Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, abril 27, 2011

Visão parcial MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 27/04/11

O governo tem um diagnóstico parcial da inflação e todos, inclusive o
Banco Central, estão incentivando uma perigosa interpretação de que a
inflação subiu no mundo inteiro e que o Brasil não está tão mal assim.
Parecem não ter entendido que o país tem uma história diferente na
relação com esse problema. Não demonstram perceber o risco da
reindexação.

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e o ministro Guido
Mantega estavam completamente afinados, mas quem mudou o discurso foi
o BC para afinar o coro com a Fazenda; quando o ideal é que houvesse
sim um coro afinado, mas com a Fazenda entendendo mais decisivamente a
parte que lhe cabe nesse combate, que só funciona em várias frentes.

Para o ministro da Fazenda, "o Brasil não está mal na foto" quando se
trata de inflação. A taxa está no teto da meta e vai superá-la em
breve, mas a "foto" que ele se refere é que relativamente a outros
estamos bem. Tombini tombou na mesma direção e deu números em
transparências que mostravam os outros: Reino Unido, 4%; Índia, 8,8%;
China, 5,4%. Vários países com metas explícitas já ultrapassaram a
meta. Outros, sem metas, estão com taxas altas.

- A inflação é tema de debate internacional. Nos nossos encontros de
banqueiros centrais é assunto recorrente - disse Tombini.

Essa ideia de que se os outros podem, também podemos, elide o fato de
o Brasil ter convivido por 30 anos com uma superinflação indexada, e o
risco é fortalecer os mecanismos de indexação ainda presentes. Tombini
apresentou um mapa-múndi com todos os números e cores para confirmar o
diagnóstico de que é um fato mundial. Admitiu que há "outros
componentes", como uma inflação de serviços, mas que também seriam
"comuns a outros países emergentes", que retomaram o crescimento mais
rapidamente e por isso têm uma inflação maior.

O diagnóstico não está errado, mas é parcial. Ao ser parcial, pode
errar no remédio. Houve aumento forte nos preços das commodities após
a crise de 2008, puxado principalmente pelo crescimento da China e
afetado por problemas climáticos. Mas não é só isso que explica a alta
de preços. No Brasil, ela foi alimentada com aumento forte do gasto
público, incentivo ao crédito e ao consumo que não foram suspensos no
momento certo, por motivos políticos. O país já havia saído da
recessão, mas o governo por imprudência ou cálculo político manteve os
gastos e os incentivos fiscais em 2010.

O ministro Guido Mantega disse que o governo fez "uma redução
significativa" dos gatos públicos e deu os números: as despesas
aumentaram 19,3% em 2010 e vão aumentar 7,1% este ano. Trocando em
miúdos, o que o ministro está admitindo é que num ano em que o país
crescia fortemente, ele estava fazendo uma política pró-cíclica,
elevando as despesas em quase 20%. Aumentar gasto em ano de crise, faz
sentido; mas quando a economia já está acelerada, é uma forma de
contratar mais inflação. Em 2011, as despesas serão maiores do que as
do ano passado em outros 7,1%. "Não devemos poupar armas, devemos usar
todas as armas possíveis contra a inflação, sejam monetárias ou
fiscais", disse Mantega. Palavras fortes, mas que não convencem quando
se comparam com os dados que eles mesmos divulgam. O governo fará
superávit primário porque está arrecadando mais e não por corte de
gastos. Apenas o ritmo de crescimento das despesas é que foi reduzido.

A ideia de que o atual grupo no poder é inventor de uma nova fórmula
econômica atravessou o governo Lula e continua sendo proclamado pela
presidente Dilma.

- Nós todos aqui presentes sabemos que o Brasil passou e passa por um
novo momento na sua história. Nós mudamos, de fato, os caminhos do
desenvolvimento. Quando nós assumimos, de uma forma muito especial, a
convicção de que não havia contradição entre desenvolvimento
econômico, distribuição de renda e inclusão social, nós mudamos os
caminhos que o país tinha traçado até então - disse a presidente.

Isso fica ótimo em campanha eleitoral, mas dado que ela já nos governa
há quatro meses pode restabelecer a verdade histórica. Quem dizia que
havia essa contradição - e que era preciso fazer o bolo crescer para
depois dividir - era o então ministro, hoje aliado do governo, Delfim
Netto, nos anos 70. Não foi o governo atual, nem o de Lula, que
inventou a inclusão. Basta olhar as estatísticas de redução da pobreza
pós-estabilização e qualquer economista constatará que o círculo
virtuoso começou na estabilização. A inflação, como se sabe, tem o
poder perverso de tirar renda exatamente de quem tem menos. Por isso,
não se faz distribuição de renda em meio à inflação alta, o que a
torna o grande inimigo de qualquer projeto de inclusão.

Para ficar claro que o governo atual tem a mesma visão partida da
história recente do Brasil, o presidente do Banco Central, Alexandre
Tombini, começou sua explicação com uma série de dados bons que chamou
de "conquistas da sociedade brasileira nos últimos dez anos." Então
fomos informados de que a virtude começou há dez anos. Pena que esse
tempo não inclua um dos momentos importantes do processo que foi a
introdução da política de metas de inflação em 1999, na qual Tombini
teve participação.

A nova classe de partidos médios - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SÃO PAULO
PSD, afundação tucana e agonia do DEM não são a "crise da oposição",
mas o fim de um ciclo na política


AGORA É moda se ocupar da "crise da oposição". Mas ora se trata mais
de derrocada do que de crise.
O desmanche ficou apenas evidente devido a acontecimentos como o
partido de Gilberto Kassab (PSD), os estertores do DEM-PFL, a
afundação da refundação do PSDB, o estupor causado pelo artigo de FHC
sobre a desorientação tucana e, enfim, a turumbamba municipal do PSDB
paulistano. A crise mesmo começara em 2002, 2003.
Já no primeiro mandato do governo Lula, o PFL (hoje DEM) começou a se
desmanchar. Entre um terço e um quarto dos seus parlamentares aderiram
aos partidos governistas. O PSDB sangrou menos, mas sangrou. A
debandada parecia, ou talvez fosse mesmo, a debandada típica dos
períodos de troca de governo.
Poderia ter sido esse o caso se a oposição tivesse algum projeto para
2006. No caso, o projeto poderia ser apenas do PSDB, pois o DEM-PFL
jamais conseguiu nem ao menos passar-se uma maquiagem de "direita
orgânica".
Mas o PSDB não tinha projeto. Esperava que o governo caísse de podre,
mas não teve coragem de dar um piparote na podridão quando a
oportunidade apareceu, na crise mensaleira, na segunda metade de Lula
1 (2005-2006). Tucanos e a elite que jamais tolerou Lula não tiveram
coragem de enfrentar o lulismo-petismo. Ficaram com medo das ruas.
A oposição não teve o que dizer mesmo em 2006, quando o crescimento
econômico era pequeno e o governo estava na lama. Renegou o governo
FHC. Não tinha discurso, programa, base social. Não inventou quadros
ou lideranças novos. Seus líderes mais jovens e potenciais candidatos
a presidente são vácuos em termos intelectuais e políticos.
A oposição teve ainda menos o que dizer depois do "milagre do
crescimento", dos anos de PIB melhorzinho (mas inédito), da inflação
baixa e da "pax luliana", os variados acordos de Lula, pactos que
ofereciam de benefícios sociais vários a grandes subsídios a empresas,
passando pela trégua com a finança e pela reorganização da propriedade
da grande empresa.
Essa foi a crise. Mas a crise acabou. O que se chamava de oposição
praticamente desapareceu. O PSDB e seu possível enxerto marginal, o
DEM, correm o risco de se tornarem apêndices da "oposição intestina".
Isto é, o grupamento de partidos que cava favores em governos: PMDB,
PSB, PDT, PSD, PTB etc.
Apesar do esvaziamento ideológico e político do PSDB, trata-se do
único partido relevante que ainda tem trejeitos de oposição: não está
no governo e, em tese, ao que parece, não concorda com o modo petista
de governar e pensar. Mas, de tão vazio de ideias e conexões sociais e
políticas, por ora resta-lhe apenas a esperança de que o governo Dilma
dê com os burros n"água. Que perca o controle da inflação e/ou tenha
de recorrer a um arrocho forte a fim de evitar tal descontrole. Isso
ou uma crise internacional horrível.
A isso chegamos.
Curioso é que o PT também corre riscos nesse processo de cristalização
de agências de fisiologia que são os partidos da "base governista".
Sob Lula 1 e agora, o PT evitou receber adesistas. Terceirizou o
inchaço do governismo por meio de partidos de aluguel. Agora, pode
ficar muito menor que o conjunto das suas criaturas, a "nova classe de
partidos médios", e que o PMDB.

Gol contra - ALEXANDRE SCHWARTSMAN

Folha de S. Paulo - 27/04/2011

A indexação voltou a fazer parte das preocupações da sociedade (e do
Banco Central) neste momento

