de ano, comigo acontece de tudo. Fui ao guichê, paguei, peguei o recibo mas continuei receoso; mas, no dia seguinte, pude marcar a vistoria. Aquela noite, dormi em paz. Mas foi só aquela noite, porque, no dia seguinte, chegou a carta do Geap, convocando-me a comprovar tudo o que já está lá comprovado há 30 anos. Fui e me deparei com uma fila sem fim. Deram a senha de número 898... E, como se não bastasse, leio nos jornais que a polícia apreendeu a carteira de motorista de Aécio Neves, por estar vencida. E a minha? Vou ver: venceria em três dias!
Não haveria um jeito de, daqui para a frente, nenhum outro ano começar?

Aeroportos - uma política maiúscula--SUELY CALDAS

O ESTADO DE SÃO PAULO - 01/05/11


Dois anacrônicos dogmas ideológicos do Partido dos Trabalhadores (PT) foram derrotados nos últimos dias: a presidente Dilma Rousseff decidiu privatizar aeroportos e o Banco Central restabeleceu a taxa Selic como principal instrumento de controle da inflação.


No caso dos aeroportos, a realidade nocauteou o preconceito: o Estado não tem dinheiro nem a Infraero tem competência para tocar as obras. Essa estatal passou oito anos do governo Lula desperdiçando dinheiro público com desvios e roubalheira, e o pouco que sobrou para os aeroportos foi usado em maquiagens grosseiras que não ampliaram a capacidade de operação nem melhoraram a qualidade dos serviços.


Já a direção do Banco Central, com a nova postura de aliada do ministro da Fazenda, Guido Mantega, incorreu em erro estratégico de gestão macroeconômica, ao jogar para escanteio a política de juros e priorizar as "medidas macroprudenciais" de restrição ao crédito, esperando efeito sobre a queda do consumo. Nem arranhou. A demanda continua forte, porque o comércio ampliou o número de prestações para fazer caber seus valores no orçamento das famílias.


Obrigado a recuar e reconhecer que a clássica arma de manejar juros funciona com mais eficácia para conter a inflação, o Banco Central promete agora um longo período de aumentos da taxa Selic.


Esses deslocamentos confusos da política monetária transmitem dubiedade, insegurança, indecisão e são prato cheio para o mercado financeiro especular, prejudicando o percurso da inflação. Situação própria de um governo que quer fazer omelete sem quebrar ovos, reduzir a demanda sem abalar a geração de empregos.


Como reagirá agora o quixotesco Guido Mantega? Vai brigar com o Banco Central, como fazia na época de Henrique Meirelles? Ou aplaudir a elevação da Selic nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom)? A ver.


Aeroportos. É uma tarefa fácil e rápida constatar a incompetência da Infraero. Nos oito anos de governo Lula, ela se especializou em fraudar com dinheiro público e degradar a qualidade dos serviços em aeroportos. A CPI do Apagão Aéreo apurou práticas de superfaturamento com desvios de R$ 254 milhões em obras no aeroporto de Guarulhos (SP); R$ 52 milhões em Macapá (AP); R$ 41 milhões no terminal Santos-Dumont (RJ); mais R$ 28,4 milhões em Salvador (BA); e R$ 12 milhões em Congonhas (SP). O Tribunal de Contas da União (TCU) constatou irregularidades em contratos que somaram R$ 3 bilhões. Foram oito anos de gestão do PT na Infraero, muito dinheiro desperdiçado e nenhum diretor punido ou responsabilizado judicialmente.


A Infraero não serve mais e a presidente Dilma Rousseff sabe disso. Em reuniões internas, ela tem criticado duramente as últimas gestões desastradas da empresa e repetido não temer greves de funcionários contra a privatização. Depois de oito anos em que a empresa foi comandada por políticos, Dilma escolheu agora um técnico para dirigir a Infraero. Funcionário de carreira e ex-diretor de Liquidação do Banco Central, Gustavo Vale entrou prometendo abrir o capital, demitir 1,2 mil de um total de 11 mil funcionários e fazer dela uma estatal eficiente. Conseguirá? Há quem não acredite. Os governadores do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e de Minas Gerais, Antonio Anastasia, por exemplo, querem a Infraero bem longe da gestão dos aeroportos em seus Estados.


