Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, abril 11, 2011

AUGUSTO NUNES-

Na Região Serrana, cem dias parecem mil

Em 27 de janeiro, a presidente em começo de mandato voltou de uma ligeiríssima incursão à Região Serrana do Rio pronta para mostrar, na entrevista coletiva concedida ao lado do governador Sérgio Cabral, como seria o Brasil Maravilha com uma Dilma Rousseff no poder. Já que mulher é mais sensível que qualquer homem, caprichou na cara de luto em homenagem aos mais de mil mortos. Já que uma gerente-geral do governo Lula é de matar de inveja qualquer superexecutivo de multinacional, foi logo tirando da bolsa o kit de primeiros socorros que concebera em homenagem à multidão de flagelados.

O milagre mais vistoso tinha o selo de qualidade do programa Minha Casa, Minha Vida. “Vamos construir 6 mil unidades para as famílias desabrigadas”, avisou. O sorriso abobalhado de Sérgio Cabral informou que o parceiro de entrevista dividia o microfone com uma gestora incomparável. A foto da dupla merecia ilustrar todos os balanços dos 100 primeiros dias de Dilma publicados pelos jornais neste domingo. Com a seguinte legenda: “O governador do Rio contempla as casas que ninguém mais viu”.

Nenhuma começou a ser construída, confirma o vídeo que registra um trecho do Programa do Faustão deste dia 10. Nenhuma família conseguiu sair dos abrigos improvisados. Mas nem se passaram três meses, vão certamente balbuciar os vigaristas, os devotos da seita e os iludidos vocacionais. Mirem-se no exemplo de países sérios, devem retrucar os brasileiros sensatos. Mirem-se, sobretudo, no exemplo recentíssimo do Japão, castigado em 14 de março por um terremoto seguido de um tsunami. Sem conversa fiada, o governo encomendou 4 mil casas pré-fabricadas. As primeiras 39 foram entregues em 9 de abril — menos de um mês depois da catástrofe.

Quando todos os japoneses surpreendidos pela tragédia estiverem sob um novo teto, milhares de sobreviventes da tragédia na Região Serrana ainda estarão aglomerados em abrigos provisórios. Os institutos de pesquisa deveriam averiguar o que acham do país e do governo. Podem acabar lucrando com a descoberta de que, ao contrário do que imaginam os eternos pessimistas, muitos flagelados estão confiantes no futuro no país, qualificam de “bom” (ou “ótimo”) o desempenho de Dilma e se sentem mais felizes nos acampamentos. Desde que sejam garantidas duas refeições a cada 24 horas, cem dias não parecem mil. Parecem cem minutos.

No Ano 9 da Era da Mediocridade, os ibopes e sensus repetem a cada pesquisa que milhões de brasileiros, sobretudo os alojados no miserável universo do Bolsa Família, aprenderam a renunciar ao sonho, a render-se sem lamentos ao assassinato da esperança e a contentar-se com o adiamento da morte. É suficiente a vida envilecida, sem horizontes, embrutecida. Uma vida não vivida.

“Não fale uma sandice dessas”, irritou-se o ex-presidente Lula com Denise Chrispin Marin, correspondente do Estadão em Washington. “Conheço as pessoas e sei como me referi a elas”, continuou, decidido a ampliar a coleção de momentos inverossímeis registrados na entrevista coletiva desta quarta-feira. Ao saber que o palestrante aprendiz está pronto para pacificar a Líbia – é só Dilma Rousseff chamar –, a jornalista lembrou que em dezembro de 2003, num jantar em Tripoli, Lula qualificou Muammar Kadafi de “companheiro e amigo”. E então o ator canastrão incorporou o ofendido de araque para garantir que não disse o que disse.

Não parou por aí. “Jamais falaria isso por uma razão muito simples: porque eu tenho discordância política e ideológica com Kadafi”, recitou sem ficar ruborizado. Ou porque é muito gentil ou porque a perplexidade a emudeceu, Denise desperdiçou uma boa chance de emparedar o embusteiro. Deveria ter registrado que os afagos verbais em Tripoli foram confirmados pelo nicaraguense Daniel Ortega e pelo argelino Mohamed Ben Bella, presentes ao jantar. Foram também testemunhados pelo tradutor sem o qual Lula não sabe o que se passa ao redor.

Melhor ainda seria recordar ao amnésico seletivo que as carícias retóricas murmuradas em Tripoli foram reprisadas há um ano e meio em Sirte, na 13ª Reunião de Cúpula da União Africana. E desmontar a farsa com a leitura em voz alta da reportagem do enviado especial Andrei Netto, publicada pelo Estadão em 2 de julho de 2009. Um dos trechos reproduz a derramada saudação a Kadafi feita por Lula: “Meu amigo, meu irmão e líder”, discursou o convidado de honra, mirando com olhar de noiva o psicopata anfitrião.

O restante do palavrório deixou claro que aquilo não fora um escorregão de palanqueiro sem compromisso com a verdade. Lula estava lá para reafirmar a solidariedade do governo brasileiro a estadistas incompreendidos. Elogiou abjeções mundialmente desprezadas, louvou celebrou a generosidade de assassinos, louvou o fervor democrático de liberticidas, festejou o patriotismo de corruptos de carteirinha e reiterou a admiração pela biografia infame do ditador da Líbia.

Mais de sete anos depois de Tripoli, menos de dois depois de Sirte, o companheiro, amigo, irmão e liderado de Kadafi resolveu proclamar inexistentes o acasalamento promíscuo e as cenas de cumplicidade explícita. É tarde. E é impossível. Espertalhões bem mais sagazes que Lula também tentaram substituir fatos amplamente documentados por mentiras convenientes. Nenhum dos farsantes foi muito longe. Todos acabaram vencidos pela verdade. Todos jazem na vala comum reservada aos falsificadores da História.