Em seu excelente livro, "Sob a Lupa do Economista", Carlos Eduardo
Soares Gonçalves e Mauro Rodrigues relatam um estudo de Luis Garicano
e Ignacio Palacios-Huerta avaliando a eficácia da regra que passou a
premiar a vitória no futebol com três pontos em vez de dois.
A motivação por trás da mudança era bastante simples: ao elevar o
retorno da vitória relativamente ao empate, a Fifa pretendia estimular
o jogo ofensivo e, portanto, a média de gols por jogo (aqui tomada
como medida de qualidade do esporte).
Garicano e Palacios-Huerta, no entanto, comparando jogos do campeonato
espanhol (em que pontos ganhos determinam o campeão) a jogos da Copa
do Rei (onde pontos são irrelevantes), não conseguiram achar
diferenças significativas no número de gols por partida.
A explicação para esse comportamento reside, como de hábito, na
estrutura de incentivos. Embora haja estímulo adicional para buscar o
gol quando o jogo está empatado, a partir do momento em que um time
abre o placar os incentivos se alteram: agora o custo de sofrer o
empate é a perda de dois pontos, ante a perda anterior de apenas um
ponto.
Assim, times que saem na frente tenderiam a abandonar a estratégia
ofensiva mais frequentemente sob a nova regra relativamente à antiga,
hipótese que não é rejeitada pela evidência.
Ainda que isso pareça mera curiosidade, a lição não poderia ser mais
clara. Os agentes, sejam times de futebol, empresas ou trabalhadores,
não ficam passivos face a alterações no ambiente institucional (as
"regras do jogo"); pelo contrário, adaptam-se a elas de maneiras
muitas vezes imprevistas, não raro frustrando seus objetivos
originais.
Tal lição se torna ainda mais importante à luz da discussão recente
sobre os mecanismos de persistência da inflação que vem ganhando força
nos últimos meses.
Depois de passar um longo período relativamente ausente, esse tema
retornou ao debate no começo de 2011 numa intensidade não vista desde
1999 (superando, inclusive, o observado em 2008). Forma-se um consenso
de que a indexação, problema que se acreditava superado, voltou a
fazer parte das preocupações da sociedade (e do Banco Central) neste
momento.
Invoca-se a "cultura da indexação" e outras explicações de cunho
sociológico (ou psicológico) para esclarecer o fenômeno, mas a verdade
é que, fosse essa a razão última para tal comportamento, ele não teria
perdido importância no passado, nem ganhado relevância ultimamente.
É mais provável que possa ser explicado, como no exemplo acima, pela
reação dos agentes ao perceberem a mudança nas "regras do jogo", no
caso, no próprio comportamento do Banco Central no que se refere a seu
comprometimento com a meta de inflação.
De fato, a percepção de que o Banco Central tende a acomodar os
desvios da inflação com relação à meta, estendendo o período de
convergência, é equivalente à noção de que a política monetária
permitirá maior persistência da inflação.
Não é absurdo, portanto, que, dada essa informação, os agentes
econômicos se adaptem ao novo ambiente, trazendo de volta as práticas
de indexação características de um passado nem tão remoto (e, diga-se,
a regra para o reajuste do salário mínimo também fornece um exemplo
nada virtuoso no que se refere a esse tema).
Em outras palavras, as dificuldades para a política monetária que
advém das práticas de indexação de preços e de salários não caíram do
céu, mas resultam precisamente da percepção de maior permissividade do
Banco Central relativamente à inflação.
Não fosse isso ironia suficiente, sabe-se também que, na presença de
indexação, são maiores os custos para reduzir a inflação em termos de
perda de produto. Ou seja, para não pagar hoje os custos do ajuste,
elevam-se os custos à frente, e não será surpresa caso esses sejam
invocados no futuro como motivo para estender adicionalmente o prazo
de convergência.
Não há mudança de regra que justifique gol contra.

Discordância e democracia - ROBERTO DaMATTA

O Globo - 27/04/2011

Um dos textos mais perturbadores que li não foi escrito por um
dramaturgo, mas por A. R. Radcliffe-Brown, um importante antropólogo
de Oxford cujo projeto era uma contradição em termos: construir uma
ciência natural da sociedade humana. Ao discordar de um dos seus
professores e verificando que a sua dissociação era irremediável,
mestre e discípulo chegaram a um acordo paradoxal: concordaram em
discordar.

Achei fantástico esse negócio de poder concordar em discordar quando
todo o meu aprendizado acadêmico (e cultural) era o de concordar a
despeito da discórdia! Esse apanágio dos autoritarismos e do processo
paralelo de se sentir culpado que nasce quando somos corrigidos porque
discutimos com Tio Amâncio, cujo lema era: "Ler demais produz parafuso
de menos." Eis uma frase que certamente acolhi. Os Amâncios têm muita
razão e exatamente por isso merecem ser contestados. E o Brasil não
tem oposição porque, entre outras coisas formais (reformas disso ou
daquilo), falta-nos a índole individualiista-igualitária baseada não
no egoísmo, mas na aceitação da discordância.

Eliminar a opinião divergente tem como principal aliada a
internalização da culpa. Quem não percebeu aquele olhar que se segue a
um "casual": "Eu sei o que anda aprontando..." Ou quando o puto do
diretor nos manda morder a língua insinuando que teríamos falado dele
"coisas terríveis". O medo do inquérito ou - quem não lembra? - da
denúncia. Eis um modo de governar por meio da culpabilização de todos
contra todos, produzindo o que, em outro contexto, Hobbes chamou
(porque ele pensava que todo mundo nasce com 20 anos) de Leviatã, só
que, quando não se trata de interesses, mas de culpa, temos uma
"harmonia" cujo centro está no recalque e no dogma da transparência
absoluta que suprime o direito à autonomia e à prerrogativa de ser
diferente num universo de iguais. O que nos leva de volta à lindeza
democrática de concordar em discordar.

Algo que eu chamaria de compreensão amorosa. Esse gesto fundado no
paradoxo posto por algum outro situado fora ou dentro de cada um de
nós. O desviante tomado como traidor pode também ser um guia porque
enxergou o que ninguém viu. A literatura de Kafka é anterior às
considerações de Max Weber sobre a dominação burocrática. Do mesmo
modo que o Thomas Mann de "José e seus irmãos" antecede as
fundamentais considerações críticas de Louis Dumont sobre o indivíduo
e o individualismo como invenções culturais. E não foi por acaso que
Freud leu tanto Dostoievski quando estudou os danos nascidos quando
uma emoção troca de lugar com outra.

Seria preciso invocar Jesus Cristo, que, no seu acordo diante da
dissonância, pediu perdão por todos nós que rotineiramente o
assassinamos de vários modos, inclusive por meio da intolerância
religiosa? Dele foi a proposta da doutrina paradoxal de amar a puta a
ser apedrejada e de dar outro lado da cara, ainda intacta, para as
devidas bofetadas.

Qual a vantagem de, agora sim, amar um Brasil governado pelo meu
partido? Seria amor ou obrigação o resultado do mandamento que exige
honrar pai e mãe? O respeito é algo que chega de fora para dentro,
como ocorre no amor aos ditadores e nas concórdias políticas sem
oposição e com vantagens financeiras, como ocorre hoje no Brasil, ou
algo que decorre da compreensão?

Essa compreensão que exige a dissonância e o insólito. O não previsto
que jaz em todo planejamento humano justamente porque o
verdadeiramente humano é uma caixa de surpresas da qual escapolem a
decepção, a frustração e a perda: esses alicerces da vida. A
individualização precisa do seu contrário a ser obtido na relação e na
visão do todo que permite a discórdia positiva. O retorno do limite.

Quando um professor diz a um aluno: eu e você podemos concordar em
discordar, ele permite que o aluno possa ser um pouco aplicado e um
pouco vadio; que ele seja um tanto submisso e um outro tanto
insubmisso; que ele seja apaixonado e, ao mesmo tempo, capaz de ver
algumas coisas com objetividade. A objetividade que não leva à forca é
a que está dentro de cada um de nós. É preciso aprender a discordar
para poder dialogar positivamente com os personagens que habitam
nossas almas. Não sei se Fernando Pessoa, poeta, foi capaz de realizar
isso, ele que em toda a história da literatura foi tanta gente,
conforme reafirma o admirável livro de José Paulo Cavalcanti Filho.

Mas sei que pessoas e sociedades incapazes de dialogo interno, por
mais doloroso que isso possa ser - vejam o Japão e a Alemanha
aprendendo liberalismo democrático depois da derrota de 1945; vejam os
Estados Unidos produzindo toda uma literatura e uma arte contra o
capitalismo e agora mesmo dando uma nota baixa à sua dívida -, jamais
alcançam o cerne do ideal democrático. Eis um ideal somente alcançável
pela capacidade de discordar de si mesmo como rotina, como eu - réu
confesso - tenho feito desde que cheguei neste triste e miserável
mundo de todos os deuses (e de todos os diabos)...

Malha fina eleitoral - Dora Kramer

O Estado de S. Paulo - 27/04/2011


O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Ricardo Lewandowski,
recebeu ontem e encaminha hoje à Procuradoria-Geral da República e aos
tribunais regionais eleitorais informações da Receita Federal sobre as
doações de pessoas jurídicas e físicas às campanhas eleitorais de
2010.

Os dados mais relevantes dizem respeito às doações de pessoas
jurídicas: de um universo de 20 mil doadores, quatro mil ultrapassaram
o limite permitido por lei que é o de 2% do faturamento bruto da
empresa no ano anterior à doação. No caso de pessoas físicas, o limite
é de 10% do rendimento bruto do contribuinte.

O TSE não revela ainda quais os candidatos beneficiados, mas sabe-se
que na malha fina estão campanhas federais e estaduais - de presidente
a governadores, senadores e deputados.

Tanto doadores quanto receptores ficam, a partir do momento em que as
informações chegarem ao Ministério Público, passíveis de processos. As
empresas podem ser multadas no valor equivalente ao mínimo de cinco e
ao máximo de 10 vezes a quantia excedente ao permitido por lei.

Além disso, podem perder o direito de participar de licitações e de
fazer contratos com o poder público pelo prazo de cinco anos.

Os candidatos beneficiados pelas doações ilegais podem responder a
processos por abuso de poder econômico, cuja pena máxima é a cassação
do registro da candidatura e consequente perda de mandato com
suspensão do direito de se candidatar por três anos.

Nos próximos dias, quando as informações já estiverem em poder da
Procuradoria-Geral e dos TREs, será possível conhecer os detalhes do
material encaminhado pela Receita ao TSE.

Os processos judiciais demoram, mas não custa lembrar que recentemente
houve punições por abuso de poder econômico com a cassação do mandato
de prefeitos, vereadores e governadores.

O trabalho conjunto da Receita Federal com a Justiça Eleitoral pode
não solucionar definitivamente o problema de ilegalidades nas doações
de campanha, mas de todo modo ao menos cria um espaço crítico para a
dissolução do nefasto dogma segundo o qual nesse setor a infração é a
mãe da necessidade, todos fazem e, por isso, a prática deve ser
aceita.

Fogo fátuo. Assunto encerrado: a ideia de se promover uma fusão entre
PSDB e DEM está fora de cogitação pelo menos até a eleição de 2012.

Depois que o senador Aécio Neves, inicialmente um defensor da fusão,
declarou nesta semana que o melhor é preservar a aliança, mas
conservar a independência das legendas, o plano foi abandonado e as
especulações devidamente desautorizadas.