Ainda é desconhecido o que fará a Infraero nos cinco aeroportos que serão privatizados (Guarulhos e Viracopos, em São Paulo; Confins, em Minas; Galeão, no Rio; e o de Brasília). O ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, diz que a ideia é o consórcio privado que realizar as obras dividir com ela a administração de grandes terminais.


Dificilmente empresas com experiência em dirigir aeroportos na Alemanha, Espanha e França e candidatas às licitações terão interesse em partilhar a gestão com uma estatal com o histórico da Infraero. Apenas imaginar a confusão criada pelo duplo comando e métodos de ação tão diferentes faria empresas de grande porte e experiência no negócio desistirem antes da licitação. Muito menos elas aceitarão ter seu capital investido remunerado com aluguéis de lojas nos terminais.


O maior atrativo para quem está nesse negócio não é explorar lojas, mas as receitas pagas por empresas aéreas pela permanência de aeronaves em solo e cobradas dos passageiros nas taxas de embarque.


Por enquanto, falar sobre o modelo de gestão dos terminais que se tornarem privados é especular. O BNDES trabalha na definição de regras para os editais de licitação e a presidente Dilma dará a palavra final. Ao governo interessa tocar as obras com dinheiro privado, pressa, eficiência e qualidade de resultados.


E, para atrair empresas privadas capacitadas a atender a tais requisitos, o governo terá de aprender com experiências de outros países e avançar para um modelo vantajoso para as empresas, para o governo e para os usuários de aeroportos.


O presidente da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês), o italiano Giovanni Bisignani, defende a privatização por meio de concessões, mas com um órgão regulador forte e independente para evitar a prática de monopólios e que onere muito o usuário.


Uma alternativa seria conceder a gestão aos consórcios privados em troca de indenização financeira ao Estado, em sistema de outorga, e o cumprimento de certas exigências, como metas de investimentos futuros na melhoria dos serviços, enquanto durar o prazo de concessão. Como ocorreu e ocorre no setor de telecomunicações.


À Infraero caberia fiscalizar a operação das empresas privadas e reforçar a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) na concepção de regras de regulação, atuando como um braço da Anac em cada aeroporto. Aqueles funcionários operacionais indispensáveis para fazer funcionar os terminais poderiam, por exigência do edital, ser transferidos para as empresas que vencerem as licitações.


O governo precisa pensar não em remendos para a Copa de 2014, mas numa política maiúscula, com regras duradouras que façam do investimento uma constante, não um episódio de urgência. O apagão aéreo é uma ameaça que cresce continuamente. Nos últimos três anos o número de passageiros que circulam em aeroportos brasileiros cresceu nada menos do que 60%, e em 2011 serão 180 milhões/ano. Quantos serão no pico da Copa?

A escorregadia "partícula de Deus" MARCELO GLEISER

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/05/11


Volta e meia os boatos que falam de uma descoberta do bóson de Higgs correm o mundo, mas tudo indica que ele ainda nos escapa 