O ex-presidente Lula acordou no hotel em Washigton, nesta quarta-feira, disposto a transformar 6 de abril num segundo Dia da Mentira. A procissão de lorotas começou na palestra encomendada pela Microsoft. Já na abertura do falatório, ensinou que a solução de todos os problemas do mundo está na areia. “Poucos têm a criatividade natural do povo brasileiro, possivelmente porque temos muitas praias”, exemplificou. “Quem mora na beira da praia é mais alegre, feliz e criativo”.

Cobrou R$ 200 mil por 90 minutos de pontapés na verdade. Continuou a espancá-la de graça depois do falatório remunerado, ao topar com jornalistas brasileiros interessados em saber o que achava do relatório final da Polícia Federal sobre o escândalo do mensalão. Forçado a renunciar à mudez malandra, que planejava estender até domingo, Lula ergueu cinco monumentos à mentira com as cinco frases seguintes:

1. “Não tem relatório final do mensalão, tem uma peça que dizem que foi o relatório produzido pela Polícia Federal”.

“Dizem” coisa nenhuma. “Produzido” coisa nenhuma. Foi divulgado o relatório final da Polícia Federal, fruto de cinco anos de investigações. Lula sabe disso.

2. “Não se sabe se o ministro Joaquim vai receber ou não, se aquilo vai entrar nos autos do processo”.

O ministro Joaquim Barbosa já informou que não pretende anexar o relatório da PF aos autos do processo que deverá ser julgado no começo de 2012. O documento será incorporado a um segundo processo em curso no Supremo. Lula sabe disso.

3. “Se entrar, todos os advogados de defesa vão pedir prazo para julgar, então vai ser julgado em 2050″.

Esse é o plano concebido pelo ex-ministro Márcio Thomaz Bastos, comandante do pelotão de bacharéis mobilizado para a absolvição dos mensaleiros. Joaquim Barbosa decidiu manter o relatório fora do processo precisamente para evitar mais uma chicana. Adiar o julgamento para 2050, ou para o século 22, é o sonho do bando delinquentes. Infelizmente para os réus, o relatório da PF não poderá ser utilizado para concretizá-lo. Lula sabe disso.

4. “Então, não sei se vai acontecer”.

Se não soubesse, não teria preenchido todas as vagas abertas no STF com ministros de confiança. Claro que Lula sabe.

5. “Não tive chance de dar uma olhada nem vou olhar, não sou advogado”.

Teve chances e tempo, que sempre sobra para quem não tem trabalho fixo. O que falta a Lula é vontade de ler qualquer coisa. Não é advogado porque nunca teve disposição para estudar, mas vive advogando em favor de bandidos de estimação. Sem profissão definida, apresentou-se em Washington como palestrante. Rima com farsante. Deveria criar coragem e ler o relatório da Polícia Federal. Vai gostar de saber do que escapou.

Com duas medidas provisórias, Dilma Rousseff criou o ministério sem ministro e a estatal que pilota trem fantasma. Há dias, os parlamentares governistas assinaram a certidão de nascimento da Secretaria de Aviação Civil. Só falta escolher o chefe, que terá status de ministro. Nesta terça-feira, a Câmara dos Deputados apressou o parto da Empresa do Trem de Alta Velocidade (ETAV). Falta o trem-bala que Lula prometeu inaugurar em 2010 e não apitará em curva nenhuma antes de 2016. Depois dos Jogos Olímpicos do Rio.

Faltam também empresas interessadas na construção do colosso ferroviário que promete viagens de Primeiro Mundo na rota Campinas-São Paulo-Rio de Janeiro. Mas a gastança já começou: a medida provisória que criou a estatal do nada autoriza a União a garantir um empréstimo de até R$ 20 bilhões ao consórcio vencedor da licitação que deveria ter ocorrido em 16 de dezembro de 2010, foi remarcada para o fim deste mês e será novamente adiada por três meses. Mesmo com a abertura dos cofres do BNDES, será preciso esperar mais três meses. No mínimo.

Como demonstra o texto reproduzido na seção Vale Reprise, faltam ferrovias, vagões, locomotivas, metrôs, falta tudo que ande sobre trilhos, que também não existem. Nada disso parece importante aos passageiros da megalomania, da jequice e da ganância. Os países sensatos concluem a montagem de um sistema de transportes eficaz com a construção do trem-bala. O governo brasileiro resolveu começar pelo último capítulo. É mais que um monumental equívoco administrativo. É mais que um desperdício de pelo menos R$ 33 bilhões. É um ato criminoso tramado pelos parceiros que se consideram condenados à impunidade.

Surpreendido pela divulgação do relatório da Polícia Federal sobre o mensalão, que ampliou o número de integrantes e o acervo das bandalheiras da quadrilha, o ex-presidente Lula perdeu de novo a pose e a voz. Achou melhor guardá-las para duas palestras pagas em dólares e proibidas para jornalistas — uma em Washington, outra em Acapulco — e um encontro (sem remuneração em dinheiro) com banqueiros internacionais na Cidade do México. Nesta terça-feira, depois do acesso de mudez que o livrou da imprensa na véspera, embarcou rumo aos EUA num jatinho cedido pela Coteminas. Mandou avisar que estará de volta no fim de semana.

O ilusionista terá cinco dias para planejar o próximo ato do interminável espetáculo da mentira — e preparar o próximo truque . O estoque vai chegando ao fim. Desde julho de 2005, quando o país foi confrontado com o pai de todos os escândalos, Lula já pediu desculpas por não ter enxergado o mensalão, já se declarou traído sabe-se lá por quem, já procurou transformar roubalheira em caixa 2, já tentou reduzir crimes hediondos a erros corriqueiros, já jurou que o mensalão não existiu – até decidir, há um ano e meio, que tudo não passou de uma invencionice forjada pela oposição para derrubar o governo. E prometeu apurar a trama assim que deixasse a Presidência.