A fusão vinha encontrando pesadas resistências no PSDB, notadamente
entre os políticos ligados ao ex-governador José Serra devido à
rejeição a uma convivência sob o mesmo teto com o ex-presidente do
DEM, deputado Rodrigo Maia, visto como um fator permanente de
desestabilização da candidatura Serra durante a campanha presidencial.

Havia também problemas regionais que impossibilitariam a parceria de
grupos antagônicos, como os dos deputados ACM Neto (DEM) e Jutahy
Magalhães (PSDB) na Bahia, do governador Marconi Perillo (PSDB) e do
deputado Ronaldo Caiado (DEM) em Goiás e de Onyx Lorenzoni (DEM) e
Yeda Crusius (PSDB) no Rio Grande do Sul. Nenhum deles entregaria nem
se submeteria ao comando do adversário.

Isso, para citar só alguns casos, já levaria a nova formação a iniciar
os trabalhos em ambiente de pesados atritos.

Nenhuma vantagem, portanto, principalmente para os tucanos cuja crise
interna é grave, mas não tão periclitante quanto a situação do DEM.

Os democratas, por sua vez, perderiam o tempo de televisão a ser
negociado das eleições e, mais importante, estariam abrindo mão do
fundo partidário de R$ 12 milhões até 2010 e de R$ 20 milhões para
este ano. Soma considerável para ser desprezada assim de uma hora para
outra.

A desistência do projeto de fusão produz um momento de rara unidade no
PSDB que enfrenta uma péssima fase em São Paulo fonte de sua principal
força política há 16 anos.

O que interessa é carne no prato e farinha na cuia - José Nêumanne

O Estado de S. Paulo - 27/04/2011

O ovo de Colombo do marketing político mundial foi posto de pé pelo
americano James Carville. Responsável pela campanha de Bill Clinton à
presidência dos Estados Unidos, ele fez o candidato movimentar os
lábios sem pronunciar a frase que atravessaria o planeta como um
mantra: "É a economia, estúpido!" No caso de nações ricas, como a
dele, a leitura labial da palavra economia lembra pleno emprego,
tecnologia de ponta, alta produtividade, etc. Mas no de países
emergentes, como o nosso, poucos desses fatores têm a importância de
um só - a inflação. A perda do valor de compra da moeda, que significa
menos proteína (e, com o passar do tempo, menos comida em geral) na
mesa do trabalhador, e o retardamento da girândola faz-vende-compra
que Fernando Henrique pôs para rodar e seu sucessor, Luiz Inácio Lula
da Silva, usou com sabedoria para evitar que o tsunami da crise
imobiliária americana chegasse a nossas praias tropicais, tornando-o
"marolas", devem ser evitados a todo custo.

O ex-presidente tucano promoveu a maior revolução social de nossa
História recente com a solução genial do Plano Real para acabar com a
deterioração do salário do operário. Ao envergar a faixa que era do
antigo aliado transformado em adversário preferencial, o petista
mostrou ter aprendido a lição ao traduzir para o "popularês" as
fórmulas sofisticadas dos economistas que elaboraram a receita mágica
da preservação do valor do dinheiro em seus inacessíveis idioletos
acadêmicos. O sucesso da economia no mandarinato petê-lulista muito se
deveu à profusão de fatores positivos nos oito anos de sua duração,
dos quais se costumam destacar a conjuntura internacional muito
favorável e o magnífico desempenho da agroindústria nacional. Nada
disso, contudo, produziria o efeito espetacular que se traduziu em
crescimento acima do esperado e prestígio político inusitado para o
chefe do governo se este não tivesse dado demonstrações firmes e
perseverantes de sensatez ao não deixar a herança do antecessor se
dissolver na balela desenvolvimentista de muitos de seus
interlocutores. Como Fernando Henrique manteve Pedro Malan, Lula nunca
permitiu que fosse perturbada a rigidez dos preceitos liberais
clássicos que conduziram sua política econômica sob a batuta de
Henrique Meirelles.

Muita gente boa (inclusive o autor destas linhas) tem manifestado
encantado júbilo com as diferenças de estilo entre a presidente Dilma
Rousseff e o patrono que a inventou, lançou e elegeu. Como Lula falava
pelos cotovelos, a boca fechada de Dilma faz soar uma melodia que nem
sequer João Gilberto seria capaz de entoar melhor. O primado dos
direitos humanos na política externa e a postura serena e digna no
convívio com visitantes estrangeiros e visitados no exterior também a
têm favorecido nessa comparação. Mas é provável que Dilma Rousseff -
logo ela, a "gerentona" impecável, a cobradora implacável - desafine
justamente na nota só do samba que sustenta a escala da economia. É
isso mesmo: a inflação. Guido Mantega, um zero à esquerda no governo
anterior, parece, de repente, ter sido deslocado para a direita;
Alexandre Tombini dista anos-luz de seu antigo chefe; e o desfile
parece descambar na desarmonia total.

O Tyrannosaurus rex da inflação dá sinais de que pode estar
despertando do sono letárgico produzido pelas doses de realismo
monetário injetadas entre suas escamas por Malan e Meirelles. Há uma
certa tendência no Ministério da Fazenda e até mesmo no novo Banco
Central a desdenhar do risco do despertar do monstro, com aquela
conversinha para boi dormir da inflação importada, produzida apenas
pelos fatores sazonais das safras agrícolas com consequências na
produção de alimentos. Por mais que o boi durma, o dinossauro
inflacionário zomba desse tipo de soporífero e já afia suas garras. O
diagnóstico da autoridade monetária é parcial, como insiste em mostrar
a coleguinha Miriam Leitão. "A economia vai bem, a inflação assusta e
a política monetária parece ter produzido pouco resultado até agora",
resumiu magistralmente o companheiro Rolf Kuntz.

De Lula podia-se dizer que não fazia, só falava. Isso não significa
necessariamente que, só por não falar, Dilma faça. Nunca antes na
História deste país houve um político profissional que falasse tanto,
embora não fizesse na mesma proporção, como o ex-dirigente sindical
metalúrgico. Parte considerável de seu êxito eleitoral nas três
últimas eleições federais, duas vitórias dele e uma de sua candidata
tirada do nada, deveu-se à sua capacidade de se comunicar com o
brasileiro do roçado, da favela, da cozinha e do quarto de empregada.

Mas de nada lhe teria esse talento notório valido se não fosse o bom
senso de não transigir quando se tratou de manter a política econômica
de pé sobre os pilares dos templos do satanizado neoliberalismo. Ele
falava de futebol, bajulava o amigo persa Mahmoud Ahmadinejad, não
dava ouvidos a quem ridicularizava suas tiradas autoindulgentes e
desdenhava de quaisquer críticas, catalogadas em seus arquivos
particulares como intrigas da oposição. E se garantiu no topo da
popularidade enxotando a golpes de pragmatismo o corvo inflacionário.
Mas trouxe-o de volta anabolizando gastos públicos para eleger Dilma
Rousseff.

Esta começou a semana dizendo: "Todas as nossas atenções estarão
voltadas para o combate acirrado à inflação". Mas de prático nada faz
para impedir que riscos de corrosão do valor da moeda rondem os lares
pobres. De acordo com a pesquisa do boletim Focus, divulgada pelo
Banco Central, a expectativa para a inflação oficial continua distante
de 4,5%, o centro da meta, flutuando de 6,29% para 6,34%.

Já é mais do que hora de ela passar de boas intenções à ação oficial,
adotando medidas que ponham de novo o monstro para dormir. Agirá muito
melhor se se preocupar menos com a Copa de 2014 e mais com a inflação:
mais valem carne no prato e farinha na cuia do que bola na rede.

A festa e a conta - Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo - 27/04/2011


A economia brasileira continua em festa, e a conta, naturalmente, vai
subindo. A inflação passa de 6% e pode superar o limite da banda
oficial, 6,5%. Nas contas externas, o déficit em transações correntes
bate recordes - US$ 5,7 bilhões em março, US$ 14,6 bilhões no primeiro
trimestre e US$ 50 bilhões em 12 meses. A atividade cresce, as
empresas lucram, os juros permanecem altos e a inundação de capital
estrangeiro continua. Entraram US$ 42,6 bilhões entre janeiro e março,
em termos líquidos. Esse dinheiro bastaria para cobrir quase o triplo
do déficit em conta corrente do período. O investimento direto
estrangeiro, US$ 27,3 bilhões, foi o principal componente da enxurrada
financeira. Compensaria quase o dobro do buraco nas transações
correntes. Esse tipo de investimento, em geral considerado o mais
benéfico para a economia, deve chegar a US$ 60 bilhões em 2011,
segundo o governo. Pelos prognósticos oficiais, o setor externo
continuará seguro, o ajuste interno será conduzido gradualmente e no
fim do próximo ano a inflação estará no centro da meta, 4,5%. Tudo se
arranjará maciamente e sem dor.

Seria bom viver nesse mundo imaginado pelo ministro da Fazenda e por
seus colegas de governo. Mas o gradualismo, até agora, produziu pouco
ou nenhum resultado no combate à inflação. Ao contrário: os
indicadores só pioraram desde o trimestre final do ano passado. A
inflação tem um importante componente externo - as cotações das
matérias-primas, afetadas pela quebra de safras, pela forte procura
dos emergentes e pela crise no Oriente Médio. Mas quase dois terços
dos preços têm subido, no mercado brasileiro, e esse dado só é
explicável se for levada em conta a demanda interna muito forte. Essa
mesma demanda se reflete na expansão das importações. A valorização do
real sempre afetaria as contas externas, barateando os produtos
estrangeiros e encarecendo os nacionais. Mas não há como atribuir o
desequilíbrio na conta corrente só ao desajuste cambial, quando todos
os dados apontam para um mercado interno ainda muito aquecido.

O grande influxo de capital externo produz efeitos com sinais opostos.
Permite cobrir o buraco das transações correntes. Assim se acomoda
parte do excesso da demanda interna. Sem esse fator a inflação seria
maior. Mas essa mesma enxurrada financeira mantém o real valorizado e
mina o poder de competição dos produtores nacionais, pondo em xeque a
sobrevivência não só de uma ou de outra empresa, mas de segmentos
industriais.

Apesar do amortecedor propiciado pelas importações e pelo influxo de
capitais, a inflação permanece elevada e tende a crescer. O
gradualismo adotado pelo Banco Central (BC) desde o fim do ano passado
pode ser insuficiente para a contenção da alta de preços. Aumentos
maiores de juros poderão, no entanto, atrair volumes maiores de
dólares.