OS FÍSICOS de partículas estão mais uma vez em alvoroço. Duas semanas após ter escrito aqui sobre a possibilidade de uma nova força da natureza ter sido encontrada no Fermilab, rumores de que a famosa partícula chamada Higgs foi achada no LHC (Grande Colisor de Hádrons, gigantesco acelerador de partículas localizado nos arredores de Genebra,na Suíça) vêm circulando pela mídia.
Um relatório interno escrito anonimamente por alguém da equipe do detector Atlas, do LHC, menciona um sinal estranho nos dados, relativo a uma massa 115 vezes maior que a de um próton. 
A atenção dada ao relatório é exagerada. Um porta-voz do Cern, o laboratório onde fica o LHC, disse a uma agência de notícias que "provavelmente não é nada". 
Primeiro, queria contar a história por trás do desafortunado nome "partícula de Deus". Como alguns leitores devem saber, "A Partícula de Deus"é onome de um livro de divulgação científica escrito pelo físico vencedor do Nobel Leon Lederman, que foi diretor do laboratório americano Fermilab durante anos e meu chefe quando eu fazia meu pós-doutorado por lá. 
De acordo com Leon, ele queria chamar o livro de "Partícula Maldita"(do inglês "Goddamn Particle"), pois ninguém conseguia achá-la. Mas seu editor sugeriu que "Partícula de Deus" venderia muito mais. Por razões óbvias,o nome vingou. 
É claro que a partícula não tem nada de divino.Obóson de Higgs, como é propriamente chamado, é uma partícula hipotética cuja função é dar massa às outras partículas do Modelo Padrão, que reúne tudo o que sabemos sobre a matéria. 
Talvez essa função dê ao Higgs certa influência.Mas não lhe confere divindade. Peter Higgs é o físico escocês que, nos anos 1960, desenvolveu várias ideias ligadas ao mecanismo em que uma partícula confere massa a todas as outras. 
O bóson de Higgs é a peça que falta No Modelo Padrão. Daí o enorme interesse em achá-lo. Se você procurar no Google por "Higgs found" (Higgs encontrado), verá que volta E meia esses boatos ocorrem. Mas, antes que você acuse os físicos de partículas de serem pouco sérios, é importante entender como funciona essa comunidade.
A World Wide Web (o célèbre "www" da internet) foi inventada no Cern exatamente para facilitar a comunicação rápida entre os físicos. 
Experimentos em aceleradores de partículas envolvem milhares de cientistas e engenheiros. Portanto, quando um sinal (esperado ou surpreendente) surge, o entusiasmo cresce rápido: é inevitável evitar que a informação, mesmo prematura, acabe vazando.
Seria um alívio encontrar finalmente o Higgs. Desde que comecei minha carreira, venho editando sua massa nas equações que descrevem a infância do universo. Graças aos esforços dos cientistas do Fermilab e do Cern (que incluem muitos brasileiros), temos uma boa ideia de qual deve será sua massa do Higgs. 
Basta encontrá-lo. Ou não. O Modelo Padrão pode estar nos contando apenas parte da história ou, quem sabe, o Higgs pode não existir. Afinal, a natureza pouco liga para as nossas ideias, mesmo quando as achamos belas demais para estarem erradas. Os dados é que vão decidir isso.

GAUDÊNCIO TORQUATO - O bullying na política

O Estado de S.Paulo - 01/05/11

O estilo é a marca principal do político, a estética de sua ação. O senador Roberto Requião que o diga. Faz do estilo montaria de batalha. São muitos os episódios em que o ex-governador do Paraná aparece dando vazão a um repertório de manifestações, gestos e atitudes que dão realce a um ator cujo desempenho poderia surpreender o renomado mestre da arte teatral Constantin Stanislavski. Pois Requião "vive" intensamente o papel, não fica na mera interpretação. Daí parecer autêntico, sem meias palavras, despachado, um cabra da peste. Como um dândi no meio da plantação, chama a atenção pelo prazer de espantar as mais distintas plateias. O senador cultiva o hábito de guerrear com palavras e acaba borrando a imagem com tintas da polêmica. O recente episódio em que tomou o gravador de um repórter que lhe perguntara sobre a aposentadoria vitalícia ocorreu para se defender de uma imprensa "absolutamente provocadora e irresponsável", a quem acusa de praticar bullying. O conceito, como se recorda, ganhou ênfase no meio da discussão provocada pelo assassinato de 12 crianças numa escola de Realengo, no Rio de Janeiro. Trouxe à tona a história do assassino Wellington Menezes, que, em carta, lembrou os atos de violência psicológica a que foi submetido quando estudante naquele estabelecimento.

O tema está na ordem do dia dos educadores, pela gravidade que tem assumido nos espaços escolares. Puxá-lo, agora, para a arena política e, mais ainda, pela expressão de um senador da República é um ato que carece fundamentação. A intenção de Requião ao acusar a imprensa de praticar bullying seria mero artifício para justificar a "perda de paciência", caracterizada pelo gesto de arrancar o gravador das mãos do repórter (e depois devolvê-lo sem a gravação), ou ele está mesmo convencido de que jornalistas e programas, como os citados CQC e Pânico, invadem a esfera pessoal de entrevistados com "doses de provocação", praticando, por conseguinte, violência psicológica? A expressão senatorial não se sustenta. Confunde escopos. Programas humorísticos não são eixos centrais da imprensa. Suas funções essenciais são as de informar, interpretar e opinar. Entreter é uma função secundária. Quando um jornalista perquire um mandatário sobre patrimônio, proventos, benesses, prêmios, viagens, ações, gestos e atitudes, ele o faz porque tal acervo é de interesse daqueles que ele representa. O homem público precisa prestar contas de todos os atos que, de forma direta ou indireta, têm relação com os bens e valores da República.