Em 5 de novembro de 2009, numa entrevista ao repórter Kennedy Alencar, caprichou na imitação de detetive de filme classe C para impressionar os espectadores da RedeTV! com a frase enigmática: “Essa história de mensalão é uma das muitas histórias que ainda não estão devidamente esclarecidas e explicadas. Quando estiver fora do governo, eu vou me dedicar a estudar o caso até entender o que realmente aconteceu”.

Se tivesse lido a denúncia do procurador-geral Antonio Fernando Souza, trataria de manter-se distante do tema de altíssima voltagem. Se conhecesse o conteúdo do processo que corre no Supremo Tribunal Federal, não teria embarcado na falácia irresponsável. Se pressentisse a aproximação do relatório da Polícia Federal, teria procurado Kennedy Alencar para retirar o que disse. Ou por sobra de autoconfiança ou por falta de juízo, segue na trilha que leva ao penhasco.

Oficialmente, Lula ainda não comentou o relatório por ignorar-lhe o teor. Como não teve acesso ao documento, mandou dizer por um assessor de imprensa que só poderia falar mais tarde. Quem jamais leu um livro dificilmente encontrará ânimo para a travessia das 332 páginas que resumem as descobertas dos investigadores. Mas decerto pediu que alguém lesse em voz alta o noticiário dos jornais. Descobriu que a bravata declamada em 2009 foi implodida de vez pela Polícia Federal. E soube que o bando de mensaleiros ficou um pouco maior.

Ficou também um pouco pior para quem sempre alegou não ter visto nem ouvido nada que o alertasse para a roubalheira arquitetada nas salas ao lado ou um andar acima do gabinete no Planalto. A turma que acaba de subir ao palco inclui, por exemplo, o notório Freud Godoy, amigo e ex-segurança de Lula, que confessou aos investigadores da Polícia Federal ter embolsado dinheiro do propinoduto administrado por Marcos Valério.

Lula está dispensado de investigar o falso enigma. Ele sabe o que houve. Sempre soube. Se acaso esqueceu alguns detalhes da grande farra de 2005, basta convocar para uma noitada de drinques e conversas os companheiros Delúbio Soares, José Genoíno, Freud Godoy e mais dois ou três comparsas. Com José Dirceu como convidado especial, naturalmente.

A troca do presidente da Vale informa que o governo brasileiro acabou de inventar a demissão por excesso de competência

Ao se intrometer na vida da Vale, o governo federal produziu simultaneamente três assombros: inventou a demissão por excesso de competência, transformou Roger Agnelli no único executivo da história que perdeu emprego por ter feito tudo certo e criou a primeira empresa privada do Brasil cuja diretoria é escolhida pelo Palácio do Planalto e decidiu nesta segunda-feira que o novo comandante será o ex-diretor Murilo Ferreira. Não é pouca coisa. E não é tudo.

Bastou a notícia de que o governo resolvera ditar os rumos da Vale para que mais de 4 milhões de investidores começassem a perder dinheiro. Só em março, as aplicações sofreram uma queda de 6,81%. “As ações deveriam estar voando”, disse em entrevista ao jornal O Globo o especialista em investimentos Bruno Lembi. “Os preços do minério estão lá em cima e a Vale divulgou um balanço excepcional”.

Privatizada em maio de 1997, a Vale começou a colecionar cifras superlativas a partir de julho de 2001, quando Agnelli assumiu a presidência para transformá-la, em 10 anos, na segunda mineradora do planeta e na maior produtora mundial de minério de ferro. Em 1997, tinha 11 mil funcionários. Hoje são 174 mil. A extração de minério subiu de 114 milhões de toneladas para 297 milhões de toneladas, e o lucro saltou de R$ 390 milhões para R$ 30,7 bilhões. Os investimentos somaram R$ 19,4 bilhões em 2010. Deverão chegar a US$ 24 bilhões em 2011.

Quem aplicou R$ 1 mil em ações da Vale no dia da posse de Agnelli tinha R$ 16.829 na conta neste 23 de março, quando o afastamento foi oficializado. A valorização foi de 1.583%. Em paragens civilizadas, tal performance faria qualquer chefe de governo disputar Agnelli a socos e pontapés com a iniciativa privada: como não instalar num ministério da área econômica alguém tão singularmente eficaz? No Brasil, como ensinou Tom Jobim, sucesso é ofensa pessoal. E a independência é o oitavo pecado capital aos olhos de governantes autoritários como Lula.

Enciumado com o executivo brilhante, indignado com o homem de empresa que ignorava determinações do presidente da República, Lula ficou à espera do pretexto para o início da ofensiva. A chance chegou em dezembro de 2008, quando a Vale incluiu a demissão de 1.300 funcionários entre as medidas adotadas para abrandar os efeitos da crise econômica internacional. De lá para cá, a abertura de 35 mil novos empregos compensou amplamente o corte, mas Lula continuou a tratar a demonstração de autonomia como traição à pátria.

Com o apoio de Dilma Rousseff, resolveu que ninguém teria sido demitido se a Vale reduzisse a exportação de minério e ampliasse os investimentos em siderurgia. E apertou o cerco ao inimigo imaginário em abril de 2009, quando Demian Fiocca, ex-presidente do BNDES ligado ao ministro Guido Mantega, foi demitido da diretoria da Vale. Em fevereiro deste ano, incumbido por Dilma Rousseff de articular o ataque derradeiro, Mantega conseguiu o apoio da maioria dos controladores da empresa para a torpeza longamente planejada.

Caso o governo soubesse o que é meritocracia, Agnelli poderia ser o ministro da Fazenda e Mantega e Dilma só apareceriam regularmente no gabinete do presidente da Vale se ele fosse o homem do cafezinho e ela, a mulher da limpeza. Na Era da Mediocridade, Obina joga na Seleção e tira Pelé do time. A multidão de ministros e figurões do segundo escalão comprova que, há quase 100 dias, a presidente da República é uma ilha de despreparo cercada por todos os lados de incompetentes, cretinos, vigaristas, ineptos e gatunos.