Os controles de capitais produziram efeito pouco sensível até o mês
passado. Neste mês, segundo o presidente do BC, Alexandre Tombini,
entradas e saídas estão empatadas - um sinal, segundo ele, da eficácia
das novas barreiras adotadas pelo governo. Pode ser, mas será
necessário algum tempo mais para se confirmar essa avaliação. Além
disso, controles de capitais nunca produzem mais do que efeitos
temporários. Essa tem sido a lição mais comum da experiência
internacional.

Fatores externos, como o baixo nível de atividade no mundo rico e o
excesso de dinheiro nos mercados podem explicar em parte o problema
cambial do Brasil. Fatores de atração, como o crescimento econômico, a
lucratividade empresarial e os juros altos também entram na conta. Mas
o dado politicamente mais importante é outro: o Brasil entrou na
armadilha cambial bem antes da crise, por causa da teimosia de um
governo disposto a gastar demais e acostumado a deixar ao BC o custo
do combate à inflação. O real já estava supervalorizado antes do
agravamento da crise em setembro de 2008. Só se depreciou por um
período muito curto. A deterioração da conta corrente havia começado
em 2007, foi contida por pouco tempo e acelerou-se quando a demanda
interna voltou a se expandir velozmente. Os números são claros.

Para tirar o País da armadilha, o governo terá de aceitar um ajuste
fiscal de verdade, muito mais sério que esse alardeado pelos ministros
da Fazenda e do Planejamento. Mas ninguém pode acreditar numa séria
intenção de austeridade quando lê, por exemplo, o projeto de Lei de
Diretrizes Orçamentárias. Quanto ao resultado obtido pelo governo
central em março, é insuficiente para confirmar a adoção de uma nova
política. Além de uma boa dose de seriedade fiscal, o governo
precisará cuidar para valer das condições de competitividade, passando
da conversa às ações concretas. O resto é espetáculo.

“Gente que mente”, de Eduardo Graeff

ARTIGO PUBLICADO NA FOLHA DE 20/04/2011

Vou andar com uma cópia do artigo que o senador Walter Pinheiro publicou aqui contra Fernando Henrique Cardoso ("O príncipe e o povo", 17/4/2011). Vai ser útil quando me perguntarem qual é, afinal, o problema do PT.

O grande problema é a desonestidade. Não falo só da corrupção desenfreada. Pior que isso, para mim, é a desonestidade intelectual: o uso sistemático da mentira como arma política. Este é o pecado original que inspira outros pecados do PT, idiotiza seus quadros, polui sua relação com os aliados, azeda o diálogo com adversários e o indispõe com a liberdade de imprensa.

O ataque do senador petista escancara esse problema. A leitura deturpada de um artigo de FHC ("O papel da oposição", reproduzido pela Folha.com em 13/4/2011) foi o pretexto do senador para martelar numa velha tecla: FHC não tem "sentimento de povo"!

O PT repete baboseiras como essa desde que escolheu FHC como inimigo. A escolha, como se sabe, deu-se em 1993. FHC pediu apoio ao PT para o Plano Real.

Em troca, o PSDB poderia apoiar Lula para presidente em 1994, como apoiara em 1989. O PT preferiu apostar contra o real. O plano deu certo, o PSDB lançou FHC para presidente e ele derrotou Lula no primeiro turno. Imperdoável!

Um erro leva a outros. Do Fundo Social de Emergência à Lei de Responsabilidade Fiscal, o PT se opôs a tudo que representou consolidação da estabilidade e modernização da economia no governo FHC.

Como se opôs a tudo que representou inovação das políticas sociais, do Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef) à Bolsa Escola, que Lula chamou de "Bolsa Esmola".

A inconsistência das "bravatas" ficou clara quando Lula chegou ao governo e abraçou as políticas de FHC. Isso não impediu Lula de inventar a "herança maldita". Nem impede o PT de atacar a sua caricatura de Fernando Henrique com tanto mais fúria quanto menos evidentes ficam as diferenças de suas políticas com as do FHC real.

Walter Pinheiro levou esse expediente ao nível do grotesco. Segundo ele, no governo FHC o povo "comia uma vez a cada três dias". Só foi comer três vezes por dia no governo Lula. Supõe-se que o povo foi votar em 1998 de barriga vazia.

Na verdade, reelegeu FHC porque queria manter as conquistas do real. Nos oito anos antes de FHC, o valor real do salário mínimo, roído pela inflação, diminuiu 36%; o valor das aposentadorias do INSS maiores que o mínimo diminuiu 56%. Nos oito anos de FHC, o salário mínimo teve aumento real de 44% e as aposentadorias tiveram aumento real de 21%.

Como se o repertório de mentiras do PT não bastasse, o senador desenterrou uma lorota de Jânio Quadros. Com um toque pessoal: a "arguição" a que o senador se refere, sobre onde fica Sapopemba, nunca ocorreu, porque Jânio fugiu dos debates com FHC. A frase colou pelo jeito histriônico como Jânio pronunciou "Sa-po-pem-ba".

Se ele sabia chegar lá, esqueceu como prefeito. O PT também. As grandes obras da prefeitura petista de São Paulo foram dois túneis malfeitos ligando os bairros ricos das margens do rio Pinheiros. E as palmeiras imperiais na frente do Shopping Iguatemi. Fino "sentimento de povo", com efeito.


terça-feira, abril 26, 2011

Feriadão denuncia falta de investimentos EDITORIAL O Globo

 26/04/2011

Engarrafamentos gigantescos no Rio de Janeiro e em São Paulo no movimento de retorno de veículos, ao fim do feriadão da Semana Santa, e caos em aeroportos da Região Sudeste, provocado por uma equação que juntava uma concentração - pontual mas previsível, por se tratar de um fim de semana prolongado - de passageiros com a falta de teto provocada por um temporal, voltaram a pôr em evidência a necessidade de o Estado investir, com urgência e de forma criteriosa, em obras de infraestrutura - e também abrir espaços para a livre iniciativa. São preocupantemente repetitivos os relatos de pessoas que ficaram retidas nas estradas ou enfrentaram sérios contratempos nos terminais aéreos (principalmente no Rio), como falta de informações, bagagens extraviadas ou voos perdidos, em razão do aparente despreparo das companhias e das administrações aeroportuárias diante de contingências determinadas pelo mau tempo. 

O país registra indicadores demográficos e econômicos que resultam em curvas crescentes no registro de carros, ônibus e caminhões em circulação nas ruas. A frota brasileira cresceu 8,4% em 2010. Em São Paulo, o sistema viário incorpora 20 mil novos veículos a cada mês; somente os automóveis que passaram a rodar nos últimos dez anos no Rio fariam uma fila do Maracanã ao Beira-Rio. E não há uma contrapartida em infraestrutura. No Rio, onde o aumento da frota é de 40% em dez anos, a última grande obra viária foi a Linha Amarela, inaugurada em 1997. 

O crescimento dos indicadores econômicos do país também se deu em desacordo com os investimentos no setor aeroportuário. Tarifas mais baixas, chamariz para uma faixa de menor poder aquisitivo da população, resultaram em aumento de mercado - consequentemente, em mais clientes nos balcões das companhias e em circulação nos aeroportos. No entanto, a administração dos terminais derrapa num tíbio programa de investimentos que não acompanha o aumento da demanda. Isso sem contar a opção ideológica de Brasília por formas anacrônicas de gerenciamento, com resistências de influentes áreas da base do governo à abertura da participação da iniciativa privada no controle dos terminais e com a manutenção do setor sob a influência clientelista do cardinalato companheiro. 

Nos dois mandatos de Lula, sobraram nomeações e faltou apetite político para investir em infraestrutura e na modernização da malha aeroportuária. O país não cabe mais na atual infraestrutura. Novos hábitos de consumo e mercado em expansão convivem com uma rede de estradas, aeroportos, etc. de um tempo em que o Brasil apenas almejava chegar aonde efetivamente chegou. 

Os constantes gargalos no trânsito e os repetidos apagões no sistema de transporte aéreo são inquietante e repetitiva prova disso. O caos deste fim de semana, que transformou em pesadelo a viagem de lazer de milhares de pessoas, deve ser analisado com seriedade. Tanto quanto devolver em forma de serviços eficientes aos cidadãos o que lhes toma pela malha tributária, o poder público precisa acordar para um futuro imediato que bate às portas do país - os dois grandes eventos esportivos de 2014 e 2016, de cujo sucesso os transportes são um dos pilares.

MIRIAM LEITÃO - Está quente


O GLOBO - 26/04/11

O secretário de Desenvolvimento do Rio, Julio Bueno, diz que recebe uma visita por dia de empresário anunciando investimento; o Instituto de Desenvolvimento do Varejo conta que as grandes lojas continuam com vendas aquecidas; a Zona Franca de Manaus continua trabalhando em ritmo acelerado; produtores de máquinas reclamam da concorrência chinesa.

A economia brasileira está com crescimento forte em vários setores mas está com problemas, em outros. O varejo continua dizendo que sente uma pressão forte da demanda; alguns segmentos industriais reclamam e reduzem investimento por causa do câmbio. Para saber se a economia está fria ou quente, não basta tomar a temperatura uma única vez. 

Uma das complicações é a comparação com anos anteriores. Este ano, o Carnaval foi em março, a Semana Santa, em abril. O economista José Roberto Mendonça de Barros disse que teve que tirar os efeitos sazonais dos dados e ponderar por dia útil. Assim, chegou à conclusão de que, apesar de se falar que está havendo desaceleração forte em automóveis, de janeiro a abril do ano passado houve 12.300 emplacamentos novos por dia; este ano, foram 12.200. Ou seja, praticamente não houve queda. A média de abril foi de 13.800: 

- Isso em parte é tocado pelo aumento de salário. O salário inicial do comércio subiu 10% real; o da construção civil, 6,6%. 

Ele constata nas conversas nas empresas e nos indicadores que o país continua crescendo. O IBC-Br, o índice de atividade econômica do Banco Central, por exemplo, teve alta de 1,3% no primeiro bimestre; o que anualizado dá 5% de crescimento. 

- Nós estamos mantendo a previsão de 4,5% de crescimento este ano - diz. 