Pelo que se sabe, a entrevista com o senador versaria sobre sua aposentadoria vitalícia, garantida por uma liminar que, posteriormente, foi revogada pelo Tribunal de Justiça do Paraná. O tema, portanto, era pertinente, eis que a aposentadoria vitalícia, prevista pela própria Constituição federal, deverá ser objeto de apreciação pelo Supremo Tribunal Federal. Sob esse prisma, não se justifica o rompante agressivo do ex-governador. Não se tratava, pois, de abordagem humorística, e sim de pauta jornalística. Um alto representante congressual não pode deixar de discorrer sobre assunto de significação social e muito menos "perder a paciência" com repórteres provocativos. Provocar, aliás, é um verbo conjugado pela missão investigativa da mídia. Vejamos, agora, a questão sob o ângulo do entretenimento, pois tanto o senador Requião quanto outros políticos e celebridades carimbam certos programas de humor como "excrescência, apelativos e constrangedores". O entretenimento, como se sabe, faz parte do menu da comunicação de massa. Levado ao território dos olimpianos - artistas, cantores, políticos, famosos em geral -, incorpora condimentos azeitados com aspectos da vida pessoal. Não raro os entrevistados passam por uma bateria de perguntas embaraçadoras, sarcásticas e, convenhamos, insultuosas em certos casos.

Neste ponto, convém lembrar que o universo das celebridades - incluindo os políticos - cultiva certo gosto pelo dandismo, e este estilo afetado cai bem no perfil de atores do teatro midiático. Não são poucos os que apostam no preceito de que serão mais festejados e glorificados ao "se fazerem notar a qualquer preço". Tal noção lhes impõe uma estética exuberante (indumentária chocante) e uma semântica estrondeante (estrupícios linguísticos). Celebra-se, assim, um casamento de conveniências, o que dá "liberdade" a determinados programas de TV às tais "provocações" - com derrapadas pelo terreno da infâmia - e consequentes conflitos entre as partes. Não raro ocorre interpenetração dos espaços dos verbos "zoar, gozar, tirar sarro, brincar, ironizar" e dos corredores dos verbos "discriminar, humilhar, ofender, agredir, perseguir, ameaçar".

O bullying político, a que se refere o senador, estaria no segundo território. Para se caracterizar como tal, porém, a violência psicológica sobre o político deveria conter o elemento repetição, ou seja, a vítima deveria ser submetida a frequente assédio pelos algozes. Nossas vítimas políticas seriam sempre as mesmas? E mais, no bullying os indivíduos intimidados ou agredidos pelo valentão (bully) não são capazes de se defender. Valentia por valentia, como se pode ver, Requião é mais campeão. Se alguém não desejar responder às "provocações" de um repórter, o silêncio é também uma forma de expressão.

Quem se sente atingido na honra pode apelar aos tribunais. São inúmeros os casos de pessoas que recorrem à Justiça para se defenderem de calúnia, injúria e difamação. Já o bullying nas escolas de nosso país deve ser matéria prioritária de educadores, governantes e políticos. A humilhação infligida a milhares de crianças ensombrece nosso amanhã pela ameaça de termos parcela de uma geração atrofiada pela violência física e psicológica.

Por último, seria conveniente que os tocadores da banda midiática que assedia celebridades e políticos usassem a régua do bom senso.