O Brasil decente sairia ganhando se todas essas nulidades fossem despejadas dos gabinetes que ocupam. Em vez disso, Dilma preferiu ultrapassar as fronteiras do Planalto para castigar a Vale com a demissão de um dos mais talentosos executivos do mundo. O País do Carnaval tem o governo que merece.

FONTE:Veja on line,

domingo, abril 10, 2011

La única alianza política que existe Joaquín Morales Solá

LA NACION

Voy a terminar por reivindicar a Néstor Kirchner . Un alto funcionario de Mauricio Macri lanzó esas palabras de estupor en una reunión de macristas fehacientes. No estaba sumándose a la operación de santificación del ex presidente, sino contrastando una época de excesivo control del poder con el momento actual, en el que predomina el desorden público tanto como el institucional. La mejor prueba de que el libre albedrío se impuso sobre la férrea disciplina de otros tiempos es que la ministra de Seguridad, Nilda Garré, se convirtió en la más punzante crítica del kirchnerismo que gobernó en los últimos años. Todos hablan y cada uno dice lo que quiere , rezonga un cristinista silencioso.

Macri estaba buscando socios peronista o radicales (o los dos al mismo tiempo) para la aventura electoral de octubre cuando se topó con un regalo kirchnerista. El gobierno nacional lo colocó alegremente en el lugar de víctima dentro de un conflicto en el que ya cada uno tiene un rol asumido, cierto o no, frente a la sociedad. La mayoría de la gente común cree que Macri se preocupa por la seguridad y que a Cristina Kirchner no la aflige mucho esa tragedia social. Podría especularse con que sólo puede dar tanto quien tiene mucho. Nadie se equivocaría, porque la Presidenta sigue, a pesar de todo, muy por encima de sus opositores en las encuestas.

¿Había necesidad de sacarle a la Capital los policías federales que hacen horas adicionales pagadas por el gobierno del distrito? Sencillamente, no. Esos policías ya están en la calle (o deberían estarlo, al menos) porque el trabajo al servicio de la administración capitalina se contabiliza como horas extras. Es decir, cumplen con su trabajo en la Federal y trabajan para el gobierno de la Capital en el tiempo asignado al supuesto descanso. ¿Lo dejarán de hacer por obra y gracia de una resolución de Garré? No. Los policías viven del trabajo adicional, porque no ganan un buen sueldo y éste está siempre arruinado por las compras en cuotas. La teoría puede ser otra, pero la realidad es una vieja devastadora de hipótesis aparentemente perfectas.

Ya no hay policías en los hospitales, escuelas y otras dependencias de la Capital. El convenio se denunció a partir del 6 de mayo, pero el gobierno nacional decidió incumplirlo desde el martes pasado. ¿Por qué? Había una deuda de la Capital, adujeron, aunque esa deuda estaba dentro del período de 60 o 90 días de atraso que hubo históricamente. El asunto es político y sólo se lo entendería si se sacara del conflicto a uno de los protagonistas. El gobierno nacional envía a la provincia de Buenos Aires, a su costo y riesgo, a miles de gendarmes. ¿Podría imaginarse una decisión fulminante que retirara a todos los gendarmes en pocas horas del territorio gobernado por Daniel Scioli? No lo haría nunca, porque ahí está un aliado.

Es cierto que Macri alardeó demasiado de su propia policía, pero se trata, por ahora, de un cuerpo módico. Casi un tercio de sus tropas (450 efectivos, repartidos en tres turnos) tiene que custodiar ahora el barrio de Villa Soldati, ocupado ilegalmente y que el gobierno nacional no desaloja, a pesar de la orden de un juez que depende directamente de la Corte Suprema de Justicia.

Un hombre joven murió en la villa 31 en la noche del martes último entre fuertes convulsiones. Ambulancias con médicos y enfermeros se negaron a entrar a ese asentamiento porque temieron por su seguridad. La ciudad ardió al día siguiente. Toda vida es insustituible y cualquier muerte injusta es ominosa. Ambas actitudes, una conducida por el miedo y la otra por la protesta ante lo irreparable, son comprensibles. Faltó la única solución posible: los médicos debieron entrar a la villa acompañados por policías decididos. El escándalo policial entre los gobiernos nacional y capitalino, que ya existía, y el temor de la propia policía destruyeron el único recurso que había. Unas 40 personas cortaron horas después la autopista Illia y transformaron a la Capital en tierra arrasada, perdida ya por sus habitantes cualquier noción de la calidad de vida. La policía miró y no hizo nada más.

Los asentamientos y las villas en la Capital proliferaron en los años recientes. El gobierno nacional nunca quiso ver ese problema más allá de entregar subsidios sin contraprestaciones, al revés de lo que sucede en Brasil o Chile; el subsidio sirve aquí muchas veces como herramienta política y electoral. La inseguridad también es una consecuencia de vidas desamparadas, que se mueven entre la penuria y la promiscuidad. Hasta los sacerdotes más comprometidos con causas sociales denunciaron públicamente la propagación de la droga en muchas villas, aunque no exclusivamente en ellas. La droga es, en rigor, un problema que abarca a todos los estamentos sociales.

Aquel trágico episodio en la villa 31 sólo pronosticó el conflicto con los médicos, que dejó anteayer sin hospitales a la Capital. Los médicos tienen miedo. Esa es la verdad. Deben convivir cotidianamente con personas con inestabilidad psicológica, con problemas de adicciones severas o peligrosamente alcoholizadas. Seis episodios de violencia afectaron a médicos o enfermeras en apenas 48 horas después de que los policías federales abandonaron los hospitales. El miedo de los médicos es razonable, pero ¿cuántas vidas pueden perderse en una megaciudad sin hospitales? La solución no es responsabilidad de los médicos, sino de los dirigentes políticos que se mezclan en combates electorales.