Outros economistas e consultorias já fizeram revisão para níveis mais baixos, mas isso significa que o ritmo terá que cair muito nos próximos meses porque o ambiente parece aquecido para quem conversa com empresas do varejo. 

A diretora-executiva do IDV, Fabíola Xavier, disse que para o comércio o crescimento continua: 

- Houve uma pequena queda em março, mas o varejo continua crescendo numa média de 7%. Em geração de emprego, foi o melhor fevereiro desde 2003. Não chega a faltar produto, mas temos que correr para atender à demanda. E as empresas continuam abrindo lojas. 

Eu perguntei em que áreas, ela disse que em bens de consumo duráveis, informática, papelaria, vestuário. Setores em geral. 

Nas conversas entre o varejo e a indústria, no entanto, há muita reclamação sobre o câmbio. Várias empresas reclamam da dificuldade de competir com os importados. 

A agronegócio está entrando na safra em momento de alta de preços de diversas commodities. Soja, açúcar, café, carne, vários produtos estão subindo. O café está com o melhor preço desde 1975, segundo Mendonça de Barros. E a soja brasileira é beneficiada pela queda da produção da Argentina. Mas ontem mesmo a informação do pólo de colheitadeiras no Rio Grande do Sul era de que estavam começando as demissões pela dificuldade de competir com as máquinas importadas da China. 

O presidente do Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares de Manaus, Wilson Périco, contou que o setor está buscando alternativas ao fornecimento de peças do Japão, mas garante que até agora ninguém parou pela crise japonesa decorrente do terremoto, tsunami e desastre nuclear. Mas a Toyota anunciou ontem que vai parar temporariamente a produção no país durante uma parte do mês de maio. No mês passado, a queda da produção da empresa foi de 62%. Produziu no mesmo nível de 1976. 

Assim está a economia brasileira, com vários sinais contraditórios. O BC baixou medidas para conter o crédito, mas o consumidor enquanto pode continua comprando. Foi elevado o IOF nas compras a crédito, mas o brasileiro sabe muito bem como contornar esse obstáculo: compra nos cheques pré-datados. 

O presidente da Firjan, Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, disse que esteve recentemente com várias empresas e todos estão comemorando o ritmo. 

- Conversei com sete sindicatos do setor de metal-mecânico e todo mundo está sorrindo. Tenho falado com empresas do interior que estão fazendo investimento até em design de produto. Na Região Serrana atingida pelas chuvas as empresas pegaram empréstimos que esgotaram a linha de R$400 milhões oferecida a eles e estamos pedindo uma ampliação desse financiamento - diz o empresário. 

O mesmo otimismo que se vê em Julio Bueno sobre o crescimento do Rio: 

- Um dia, recebo a Rolls-Royce falando em investir aqui; no dia seguinte, a Nestlé avisa que pensa em se instalar em Três Rios; a Alpargatas quer vir para o Rio. Há 120 empresas candidatas ao nosso incentivo. Há muito interesse em instalação de térmicas a gás no Rio ou de instalação de empresas para fornecer para a Petrobras. Com o ciclo das commodities, o Rio se beneficia exatamente por ser um exportador de commodities. Isso sem falar nos eventos na cidade. Há 16 a 17 hotéis vindo para o Rio. 

Uma das vantagens que o Rio está tendo é com a alta do petróleo, porque a receita de impostos é derivada do preço internacional. O estado fez o orçamento com base em US$65 o barril e ele está chegando a US$130. 

Todas as pessoas com as quais falei ontem admitiram que um problema ronda todo esse bom momento: a inflação. Mendonça de Barros contou que recentemente uma empresa mostrou a ele todos os seus itens de custos. Todos haviam subido fortemente. Como há demanda para os seus produtos, ela repassará para os preços.

Fusão, prós e contras - Merval Pereira

O PSD do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, é ao mesmo tempo o
motivo para acelerar as conversas sobre a fusão do DEM com o PPS e o
PSDB e razão para adiar uma possível decisão. A aconselhar a pressa há
a cada vez maior sangria do Democratas, que teria seu ápice com a
provável saída de um de seus dois governadores, Raimundo Colombo, de
Santa Catarina, que seria seguido pelo clã Bornhausen.

A cautela advogada pelo grupo de líderes remanescentes do DEM tem como
razão principal não dar aos trânsfugas do PSD uma base jurídica para
justificar a mudança de legenda sem as dificuldades burocráticas da
criação de um novo partido.

Fora o fato de que uma possível fusão demandaria tempo para
composições regionais delicadas. A fusão do PL com o Prona, dois
partidos pequenos e nos quais não havia disputas regionais, demorou
seis meses.

Para que a fusão possa vir a acontecer, é preciso que tanto o
Democratas quanto o PSDB alcancem um consenso sobre a tese. O assunto
está em cogitação, mas não está na ordem do dia, na definição do
presidente do DEM, senador Agripino Maia.

Como a fusão de partidos autoriza a mudança de legenda, Maia considera
que o passo estaria dando chance a que os que querem sair dos partidos
em que atuam se abriguem em pequenos partidos que depois o PSD
"adquiriria", queimando as etapas difíceis que eles terão pela frente,
como conseguir as 500 mil assinaturas em vários estados que precisam
apresentar para criar o novo partido.

Mas talvez não haja tanto tempo assim, já que o governador de Santa
Catarina tem pressa para uma definição. Ele ainda não anunciou
formalmente sua saída do DEM, mas já trata do assunto.

Esteve, em companhia do ex-senador Jorge Bornhausen, conversando com o
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre seus próximos
movimentos.

O governador colocou o desejo de continuar com um partido de oposição,
mas que tivesse uma nova configuração, que tivesse futuro.

Bornhausen diz que não participará de fundação de partido algum, mas
dará seu apoio ao governador Colombo, e seu filho, o deputado federal
Paulo Bornhausen, já declarou que seguirá a liderança de Colombo, que,
segundo relatou a Fernando Henrique, busca ter um discurso de futuro
para seu eleitorado e acredita que, fundando um novo partido, haverá
uma nova disposição.

A ideia preferencial era fazer o novo com a fusão com o PSDB e o PPS,
mas há resistências no DEM e também no PSDB, onde a crise tem
reflexos, com a debandada do grupo político que segue o prefeito
Kassab, que ganhou contornos políticos mais fortes com a saída do
secretário Walter Feldman, um dos fundadores do PSDB em São Paulo.

Na avaliação de Jorge Bornhausen, houve má administração da crise
política, o grupo do governador Geraldo Alckmin impôs soluções em São
Paulo ainda como rescaldo da eleição para prefeito em que Kassab o
derrotou.

A crise no governo paulista abriu espaço para o DEM. O senador
Agripino Maia, presidente do partido, vai hoje a São Paulo acompanhado
do ex-senador Marco Maciel e de Alexandre Morais, advogado
constitucionalista que será o presidente municipal do DEM, conversar
com o governador Geraldo Alckmin para fechar um acordo: o deputado
federal Rodrigo Garcia será o secretário de Desenvolvimento Social.

Os argumentos a favor da fusão dos partidos de oposição são fortes:
nasceria um partido com seis minutos de propaganda eleitoral na
televisão, que não dependeria de coligações, e haveria um fundo
partidário da ordem de R$60 milhões que daria um rendimento mensal
para poder fazer aquele exercício permanente de política sugerido pelo
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em seu polêmico artigo "O
papel da oposição" na revista "Interesse Nacional".

Os que são a favor da fusão acusam os atuais dirigentes dos três
partidos de não terem uma visão nacional da questão, permanecendo em
suas disputas regionais, sem querer ou poder conviver com seus
adversários nos estados: na Bahia, Jutahy Junior, do PSDB, não aceita
conviver na mesma sigla com ACM Neto; no Rio, o deputado federal
Arolde de Oliveira saiu do DEM e foi para o PSD porque não chegou a
acordo com os Maia, o ex-prefeito Cesar Maia e seu filho, o deputado
federal Rodrigo Maia.

Até o ex-governador José Serra disse que não poderia conviver no mesmo
partido com os Maia, após as crises que protagonizaram na campanha
presidencial passada.

Enquanto a direção nacional do DEM faz questão de identificar o futuro
PSD como um partido adesista, que vai reforçar a base política do
governo, os políticos que estão deixando diversas siglas para formá-lo
tratam de marcar uma distância do governismo puro e simples, afirmando
que não terão cargos na administração federal.

Mas admitem que o PSD vai apoiar em 2014 quem puder dar a ele uma
perspectiva de longo prazo em 2018.

A obstinação e a perseverança do prefeito Gilberto Kassab o colocaram
como uma figura política nacional, mas os seus antigos companheiros do
DEM preveem que neste primeiro momento ele e os que o acompanharam vão
enfrentar imensas dificuldades para registrar o partido.

São muitas as questões burocráticas que terão que ser superadas, e até
já existe um PSD registrado. Além do questionamento no Supremo sobre a
legalidade de os políticos levarem seus mandatos para o novo partido.

Na visão do senador Agripino Maia, a nova sigla será governista e
poderá sofrer o desgaste dos problemas que virão.

Maia prevê que a inflação vai recrudescer, tanto por problemas
internos de falta de controle do gasto público quanto por questões
internacionais que já afetam a Índia e a China.

Para ele, a luta agora da oposição é de preservação de tamanho,
apostando que terá seu momento.

O curioso é que, tanto para os que permaneceram no DEM quanto para os
que estão saindo para formar o PSD, o artigo do ex-presidente Fernando
Henrique é considerado um roteiro a ser seguido, uma bússola de
raríssima qualidade, um manual a ser consultado.

O que pode indicar que, a médio prazo, estarão todos juntos novamente,
desde que consigam superar suas idiossincrasias.

FONTE: O GLOBO

PSD é golpe na fidelidade partidária -O Globo - Editorial

Ponto vital em qualquer legislação sobre partidos, eleições e
políticos, a fidelidade partidária volta a dividir opiniões, com a
matreira criação do Partido Social Democrático, PSD, legenda de
conveniência para o prefeito Gilberto Kassab, eleito pelo DEM, evitar
o emparedamento entre o PT e o PSDB paulistas e se aproximar do
governo Dilma Rousseff.