DANUZA LEÃO - O casamento, ainda

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/05/11

Que os Windsor se comportem normalmente e não lavem sua roupa suja em público ou confessem traições na TV


SE HOUVESSE UM programa de TV tipo perguntas e respostas para falar sobre qualquer detalhe do casamento de William e Kate, eu me candidataria. Tem sido um tal bombardeio de notícias que me considero uma expert no assunto.
As TVs mostraram todos os casamentos, desde o da mãe da atual rainha como também aqueles de que já havíamos esquecido. Alguém lembrava do da princesa Margaret com o fotógrafo Armstrong Jones? Do da princesa Ann com o capitão Philips? Esses, e todos os outros, acabaram em divórcio, menos o do irmão mais moço do príncipe Charles, Edward, que ninguém nem lembrava que existia.
Na última semana devo ter visto o casamento de Diana umas 250 vezes, e me pergunto se, na época, alguém achou bonito seu vestido. Era horrendo, e a noiva, gorduchinha, nem sombra da mulher radiosa que viria a se tornar. Mas de tudo o que eu vi, o que mais me espantou foi a entrevista de um namorado de Diana, Charles Ewitt, que merece o título de o cafajeste do século.
Com o maior cinismo, ele contou como o romance havia começado, detalhes da relação amorosa dos dois e até a mãe dele deu o ar de sua graça -ele tinha a quem sair. Os dois falaram de Diana como não se fala de nenhuma mulher; nenhuma, muito menos de uma princesa real.
Ok, Diana era estilosa e tonta, e ainda casada, confessou, também pela TV, não só que tinha tido um caso como que, na época, era apaixonada por ele; em suas próprias palavras, "I adored him". Nós, pobres mortais de um país descoberto há apenas 511 anos, temos como norma não escrita, mas obedecida pela maioria, que desses assuntos não se fala publicamente; homens, sobre seus romances, menos ainda, muito menos quando a mulher é casada. Foi demais.
Esse Ewitt era um gentleman que frequentava a nobreza, cobrou uma grana para dar a tal entrevista e, não contente, tentou (não sei se conseguiu) vender as cartas que havia recebido de Diana por milhões de libras.
No festival sobre os Windsor, que rendeu a semana toda, teve também a cena gravada -igualzinha às de nossos políticos recebendo dinheiro- de Sarah Ferguson, aquela ruiva que foi casada com o príncipe Edward, fechando um negócio de 500 mil libras para levar um grupo escuso a conhecer seu ex, o que facilitaria uma tenebrosa transação, quanta baixaria.
Kate é simpática; não é bonita -é bonitinha- e vamos ver em que tipo de mulher vai se transformar quando desabrochar. E é sincera: não esconde, em nenhum momento, o quanto está apaixonada, o quanto está feliz.
Além da torcida normal, para que sejam muito felizes, vamos torcer também para que a casa real se livre dessa nuvem negra em que viveu anos -chamada, pela rainha, de "annus horribillis"; que os Windsor passem a se comportar como pessoas normais, que não lavam sua roupa suja em público, nem confessam suas traições pela TV.
Para isso deve ajudar, e muito, o sangue de Kate, que não é azul, mas vermelho, como o de uma pessoa de carne e osso; como o de uma pessoa normal.

JOÃO UBALDO RIBEIRO - Somos todos comida

O ESTADO DE SÃO PAULO - 01/05/11

Depois da notícia de que, ao fim de prolongado debate jurídico, foi negado por um tribunal o habeas-corpus impetrado em favor de um chimpanzé enjaulado em solidão no Zoológico de Niterói, vieram ao conhecimento público outras providências judiciais em nome de animais, pelo Brasil afora.

Isso está ficando interessante. Antigamente, era fácil dizer que os animais não tinham direito nenhum, pois não são sujeitos de direito, não são pessoas, não podem acionar o poder judiciário, da mesma forma que não têm deveres, nem podem ser interpelados pela justiça. Direitos e deveres são província exclusiva do ser humano e, embora isso não soe bem, um cachorro, por exemplo, não tem o direito de não ser maltratado. O homem é que tem o direito de estabelecer em lei que maltratar um animal é criminoso e de protestar e intervir, quando a lei for descumprida.

Mas vivemos tempos mais complexos e em transformação quase frenética. As crenças antes estabelecidas e praticamente unânimes hoje mudam o tempo todo, somos intimidados pelas descobertas da física quântica, as certezas se tornam indagações e a eventual sensação de que ninguém sabe nada é inevitável. Já há quem sustente que pelo menos os chamados animais superiores, como o mencionado cachorro, têm consciência e emoções. Os donos de cachorros frequentemente acham que estes pensam, raciocinam e comunicam seus pensamentos, só faltando mesmo falar. Logo, têm direitos e talvez a única coisa que lhes negue a condição de sujeito de direito seja a circunstância de que a linguagem do cachorro ainda não tem tradutores oficializados. Mas talvez passe a ter no futuro e alguém venha a dizer que o Rex está se sentindo prejudicado pelo seu dono e quer constituir advogado, para o que aplicará a impressão de sua pata em uma procuração.