El gabinete de Macri cree que detrás de todo el barullo hay, en efecto, una especulación electoral por parte del gobierno nacional, pero el propio Macri disiente: El kirchnerismo cree que sus fantasías son verdaderas. Hay más de eso que de cualquier otra cosa , suele precisar. Garré le dio la razón cuando se quejó públicamente del "autogobierno" de la Policía Federal, que, dijo, permitió el auge de la corrupción policial. El kirchnerismo gobierna desde hace ocho años y su actual jefe de Gabinete, Aníbal Fernández, fue el jefe directo de la policía hasta que arribó Garré, hace tres meses. ¿La culpa es de Néstor Kirchner, entonces, que no vio las supuestas ineptitudes de Fernández? ¿O es de Cristina, que siguió confiando en el jefe de Gabinete y viejo líder de la policía? Sean quienes sean, los culpables de la pésima situación policial que describió Garré están entre los jefes del kirchnerismo.

Macri se entusiasmó, de todos modos, con un plebiscito sobre la policía y la seguridad que podría realizarse el mismo día de las elecciones capitalinas. Se sumaría, así, a la dinámica electoral que el gobierno nacional le está dando al desgarrador conflicto de la inseguridad pública. Macri decidirá mañana si se hará o no el plebiscito.

El alboroto sorprendió a la política cuando la oposición comienza a moverse, aunque todavía no se sabe en qué sentido ni con qué resultado. El radicalismo se está planteando en público, por primera vez, si le conviene una alianza con Macri, con Francisco de Narváez y con Felipe Solá. Es la posición de Ernesto Sanz, que quedó solo frente a Alfonsín luego de la previsible renuncia de Julio Cobos. Sanz quiere hacer un esfuerzo todavía para convencer al radicalismo de que Macri y De Narváez son aliados eficientes para ganar y que el programa ya lo firmaron todos cuando acordaron las bases comunes elaboradas por Rodolfo Terragno. Alfonsín puede llegar hasta De Narvaéz, donde ya llegó en verdad, pero se frena en seco ante Macri. ¿Por qué? No hay respuesta. Macri espera el final de ese debate como aguarda la cercanía de un peronista con buenos antecedentes y mejor presencia. Todo se mueve y todo es impalpable al mismo tiempo.

El Gobierno hace mucho por sus opositores y éstos hacen mucho por el Gobierno. Es la única alianza política que existe, implícita, inexplicable y duradera.

Que Cristina lo ataque, ¿daña o beneficia a Macri? Mariano Grondona

LA NACION

Un refrán dice que "una vez es casualidad, dos veces es coincidencia, tres veces es acción enemiga". A este dicho podría sumársele otro refrán más elemental según el cual "si tiene garras de león, rugido de león y melena de león, es un león". Cuando se observa la sucesión de agresiones que ha lanzado el gobierno nacional contra Mauricio Macri desde que éste gobierna la ciudad de Buenos Aires para cubrir el período 2007-2011, es imposible ignorarlas como si sólo fueran los eslabones sueltos de una cadena inexistente.

En 2009, la Presidenta ordenó bloquear una emisión de bonos que pretendía Macri y lo privó a partir de ahí del apoyo que el jefe del gobierno porteño necesitaba para acceder a los mercados internacionales. Macri no pidió el auxilio directo de los fondos nacionales sino apenas una firma, un aval sin costo alguno que Cristina, empero, le negó e impidió de este modo la realización de importantes obras de infraestructura que Macri había proyectado. El jefe del gobierno porteño acusó además a los Kirchner de estar detrás del procesamiento que le inició Norberto Oyarbide por las "escuchas ilegales", un procesamiento hasta ahora sin pruebas a la vista, que se inició al mismo tiempo en que el polémico juez sobreseía vertiginosamente a los Kirchner de la acusación por enriquecimiento ilícito que pesaba sobre ellos.

La ministra de Seguridad, Nilda Garré, ignoró por su parte las decisiones judiciales que obligaban a la Policía Federal a intervenir en las tomas ilegales del parque Indoamericano y el Bajo Flores, así como en el bloqueo sindical contra los principales diarios. Mientras el traspaso de una sección de la Policía Federal a la Policía Metropolitana que ha pedido reiteradamente Macri siempre le fue negado por Garré, ésta culminó su extraño proceder en materia de seguridad retirando la custodia de la Policía Federal a 114 lugares de la ciudad, entre ellos, hospitales, y provocó así la indefensión de edificios municipales en situación de riesgo.

Desde el momento en que Garré fue nombrada por Cristina, y habiendo dicho ésta en medio de una huelga secundaria con ocupaciones de escuelas en septiembre de 2010 que "no me parece demasiado lo que piden los chicos", es difícil eximir al gobierno nacional de la responsabilidad por esta sucesión de desencuentros entre la Nación y la ciudad, a los que habría que agregar otros más como, por ejemplo, aquel en que el gobierno nacional promovió una acción judicial para privar a la Policía Metropolitana, a esa misma policía a la que Garré acusa por no atender la seguridad de su distrito, de las pistolas Taser que evitan, a cambio de un "latigazo" eléctrico, el vuelo mortal de las balas de plomo. Si tiene garras de león? La conclusión que surge de esta breve enumeración es que el gobierno de Cristina Kirchner ha designado a Mauricio Macri como su enemigo principal.

La piedra y la mano

En sus Explicaciones filosóficas, Robert Nozick sugiere que cada uno de nosotros, al comenzar su existencia, anticipa en lo más profundo de su ser que la vida valdrá o no valdrá la pena. Si espera que valga la pena, la vivirá para confirmar esta premisa y, según pasan los años, comprobará que tenía razón. Si espera en cambio que no valga la pena, vivirá para confirmar esta otra premisa alternativa y al fin de sus días también habrá tenido razón. Apostar o no apostar a la vida es por lo tanto una categoría existencial que siempre se confirma. Si trasladáramos la tesis de Nozick a la vida política, podríamos afirmar que, al comenzar su carrera, un político puede apostar a laconciliación o a la confrontación. Si apuesta a la conciliación saldrá en busca de amigos y los encontrará. Si apuesta a la confrontación, no le faltarán enemigos.