A manobra de Kassab e aliados tem atraído vários demistas e serve de
pretexto para oposicionistas inseguros na oposição debandarem em busca
do remanso no bloco situacionista, num período em que o Planalto usa
sem cerimônia o poder para cultivar - e até tentar ampliar, como se vê
- a maioria parlamentar obtida nas urnas. A questão é saber se Kassab
e seguidores têm base legal para contornar o princípio da fidelidade
partidária, um dos pressupostos do sistema de representação política.
Ele já foi bastante frouxo no passado, quando, entre a contagem dos
votos e a posse dos parlamentares, a vontade do eleitorado era
transformada em farrapos por força da capacidade de atração de
prefeitos, governadores e do presidente da República. Era um gritante
estelionato eleitoral.

As normas ficaram mais duras, como devem ser, até que, ao responder a
uma consulta, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) admitiu a troca de
legenda, sem perda de mandato, por quem fosse participar da fundação
de uma nova legenda. De boa-fé, o tribunal entendeu que não fazia
sentido punir alguém contrariado pelos rumos ideológicos e políticos
de sua legenda e/ou por sofrer alguma perseguição no partido pelo qual
se elegeu.

Abriu, porém, a brecha para a má-fé. Ora, o PSD é ressuscitado - a
sigla foi criada por Getúlio para abrigar correligionários fora do
figurino trabalhista do PTB, também idealizado por ele - apenas para
atender à exigência da Justiça eleitoral. Um partido sob encomenda.

Com razão, o PPS, legenda também prejudicada pela esperteza engendrada
em São Paulo por quem deseja se aproximar do PT e da base do governo
Dilma Rousseff, protocolou no Supremo uma Ação Direta de
Inconstitucional (Adin) contra a acrobacia de Kassab e aliados.

Distribuída para o ministro Joaquim Barbosa, a ação se sustenta em
argumentação bem fundamentada: em 2007, quando o STF estabeleceu que
os mandatos são de propriedade dos partidos, e deixou a regulamentação
do veredicto para o TSE, não remeteu um "cheque em branco" para a
Justiça eleitoral. Entende o PPS que políticos podem abandonar um
partido para criar outro, mas continuam proibidos de levar na mudança
os mandatos. O problema se agrava quando é perceptível que o
ressurgimento do PSD visa a servir a projetos pessoais específicos.

Perguntado numa entrevista de rádio (Estadão ESPN) sobre o
posicionamento ideológico do novo partido, o prefeito de São Paulo
esbanjou subjetividade: "Ele não será de direita, não será de
esquerda, nem de centro", apenas contará com um "programa a favor do
Brasil". Nem contra, nem a favor, muito menos pelo contrário. Não se
nota mesmo qualquer forte justificativa para a Justiça permitir que a
fidelidade partidária seja atropelada nesse surto de adesismo surgido
em São Paulo.

De Londres, com amor JOÃO PEREIRA COUTINHO

FOLHA DE SÃO PAULO - 26/04/11
LONDRES - A cidade está um brinco. Não admira. Há casamento real na
sexta-feira. Ir ou não ir, eis a questão. Como agente infiltrado,
entenda-se.
Mas depois leio que o casamento começa de madrugada, por volta das
onze horas, e eu já não tenho vida nem idade para essas loucuras.
Além disso, os dry martinis do velhinho Dukes, meu sanatório há muitos
anos, não permitem ressacas simpáticas na manhã seguinte. O mais certo
era entrar na festa e apalpar a rainha. Ou a noiva. Ou, melhor ainda,
a irmã da noiva.

A irmã da noiva: quem disse que Kate Middleton era a beleza da
família? Não é. A beleza da família está com a irmã, diz-me Dimitris,
um barbeiro grego que opera em St. James há 37 anos.
Mas, antes de falarmos da irmã, falemos de mim. "Como é que você faz a
barba?" pergunta-me ele, tom inquisitorial, olhar nauseado.
Explico-lhe: lâmina de baixo para cima na zona da garganta; depois, de
cima para baixo no rosto.
Ele renega-me três vezes, como Pedro a Jesus Cristo, e depois
acrescenta, firme e ameaçador: "É sempre de cima para baixo, para
acompanhar o crescimento natural da barba!"
Registro, grato e trêmulo. Então ele coloca-me uma toalha quente e
umedecida sobre a cara, vai preparando a espuma e fala da irmã de
Kate. "Chama-se Pippa", diz-me ele, "e agora era o momento ideal".
Removo a toalha do rosto e pergunto, intrigado: "Ideal para quê?"
"Para atacar", diz-me ele, com a lâmina na mão. "Imagine só: a irmã
casa com o herdeiro do trono, e ela, a mais bonita, fica para tia?
Isso dá cabo de uma mulher, rapaz."
Bem pensado, Dimitris. Talvez eu vá mesmo ao casamento, se acordar a
tempo. Ou se você não me degolar primeiro.

Kate casa com o herdeiro do trono britânico. Mas nem sempre as coisas
foram róseas.
O casal, dizem os jornais, teve duas brigas feias no passado. E eu,
tomado por uma experiência digna de Proust, lembro-me bem da primeira
delas. Minto: lembro-me de um cartum a respeito na revista "The
Spectator".
Vemos uma Kate, chorosa, nos braços de uma amiga (ou seria a irmã?); e
a amiga, com verdadeira compaixão, consola-a com as seguintes
palavras: "Sim, ele pode ser jovem, lindo, obscenamente rico e o
herdeiro do trono. Mas você consegue melhor que isso!"
Eis o humor britânico: uma inaudita mistura de crueldade e nonsense
que podemos encontrar nos melhores. Em Jonathan Swift, Oscar Wilde,
P.G. Wodehouse; e, claro, nos Waugh -pai e filho.
Do pai Evelyn falarei um dia. Do filho Auberon falarei já na próxima
semana, até porque há livro novo aqui -uma antologia das suas crônicas
que pretende "resumir" o essencial do seu "pensamento".
Duvido que a mente deliciosamente anárquica de Auberon possa ser
"resumida". Mas uma coisa eu sei: dez anos depois da morte, o
colunista que praticamente me ensinou a ler (e a escrever) continua a
fazer uma falta desgraçada na imprensa desgraçada desse país.
Ele era ácido, elegante, obscenamente surreal e o herdeiro do trono
literário do pai. Não é possível encontrar melhor que isso.

Sejamos honestos: William é um bom partido para Kate; mas Kate é um
excelente partido para William -e para a Família Real.
Desde a morte de Diana Spencer que o problema dos Windsor é o mesmo:
como reconquistar a lealdade dos súditos num mundo crescentemente
igualitário?
Anos atrás, um jornalista que admiro (George Walden) escrevia um livro
com a resposta. Intitula-se "The New Elites", e Walden defende que as
"novas elites" (da televisão, do cinema, da música, da política) já
não procuram "distinguir-se" das massas; procuram, pelo contrário,
imitá-las nos comportamentos, na linguagem e até no vestuário.
Na década de 50, Humphrey Bogart vestia-se como um "gentleman". Nos
dias de hoje, Johnny Depp ou Brad Pitt não se distinguem dos
adolescentes que assistem aos seus filmes.
Hollywood é um negócio. A Família Real, de certa forma, também. E,
para manter o negócio a funcionar, nada melhor que uma bela transfusão
de sangue plebeu para contentar os corações plebeus dos ingleses.
Os espanhóis já o fizeram com a jornalista-que-virou-princesa Letizia
Ortiz. O mesmo aconteceu com Victoria da Suécia e o seu ex-personal
trainer, convertido em duque.
Faltava só os ingleses. "The show must go on."

Gestão pública, congestão privada VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SÃO PAULO - 26/04/11
DILMA ROUSSEFF vai chamar grandes empresários para uma espécie de
conselho de assessoria em assuntos de racionalização administrativa do
Estado. Deve reuni-los num "Fórum de Gestão", liderado por Jorge
Gerdau Johannpeter.
Gerdau já é, na prática, uma das duas ou três lideranças empresariais
mais influentes, tanto entre seus pares como entre gente do governo. É
muito bem-sucedido, trabalha em silêncio e reluta muito em ir para o
governo.
Aceitando o convite, não deve ser para perder tempo. Alguma lição de
gerenciamento pode dar. Mas o grande problema do Estado não é bem de
aprendizado de gestão. Falta um arranjo político e legal que permita
gerenciar os assuntos públicos com mais celeridade e rigor.
O Estado é grande demais e confuso. Quem se deu ao trabalho de ler o
Orçamento terá observado os milhares de programas picados, muitos
sobrepostos e fruto da sedimentação de lobbies e favores de governos
passados, "camadas arqueológicas", como diz Delfim Netto.
O Estado está presente demais onde não deveria (gestão direta de
serviços que a empresa privada poderia tocar). Está ausente ou
emperrado onde é necessário (na conexão entre pesquisa e empresa, num
programa amplo e de longo prazo de desenvolvimento científico e
tecnológico).
Para piorar, o governo é sugado por miríades de lobbies e ONGs; é
arrendado entre cerca de 20 mil barões, baronetes e fidalgos, nomeados
à vontade pela Presidência.
Isto posto, parece difícil imaginar como um "fórum de gestão" não
soçobre no mar de leis confusas e loteamento político-lobístico da
máquina pública. Boa sorte a todos, de qualquer modo.
Muito curioso é que governo e empresários não se ocupem de criar um
fórum de melhoria do ambiente empresarial ou de desengessamento de
mecanismos elementares de mercado. A elite do país parece não gostar
muito do melhor do mercado, que é inovação e competição. Gosta de
ajuda à grande empresa, de oligopólio, de privatização oligopolista,
de subsídio, de "parceria público-privada" informal etc.
Os empresários já estão próximos do governo no Conselhão; haverá o
Fórum. Mas não tratam de batalhar um comitê de desburocratização e de
limpeza de barreiras a uma ágil economia de mercado.
Já é clichê observar como custa tempo e dinheiro abrir e fechar uma
empresa no Brasil. Parece ninharia. Não é. Barreiras à criação de
negócios e ao fechamento de empreendimentos malsucedidos são
obstáculos à boa distribuição do capital ("alocação ineficiente")
-esse é um grande benefício de haver economia de mercado.
De resto, temos um fisco burocrático e vampiresco. As leis tributárias
são confusas -demora anos até saber quanto uma empresa deve em
tributos. A Justiça é lerda e ruim. Os insumos básicos das empresas
são tributados demais (de energia a crédito). Etc. Muito desses
empecilhos podem ser removidos com inteligência, decisão do governo e
um grupo de trabalho com prazos e metas.
Basta reunir nossos tantos doutores em gestão, em leis, em política,
além de "práticos" (empresários e administradores públicos) e um grupo
de parlamentares sérios (pelo menos uma dúzia se acha). E limpar o
terreno. Alguém se habilita?