De certa forma, isso já começa a acontecer, como demonstra o caso do habeas-corpus do chimpanzé. Seus advogados inferiram que, sem companhia e encarcerado, o chimpanzé é infeliz e consegue comunicar que, sim, gostaria de ser transferido para uma moradia condigna. Considerando a maravilhosa diversidade do ser humano, acho que, a partir desse precedente, viremos a testemunhar ações movidas não somente por cachorros, gatos, peixes de aquário e outros animais domésticos, mas também, antecipo eu, por bois de corte ou por frangos para abate. Não descarto até mesmo a possibilidade de medidas contra o que certamente se chamará "zoofobia", em cuja ilícita prática serão enquadrados, por exemplo, os que usarem as palavras "galinha", "vaca" ou "cadela" com intenção pejorativa.

A situação deverá evoluir, em futuro talvez não muito distante, para o estabelecimento dos níveis de consciência das espécies e a consequente maior ou menor abrangência de seus direitos. Não é descabido imaginar a promulgação de uma Declaração Universal dos Direitos dos Cães, ou do Estatuto do Gato e assim por diante, cada um deles definindo os critérios aplicáveis a cada espécie. É complicado, porque, por exemplo, o direito de latir, certamente parte indissolúvel da liberdade de expressão canina, pode conflitar com o direito ao silêncio de um vizinho humano, o que requererá imaginação e engenho da parte de legisladores e magistrados.

Questões éticas e morais, filosóficas mesmo, terão que ser encaradas, por mais incômodas que sejam. O morcego, em muitos casos inofensivo, amante das frutas e polinizador de pomares, pode ser discriminado apenas por ter, na opinião da maior parte das pessoas, uma aparência assustadora ou repulsiva? Nos desenhos animados e historietas infantis, serão adotadas quotas para a inclusão de animais normalmente marginalizados, a exemplo de lacraias, lesmas e piolhos? Aliás, é um direito do piolho infestar cabeleiras improdutivas e sugar uma cesta básica de sangue? Estará sujeito à acusação de omissão de socorro aquele que negar a uma futura mamãe mosquito da dengue o direito a uma picadinha que a ajudará a perpetuar sua espécie?

De propósito, deixei para o fim o direito mais básico, o direito à vida. Sem ele, evidentemente, os outros perdem o sentido. Pensando nele, argumentam os que se negam a consumir qualquer produto de origem animal.

Nossa comida deveria ser apenas a que se consegue obter sem destruir nenhuma vida, nem mesmo, talvez, a das plantas. Nós somos os reis da Criação e não podemos agir como predadores.

Nós somos, isso sim, os reis da presunção. Imaginamos que a nossa moral é a moral da natureza, como se a natureza tivesse moral. Na natureza, continua um alegre come-come por tudo quanto é canto, um comendo o outro afanadamente, às vezes até de forma surpreendente, como no caso de um pelicano londrino que vi na Internet. Esse pelicano, em seu andar balançado na grama de um parque, viu e fingiu nem notar um pombo a seu lado. Mas, num movimento rapidíssimo, engoliu o pombo, que ficou se agitando dentro daquele papo enorme, sem chance de escapar. Se as pessoas presentes à cena fossem do tamanho de pombos, o pelicano sem dúvida as comeria também, porque é assim a natureza. Nós achamos que somos os grandes comedores, só porque, do nosso ponto de vista, ocupamos o topo da cadeia alimentar.

Ocupamos nada. Cada um de nós, mesmo os que não portam parasitas, é hospedeiro de uma infinidade de "ecossistemas", para não falar nos muitos animais que, por exemplo, vivem do sangue de mamíferos, inclusive nosso.

Nós somos os favoritos de nós mesmos, não da natureza. Nossos corpos, biodegradáveis como são, para outras espécies não passam de simples comida e, homens, bichos ou plantas, a Terra acabará digerindo todos nós.

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