Fieles a su ADN político, los Kirchner nunca han dejado de buscar enemigos porque ganar es para ellos, por lo pronto, que sus enemigos pierdan . A la inversa del flamante candidato radical Ricardo Alfonsín, que es y aspira a ser querido, lo que siempre han privilegiado los Kirchner no son las r elaciones de amistad, sino las relaciones de enemistad . El Ejército, la Iglesia, el campo, el periodismo independiente, los empresarios supuestamente "concentrados", Cobos y Macri, este último en cuanto representante de "la derecha", han sido los enemigos declarados de ambos Kirchner. En este terreno no ha habido diferencias entre Néstor y Cristina.

Afinando el análisis, podríamos sugerir sin embargo que las principales diferencias entre el ex presidente y la Presidenta han sido dos. Néstor sumaba la creatividad a su espíritu de confrontación. El ex presidente inventaba cada día nuevos ardides, pero esta cualidad le falta a Cristina, que por eso transita invariablemente por las huellas que él le marcó. La segunda diferencia entre ambos es que cada vez que Néstor tiraba una piedra se le notaba, pero Cristina, ella, cuando tira una piedra esconde la mano, exhibiendo además recato y hasta indignación ante el comportamiento de sus incondicionales pese a que ellos no hacen otra cosa que obedecerla. Esta última diferencia explica por qué Néstor perdió en 2009 y no conseguía remontar las encuestas más allá del 30 por ciento por las reacciones adversas que suscitaba, mientras que Cristina, menos obvia y más sutil, ya espera superar la valla del 40 por ciento.

Perder, ¿es ganar?

El problema es que Macri, habiendo sido designado como su enemigo más notorio por Cristina, no ha dejado de subir en las encuestas hasta el punto en que hoy encabeza la lista de los opositores por delante del propio Alfonsín. Es que los dardos que ordena lanzar la Presidenta tienen un doble efecto. De un lado, les marca un blanco a sus servidores incondicionales pero, del otro, también ayuda a quienes no desean votar por ella a concentrarse detrás de su más odiado opositor.

El kirchnerismo tiene así la paradójica virtud de elegir a sus rivales. Véase si no lo que pasó con Julio Cobos. Cuando emitió su famoso voto "no positivo" en el Senado, suscitó la ira del kirchnerismo y subió acto seguido en las encuestas. No bien la Casa Rosada dejó de agredirlo ostensiblemente, empero, Cobos bajó tanto en las encuestas que acaba de retirarse de la carrera presidencial. Es como el juego del sube y baja. Cuando los Kirchner bajan línea contra algún rival, éste sube. Cuando dejan de apretar hacia abajo, éste baja.

¿Qué deberían aconsejarle a Cristina, entonces, sus solícitos asesores? Que, si quiere favorecer a algún competidor no kirchnerista, suba los decibeles de la agresión y que, si quiere perjudicarlo, deje de agredirlo. Esta observación revela sin embargo una debilidad de los opositores porque, cuando ya no cuentan con la ira de Cristina, se quedan sin el principal combustible de su exaltación. Lo cual obliga a preguntarse si, animada por algún astuto asesor, Cristina ha decidido agredir a Macri no sólo porque lo detesta, sino también porque secretamente lo desea como su principal contendor.

Las maniobras que hoy despliega el kirchnerismo se parecen a la temblorosa habilidad de un esgrimista que teme perder. En efecto, todavía es verdad que la mayoría de los argentinos no votó por los Kirchner en 2009 y que muchos de ellos podrían reiterar este rechazo en 2011. ¿Qué les falta a los opositores entonces? Que, cuando las papas quemen de aquí a pocos meses, los votantes no kirchneristas se polaricen en favor de alguno de ellos. ¿Podrá el kirchnerismo, sin la creatividad del fundador pero con el sigilo de su sucesora, sortear de algún modo este último obstáculo que se interpone entre la realidad y su insaciable sed reeleccionista?

O Brasil na encruzilhada Pedro Cavalcanti Ferreira e Arminio Fraga Neto

O GLOBO ON LINE

Publicada em 09/04/2011 às 19h28m

RIO - O Brasil vive um bom momento de crescimento, a um ritmo de cerca de 4% ao ano nos últimos anos. Mas cabe avaliar se este processo vai ter continuidade, nos levando a um produto per capita semelhante ao dos países mais avançados, ou se vamos repetir a experiência de 1950 a 1980, quando acabamos batendo num teto e nos espatifando na Década Perdida.

Em 1950, o produto per capita brasileiro era de cerca de 12% do produto per capita americano. Em 1980, no ápice do milagre, nossa produtividade alcança 24% da americana. A partir daí nosso produto relativo caiu continuamente, chegando a 16% na década de 1990. Deste ponto em diante o país volta a crescer de forma contínua atingindo hoje algo em torno de 20% do produto per capita americano, sem dúvida um avanço, mas ainda modesto.

Aqueles mais nostálgicos dos tempos do milagre econômico tendem a apontar as políticas nacional desenvolvimentistas adotadas desde a década de 50 como a causa principal de nosso crescimento acelerado. Neste modelo o Estado ocupa papel central na economia, tanto como produtor direto quanto como indutor de investimentos privados via coordenação e incentivos fiscais e tributários. Há uma articulação entre interesses públicos e privados em setores entendidos como estratégicos e fortes gastos em infraestrutura e formação de capital por empresas estatais. Mais ainda, a produção nacional é protegida da concorrência internacional através de barreiras comerciais e outras.