Não existíamos e não sabíamos - ARNALDO JABOR

O GLOBO - 26/04/11

Na revista "piauí" deste mês, há um artigo seminal de Pérsio Arida,
sobre sua participação juvenil na guerrilha urbana. Lá está a análise
rara de um prisioneiro torturado sobre a onda revolucionária que pegou
nossa geração; lá estão os humanos tremores, a dúvida, o medo, todo o
irresistível delírio ideológico e psicológico que insuflou uma geração
para sofrimentos e mortes depois de 1968.

A luta armada foi a consequência da fé que tínhamos antes de 1964,
influenciados pela Guerra Fria, Cuba liberada, o Vietnã.

A importância que restou de tudo, como Pérsio aponta, foi justamente a
"via crucis" que tivemos de viver e que, por vias tortas, acabou nos
levando à democracia em 1985. Historicamente, foi bom.

O golpe militar de 1964 aconteceu porque nós não existíamos. Éramos
uma ilusão. A esquerda era uma ilusão no Brasil. (Já imagino as
"cerdas bravas do javali" se eriçando em alguns cangotes).

Mas, existia o quê? Existia uma revolução verbal. A ideologia
"revolucionária" era um ensopadinho feito de JK, Marx, Getúlio e
sonho. Existia uma ideologia que nos dava a sensação de que o "povo do
Brasil marchava conosco", um "wishful thinking" de que éramos o "sal
da terra".

Havia a crendice de que nossos inimigos estavam todos "fora" de nós,
fora do país e das estruturas políticas arcaicas que nos corroem há
400 anos. Existia um "bacalhau português" em nosso discurso, um forte
ranço ibérico em nosso aparente "rationale" franco-alemão: o amor ao
abstrato, a literatura salvacionista, a busca de um "Uno" totalizante.

A população nem sabia que existíamos. Não havia base material,
econômica ou armada, "condições objetivas" para qualquer revolução.
Por trás de nossas utopias, o Brasil escravista e patriarcal dormia a
sono solto, intocado. Éramos uma esquerda imaginária, delegando ao
Estado a tarefa de fazer uma revolução contra o Estado. Até nas
revoluções, precisamos do governo.

Por baixo dos sonhos juvenis, havia apenas o sindicalismo de pelegos e
dependentes do presidente, que deu a grande festa de 13 de março (o
comício da Central, com tochas da Petrobras e clima soviético). Eu
estava lá, olhando para Thereza Goulart, linda de vestido azul e coque
anos 1960, e vendo, depois, com calafrio na espinha, as velas acesas
em protesto contra nós em todas as janelas da classe média
"reacionária", do Flamengo até Ipanema. Essa era a verdadeira
"sociedade civil" que acordava.

Hoje, acho que o único cara que sacava a zorra toda era o próprio
Jango, mais brasileiro, mais sábio, entre os gritos de Darcy Ribeiro
falando do "Brasil, nossa Roma tropical!". Havia uma espécie de
"substituição de importações dentro da alma": a crença de que éramos
"especiais" e de que podíamos prescindir do mundo real, fazendo uma
mutação por vontade mágica. Só analisávamos a realidade "objetiva",
quando tínhamos de estar incluídos nela, subjetivamente. Em seu
artigo, Pérsio se inclui.

Mas existia o quê, então?

Existiam os outros. Os "outros" surgiram do nada. O óbvio de nossa
cultura pipocou do "nada" em 1964. Fantasmas seculares reviveram.
Apareceu uma classe média apavorada e burra, que sempre esteve ali.
Surgiu um Exército autoritário e submisso às exigências externas.
Ficamos conhecendo a ignorância do povo (que idealizávamos),
descobrimos que a resistência reacionária de minhas tias era igual à
dos usineiros e banqueiros. Descobrimos a violência repressiva de uma
falsa "cordialidade". Descobrimos o óbvio do mundo.

Eu estava dentro da UNE pegando fogo no 1º de abril e quase morri
queimado; mas senti nesse dia que a vida real começava. A sensação não
foi de derrota; foi a de acordar de um sonho para um pesadelo. Um
pesadelo feito de milicos grossos, burrice popular e pragmatismo de
gringos do "mercado". (Foi inesquecível o surgimento de Castelo
Branco, feio como um ET de boné verde na capa de "O Cruzeiro").

Em 1964, começara o calvário que nos levou a uma possível maturidade.
Despertamos para a bruta mão do "money market", que precisava nos
emprestar dinheiro para que o Estado pós-getulista verde-oliva
avalizasse a instalação das multinacionais aqui. Ou vocês acham que
iam nos emprestar US$ 100 bilhões para o Jango fazer a reforma agrária
com o Francisco Julião?

Aprisionaram-nos para contrairmos a dívida como, 20 anos depois, nos
libertaram para pagá-la.
Depois de 1964 e 1968, vimos que a esquerda tinha "princípios" e
"fins", mas não tinha "meios".

Nossos paranoicos achavam (e muitos continuam achando) que somos
vítimas de uma trama de Washington. Claro que o CIA armou coisas com
direitistas daqui, mas foram apenas os parteiros do desejo material da
produção.

O tempo da ditadura foi um show de materialismo histórico. Mas ibérico
não gosta de ver essas coisas. E logo tapamos os olhos e nos
consideramos as "vítimas", lutando pela "liberdade" formal. E não
víamos que a barra pesada estava entranhada em nossas instituições
políticas, assim como não havia ideal democrático algum em nossos
guerrilheiros.

Nessa época, poderíamos ter descoberto que um país sem sociedade
organizada morre na praia. E deveríamos ter descoberto que não adianta
nada analisar os "erros" de nossa esquerda "revolucionária" como se
fossem erros episódicos, veniais. A esquerda no Brasil tem de ser
repensada "ab ovo", pois é impossível trancar a complexidade de nossa
formação nacional num "pensamento único". Por isso, é desesperante ver
gente ainda querendo restaurar ilusões perdidas.

O tempo não para e as forças produtivas do mundo continuarão agindo
sobre nossa resistência colonial.

A mutação modernizadora, digital, do mundo nos obriga à democracia.
Quando entenderemos que a verdadeira revolução brasileira tem de ser
endógena, democrática, e que só um choque de capitalismo e de
empreendedores livres pode arrasar o "bunker" corrupto, a casamata
secular do Estado patrimonialista?

Pérsio não morreu e, 20 anos depois, ajudou a acabar com a inflação. Valeu...

Visões distintas- Dora Kramer

O Estado de S. Paulo - 26/04/2011


A condução do debate sobre a reforma política vem sendo feita
concomitantemente na Câmara e do Senado, embora deputados e senadores
adotem métodos distintos de trabalho.

Estes optaram pela rapidez de uma proposta elaborada em 45 dias por
uma comissão e aqueles preferiram a solidez de um projeto construído
mediante a realização de seminários País afora e audiências públicas
com figuras de destaque na política.

Em princípio, o caminho mais longo escolhido pela Câmara parece ser o
mais acertado e com maior chance de êxito no que tange ao essencial: a
inclusão dos interesses do público e a ampliação da discussão para
além das conveniências dos partidos.

É cedo, contudo, para se afirmar que o roteiro dos deputados levará
necessariamente ao resultado acima presumido, porque nem sempre o
esboço de boas intenções se converte ao final nas melhores ações.

O Senado até agora se comportou nesse assunto como um clube de
excelências interessadas em lustrar a própria imagem. Os senadores
escolheram um elenco de propostas que eles mesmos avaliam que não têm
chance de prosperar por causa da ausência do consenso mínimo
necessário em torno de qualquer uma delas para se aprovar alterações
na Constituição.

Na Câmara, por enquanto, os deputados fizeram algumas discussões
internas, audiências públicas com entidades civis e, a partir desta
semana, promovem seminários em todas as regiões do País a fim de
recolher sugestões.

Uma boa ideia. Assim como o convite para que dois ex-presidentes da
República, Fernando Henrique e Lula, os dois únicos sem mandato
parlamentar, sejam ouvidos a respeito. As respectivas assessorias já
informaram que ambos se prontificaram a comparecer e dizer o que
pensam sobre as mudanças necessárias.

Há quem enxergue na lentidão da Câmara o risco de as novas regras não
serem aprovadas a tempo de entrarem em vigor para as eleições de 2012.

Não parece ser o tempo a questão crucial, pois em face das inúmeras
protelações o importante nessa altura é que a reforma seja finalmente
feita.

O perigo mesmo é o de que a Câmara não tenha escolhido o caminho mais
longo para chegar a um melhor resultado, mas para postergar ao
infinito a solução do problema.

Tempo perdido. A aflição assola espíritos preocupados (todos dotados
de bom senso e capacidade de fazer contas) com a infraestrutura
necessária para a Copa do Mundo em 2014.

O atraso é visível a olho nu e escriturado em relatórios técnicos.
Considerando que o Brasil foi escolhido como sede do campeonato em
outubro 2007, há três anos e meio, há um atestado de inépcia a ser
lavrado em nome do governo brasileiro, cujas prioridades eleitorais
condicionam toda ação à obtenção de dividendos políticos de curto
prazo.

Nesse período, o Planalto se ocupou da campanha presidencial de 2010
em detrimento de tudo o mais, tratando da Copa em 2014 e da Olimpíada
de 2016 como fatos eleitoralmente rentáveis e nada mais.

As obras em si foram relegadas ao segundo plano, como se as
celebrações tivessem por si o condão de fazerem acontecer condições
objetivas necessárias à realização das duas maiores competições
esportivas do mundo.

Lula faturou, mas o prejuízo - eventual vexame - será do País. Isso
sem contar o custo propriamente dito que, devido à pressa,
desnecessária caso o trabalho tivesse começado de imediato, será muito
mais elevado: no tocante aos recursos despendidos e ao afrouxamento
dos mecanismos de controle dos gastos públicos.