Há em curso em nosso país, principalmente a partir de 2008, uma tentativa de ressuscitar este modelo. Isto pode ser visto nas largas transferências do Tesouro para o BNDES, que hoje financia uma fração crescente dos investimentos privados a uma taxa de juros muito abaixo do mercado. Isto pode ser visto nas mudanças no marco regulatório do petróleo, com a Petrobras assumindo um papel ainda maior na prospecção e investimentos do setor. (Note ainda o alto percentual de compras locais da estatal, o que não leva em conta inteiramente diferencial de custos). Pode ser visto também na acelerada expansão do crédito por parte dos bancos públicos. De uma maneira ou de outra, aumenta-se a participação do Estado em diversos setores da economia, ao mesmo tempo em que se implanta e aumenta a proteção e os subsídios para setores e empresas da iniciativa privada.

A crise de 2008 deu o estofo ou argumento ideológico para a reação nacional desenvolvimentista. Ela seria o sintoma claro da falência do modelo neoliberal e indicação da necessidade de uma presença maior do Estado. Afinal, deu certo até o fim dos anos setenta, por que não daria agora?

Um problema é que, o que deu certo até 1980 também foi responsável por grande parte dos desequilíbrios e problemas posteriores. Mais ainda, deu certo em termos de crescimento, mas deu errado em termos sociais. Isto pode ser percebido pela péssima distribuição de renda que este modelo nos legou, além das altas taxas de mortalidade infantil, a baixíssima escolaridade, o alto analfabetismo e índices de pobreza e indigência muito acima do que se esperaria de um país com nosso crescimento e renda per capita. Em certo sentido nada além do esperado de um modelo que privilegiava o investimento em capital físico em detrimento aos gastos em capital humano e educação.

A dimensão social, atualmente, está bem encaminhada. A pobreza vem caindo há vários anos de forma estável, a desigualdade de renda caiu para os níveis mais baixos desde 1960 e a renda de parcelas geralmente excluídas dos benefícios do crescimento, como os negros e as mulheres, vem crescendo a taxas chinesas. Há vários fatores por trás disto, destacando-se a estabilidade macroeconômica (que protege os mais pobres), a expansão da educação e uma agressiva política social ao longo dos últimos 16 anos.

Outro problema diz respeito ao próprio crescimento. Hoje sabemos que na fase final do Milagre os indicadores de produtividade (em queda) já indicavam um certo esgotamento do modelo. Faltou justamente ênfase em produtividade e educação. Ao mesmo tempo, a tentativa de manutenção de taxas aceleradas de crescimento começava a pressionar a inflação e o balanço de pagamentos, um sinal adicional de esgotamento. No fim do Milagre a incapacidade (ou falta de vontade política) do governo em ajustar a economia após inúmeros choques externos - ao contrário, o governo acelerou investimentos - e a extensão e a intensificação da proteção comercial explicam grande parte de nossa estagnação econômica e queda da produtividade posterior.

As semelhanças com o momento atual não são pequenas: passada a crise econômica que justificou aumentos anticíclicos dos gastos, há grande resistência ao ajuste por parte de vários setores do governo e da sociedade. Há também enorme pressão por medidas protecionistas por parte de grupos que se sentem prejudicados pela concorrência chinesa e pela taxa de câmbio valorizada. Alguns sinais amarelos já são visíveis. A taxa de inflação se aproxima do teto da meta de inflação e, fora os preços administrados, a alta de preços é generalizada e atinge inclusive o setor de serviços. O saldo em conta corrente se reduziu em mais de quatro pontos do PIB, apesar de um ganho de 40% na relação entre preços médios de exportação e importação.

Em boa parte estas tensões espelham desafios fundamentais que se colocam ao país. No topo da lista está a frustrante dificuldade em se aumentar a taxa de investimento do país, que vem evoluindo lentamente para os atuais 18,4% do PIB, apesar dos esforços e subsídios do BNDES. Trata-se talvez da maior frustração econômica do governo Lula, que com bom senso reduziu significativamente o risco político do país, mas assim mesmo não conseguiu mobilizar nossos "espíritos animais". A nosso ver a explicação para este fenômeno está no par ideologia (de raízes nacional desenvolvimentistas) e dificuldades de execução (enraizadas em um Estado loteado e ineficiente).

Além da baixa taxa de investimento, o Brasil vive hoje um início de crise no mercado de trabalho. A crise não é a tradicional e terrível falta de emprego, mas sim a falta de trabalho qualificado, em todas as faixas. Uma comparação com a Coreia do Sul pode ser útil.

Nos últimos 40 anos a Coreia foi de uma renda per capita 30% inferior à nossa a um nível hoje três vezes maior! Isto foi possível porque a Coreia investiu muito mais e educou mais e melhor do que nós. A escolaridade média subiu de 4,3 anos para cerca de 13 anos (igual à americana), enquanto a nossa foi de dois anos para em torno de sete anos. E a qualidade da educação coreana é excelente, enquanto aqui é, na média, sofrível. Uma resposta mais eficaz aqui é urgente, nas três esferas de governo.

O Brasil está, portanto, diante de uma encruzilhada. Do jeito que as coisas vão, parecemos caminhar para uma repetição do modelo nacional desenvolvimentista, mas com uma taxa de investimento inferior à versão original. Em que pese o maior foco atual no social, não custa lembrar que esta opção foi não só excludente socialmente, como gerou uma série de distorções que provocaram a estagnação posterior. Podemos ter alguns anos de vacas gordas, mas estamos fadados a parar longe de completar a convergência para os melhores padrões globais.