Incivil. Guardadas as proporções que distinguem o indispensável
respeito à lei da necessária reverência aos bons costumes, Aécio Neves
está para a recusa do teste do bafômetro como Lula esteve para o papel
do bombom que certa feita desembrulhou e jogou no chão durante
solenidade oficial.

Dois exemplos de desconsideração ao quesito "o exemplo vem de cima".

Efeito inconsistência - Celso Ming

O Estado de S. Paulo - 26/04/2011


Começam a aparecer as distorções que se seguem à confusa e improvisada
política de suprimento de combustíveis praticada pelo governo federal.

O mercado interno está no limiar do desabastecimento. O consumo está
subindo muito mais rapidamente do que a produção. Para dar conta da
demanda, tanto a Petrobrás como os produtores de etanol estão
acionando as importações. Os primeiros cálculos sobre esse apagão dos
combustíveis, como o denominou a reportagem de Raquel Landim publicada
domingo pelo Estado, preveem um rombo anual de US$ 18 bilhões na
balança comercial.

Esse apagão tem a ver com três razões mais importantes. A primeira
delas vem lá detrás. É o estímulo ao consumo propiciado pelo governo
federal nos dois últimos anos, por meio do aumento das despesas
públicas, decisão que criou renda.

A segunda razão foi a esticada dos preços do álcool hidratado que
empurrou o consumidor que usa carros flex a trocar o álcool pela
gasolina.

Esse aumento do consumo da gasolina está relacionado ainda com um
terceiro fator: a decisão da presidente Dilma de impedir um reajuste
dos preços da gasolina no varejo, supostamente para evitar o impacto
no custo de vida. Esses preços não são reajustados desde junho de
2009, quando as cotações do barril do tipo Brent estavam a US$ 67.
Hoje estão a US$ 123.

Além de estimular o consumo, essa política de achatamento dos preços
dos combustíveis provoca outro efeito perverso, que é o de corroer os
resultados da Petrobrás e, com ele, reduzir a capacidade de expansão
cujos investimentos até 2014 deverão passar dos US$ 224 bilhões.

A escassez de etanol, por sua vez, aconteceu por dois principais
fatores. O primeiro deles foi a quebra de produção de cana-de-açúcar
na safra 2010 do Centro-Sul, em consequência tanto da seca como da
redução dos investimentos. O outro, a decisão dos usineiros de
transformar mais cana em açúcar do que em etanol, uma vez que os
preços internacionais do açúcar permaneceram altamente estimulantes.

A reação do governo à quebra da oferta de etanol foi outra
demonstração de improvisação. Foi ameaçar os usineiros com intervenção
no mercado, com o objetivo de baixar artificialmente os preços. Embora
até agora não tivesse sido levada adiante, essa ameaça foi feita num
momento em que o governo brasileiro se posicionava no Grupo dos 20
(G-20) contra o pleito do governo francês de intervir nos mercados de
commodities agrícolas.

Na semana passada, a Petrobrás fechou o primeiro contrato de entrega
de petróleo proveniente do Campo de Lula (ex-Tupi), que está sendo
extraído ainda em fase de desenvolvimento da área. Mas até agora nem a
Petrobrás nem o governo sabem a que ritmo o petróleo do pré-sal deve
ser produzido de maneira a não provocar novas distorções, seja pela
forte necessidade de investimentos seja para garantir recursos com
exportação.

Um bom começo seria o governo admitir de uma vez que não tem uma
política consistente para a área. E, em seguida, não perder mais tempo
em formulá-la e em colocá-la em prática.

CONFIRA

Efeito coelhinho
Um novo indicador de que o consumo permanece elevado foi apresentado
ontem pela Serasa Experian: as vendas de Páscoa deste ano cresceram
9,1% em relação às do ano passado. Ou seja, a renda do consumidor
continua forte

De volta ao palanque - Raymundo Costa

Valor Econômico - 26/04/2011

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu de fato o comando
das articulações políticas do PT com vistas às eleições de 2012. Lula
pretende viajar por todo o país, na campanha municipal, mas o
principal objetivo do PT é a capital de São Paulo. É hora, segundo
Lula, de o partido recuperar a prefeitura que os tucanos tomaram em
2004 e mantiveram em 2008, mesmo à custa de sua unidade. O avanço
petista na capital é considerado decisivo para acabar com a hegemonia
do PSDB no Estado, que comemora 20 anos no fim de 2014.

Depois de escolher e eleger presidente uma candidata sem tradição
anterior na política, Lula acha que pode repetir a dose em São Paulo.
Atualmente, ele quer como candidato a prefeito o ministro da Educação,
Fernando Haddad. Mas está acessível às demandas dos aliados e mesmo de
líderes partidários situados até bem pouco tempo na oposição. Este é o
caso de Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo e mestre de obras da
organização do PSD. A empreitada entrou em banho-maria, mas é uma
hipótese que não deve ser inteiramente descartada dos cenários para a
eleição municipal de 2012.

Numa entrevista ao jornal "ABCD Maior", de São Bernardo do Campo,
município governado por seu amigo Luiz Marinho, o ex-presidente deu a
receita para a vitória em São Paulo. "Só precisamos montar uma chapa
perfeita. O PT tem de encontrar um vice que dialogue com
representantes do setor médio da sociedade, do pequeno empresariado,
do profissional liberal e pessoas que têm um pouco de cisma do PT." O
ex-presidente usa a palavra no sentido de cismar, desconfiança ou
suspeita - sentimentos de que foi vítima em São Paulo, sobretudo, nas
suas primeiras eleições.

No tabuleiro de Lula cabe até Kassab para derrotar o PSDB

À exceção de 2002, quando ganhou de José Serra desde o primeiro turno,
São Paulo sempre foi uma pedra no sapato do ex-presidente. A vitória
na capital chega a ter alguma coisa de pessoal para Lula. Mas na
avaliação de dirigentes do PT paulista, é mera implicância, pois pouco
ou quase nada resta da imagem do líder radical que inspirava o medo da
classe média paulistana em eleições como a de 1989.

Em 1998, quando enfrentou Fernando Henrique Cardoso no cargo de
presidente, Lula teve - no primeiro turno - 1,3 milhão de votos na
capital; quatro anos depois, na onda vermelha que o elegeu, ele
praticamente dobrou seu eleitorado e contabilizou 2,4 milhões de votos
paulistanos.

Em 2006, Lula ainda conseguiu cravar 2,2 milhões de votos na capital,
numa eleição disputada sob as ondas de ressonância do mensalão e do
escândalo dos aloprados. Isso contra um ex-governador de Estado forte,
como demonstrou o massacre de 3 milhões de votos que o tucano Geraldo
Alckmin impôs de frente sobre Lula na disputa presidencial daquele
ano.

Já o primeiro turno da eleição do ano passado foi um pouco mais suado
para os tucanos. José Serra ganhou de Dilma no Estado por menos de 1
milhão de votos de diferença e a candidata do PT teve 2,5 milhões de
votos na cidade de São Paulo - pouco mais de 100 mil votos que Lula
teve em seu melhor desempenho na cidade, em 2002.

A prova dos nove, para Lula, será a eleição de 2012, na qual está
engajado em tempo integral. Nem sempre no mesmo leito em que navegam
os demais líderes petistas da capital. Na mesma entrevista ao "ABCD
Maior", Lula afirma que costuma dizer que o PT vencerá em São Paulo
quando encontrar o seu José Alencar, numa referência ao que seu
vice-presidente representou nas vitórias em 2002 e 2006 ao juntar
trabalho e capital na mesma chapa.

Convenientemente, Lula "esquece" que a hoje senadora Marta Suplicy se
elegeu prefeita em 2000 na cabeça de uma chapa que tinha como vice o
deputado Rui Falcão, da ala esquerda do PT. É verdade que Marta se
beneficiou do voto antimalufista, no segundo turno, quando recebeu o
apoio inclusive do PSDB. Apesar de uma gestão bem avaliada, Marta
perdeu a reeleição para Serra em 2004, mas está viva no que se refere
à eleição de 2012.

Embora negue publicamente a intenção de concorrer, Marta trabalha
ativamente no bastidor. Quando - e se - definir que será candidata,
ela imediatamente deve receber o apoio de outros nomes do PT. Os
pré-candidatos declarados Jilmar Tatto e Carlos Zarattini apenas
cuidam de manter aquecida a cadeira da senadora. Os cálculos do PT
paulista são feitos entre Marta e Aloizio Mercadante, ex-senador e
atual ministro da Ciência e Tecnologia.

Nos planos do PT paulista estava aguardar por uma definição dos dois,
antes de procurar um "nome novo" para trabalhar. Lula, pelo visto,
quer pegar o atalho. Haddad é o nome, mas não é consenso no PT de São
Paulo. O ministro Alexandre Padilha (Saúde) trata como "inimigo" quem
o considera para a prefeitura. Ele quer "arrumar" a saúde e então
pensar em novos saltos na sua já meteórica carreira.

A ofensiva de Lula, a médio prazo, é tomar o arraial tucano de São
Paulo, sem dúvida o reduto eleitoral mais poderoso do PSDB, seguido de
Minas Gerais. Petistas mais entusiasmados acreditam que o próprio Lula
poderá ser o candidato em 2014, se a reeleição de Dilma estiver bem
encaminhada nacionalmente.

"Não tem como esconder, embora ela não possa e nem deva falar, mas
Dilma será a candidata do PT em 2014", disse Lula na entrevista ao
"ABCD Maior".

Só não disse o que não pode - e nem deve - falar agora: que será
candidato a presidente em 2014, se em algum momento a reeleição de
Dilma Rousseff parecer ameaçada.

O projeto para tomar São Paulo do PSDB passa pela eleição para a
prefeitura da capital, e Lula, embora tenha suas preferências
pessoais, está empenhado em costurar um amplo leque de alianças
políticas. Espectro nem sempre do agrado do PT. O que o ex-presidente
já dá como certo é a aliança preferencial com o PMDB. Ele assegura que
os dois partidos estarão juntos em todos os municípios.

Há outras jogadas menos heterodoxas possíveis no tabuleiro de Lula.
Sem nenhuma "cisma" daqueles até bem pouco tempo postados no campo
adversário, como gosta de dizer o ex-presidente quando defende no PT a
necessidade de reunir os "diferentes" para vencer os "antagônicos"
(leia-se PSDB e o que restar do DEM).

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve
às terças-feiras

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