Não existe uma única alternativa a este caminho, mas alguns pontos são essenciais. Como bem indica a Coreia, o Brasil precisa investir e educar mais e melhor. O governo tem que promover as reformas necessárias para contribuir com a sua parte, investindo mais e gastando menos, e revalorizando a boa regulação para mobilizar o investimento privado. A promessa da presidente Dilma de aumentar a eficiência do Estado precisa ser cumprida através da ênfase na meritocracia por ela mesmo proposta. O atual cobertor curto no campo macroeconômico (inflação e juros altos, câmbio baixo) requer um ajuste fiscal mais convincente, que aborde com coragem as questões de longo prazo. Além de juros mais baixos, o setor privado precisa de um Custo Brasil menor, de uma estrutura tributária mais racional e de uma infraestrutura melhor, em vez de subsídios que não merece. Desta forma sobrará mais para programas sociais também. Enfim, há muito em jogo, muito a fazer, pouco tempo a perder. Repetir o passado parece-nos a pior das opções.

Pedro Cavalcanti Ferreira, da EPGE-FGV

Arminio Fraga Neto, da Gávea Investimentos

sexta-feira, abril 08, 2011

Novo relatório do mensalão propõe investigação no BB

Novo relatório do mensalão propõe investigação no BB

Polícia vê descontrole nos gastos do Banco do Brasil com publicidade,
apontados como principal fonte do esquema

Dinheiro repassado para agência de operador do esquema foi desviado
para empresas fantasmas

ANDREZA MATAIS
RUBENS VALENTE
DE BRASÍLIA

O relatório final da Polícia Federal sobre a origem do dinheiro do
mensalão aponta total descontrole nos gastos do Banco do Brasil com
publicidade e propõe que um inquérito apure o "incrível poder
discricionário" dos diretores do banco para indicar empresas que são
"agraciadas com recursos públicos".
O relatório confirma que recursos repassados pelo BB foram uma das
principais fontes do mensalão, um esquema montado para compra de apoio
político no Congresso que foi revelado pela Folha em 2005, no primeiro
mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Assinado pelo delegado Luís Zampronha, o relatório afirma que o desvio
de recursos do BB para o esquema "somente seria possível com a
participação ativa de membros da instituição financeira". A Folha teve
acesso à íntegra do relatório da PF.
O documento apresenta as conclusões de um inquérito aberto em 2007,
após a apresentação da denúncia que deu origem ao processo do mensalão
no STF (Supremo Tribunal Federal). A PF entregou o novo relatório em
fevereiro ao Supremo, que o submeteu à análise da Procuradoria-Geral
da República.
Segundo a polícia, entre 2001 e 2005, o BB retirou R$ 151,9 milhões de
sua cota no Fundo Visanet, criado por vários bancos para promover a
bandeira de cartões Visa.
Desse total, R$ 91,9 milhões foram repassados à DNA Propaganda, uma
das agências de publicidade do empresário Marcos Valério -acusado de
ser o principal operador do mensalão.
A polícia concluiu que parte do dinheiro jamais chegou aos
destinatários finais indicados nos documentos apresentados pela
agência e foi desviada por Valério, seus sócios e funcionários.
Outra parte foi destinada a negócios fictícios ou empresas que não
comprovaram a realização dos serviços para os quais foram contratadas.
Entre as 15 empresas que mais receberam recursos do Visanet em 2003,
há empresas que não existiam formalmente na época dos repasses, como a
Carre Airports, que ficou com R$ 1 milhão.
Há casos em que a DNA, por meio de manobras contábeis e bancárias, se
"apropriou" diretamente de recursos destinados a ações de marketing do
BB. Em 2003, a DNA retirou, como "bônus", R$ 579 mil de um contrato de
R$ 2,5 milhões assinado com uma casa de shows.
A PF também encontrou empresas, como a Editora Guia, que aparecem nas
planilhas com mais recursos do que elas dizem ter recebido.
Há, por fim, empresas que, segundo a PF, não apresentaram documentos
que "comprovem a efetiva veiculação de publicidade". O relatório
menciona entre elas a TV Globo, que recebeu R$ 2,8 milhões em 2003
para "publicidade futura".
O fundo Visanet, criado em 2001 e extinto em novembro de 2005, foi
formado por 26 bancos, mas os gastos realizados pela DNA e examinados
pela PF estavam sob responsabilidade do BB.
O então diretor de marketing do BB, Henrique Pizzolato, filiado ao PT,
havia trabalhado na campanha que elegeu o presidente Lula em 2002.
Segundo a PF, ele tinha total autonomia para escolher os beneficiários
dos recursos que administrava.
Segundo a polícia, os valores desviados dos contratos com o BB eram
usados por Valério para abater parcelas de dois empréstimos que ele
tomou nos bancos Rural e BMG para repassar ao PT.

sábado, abril 02, 2011

A VIDA FÁCIL DOS BUROCRATAS DO HUMANISMO Guilherme Fiuza

Não conheço pessoalmente o jornalista Guilherme Fiuza, só de texto. Já
concordei muitas vezes com o que escreveu e discordei outras tantas.
Inegável é que tem um texto de primeira linha. Saber escrever deveria
ser uma obrigação dos jornalistas. Mas quê… O que há de analfabeto de
bom coração na profissão é uma coisa espantosa! Os dias andam tão
miseráveis que basta o sujeito não meter uma vírgula alcoviteira entre
o sujeito e seu verbo, e eu já estou dando "Bom Dia!", já chamo de meu
semelhante, independentemente do que pense. Aliás, costumo prezar a
inteligência do outro, não a concordância com o meu ponto de vista.
Sou tolerante. Mas sigamos.

Num excelente texto, para não variar, Fiuza escreve sobre o caso
Bolsonaro em sua coluna quinzenal na "Época". Os petralhas, inclusive
os da sua revista, deixem o homem em paz! A gente não é amigo, a gente
não conspira, a gente não passa as madrugadas tentando depor o governo
popular, a gente nem se conhece. Segue o seu texto, intitulado
"Bolsonaro e o fuzilamento da direita", o melhor que se escreveu sobre
o assunto até agora.

*
NO BRASIL DE HOJE, COMO SE SABE, NINGUÉM é de direita. Ou melhor: a
direita existe, mas é uma espécie de sujeito oculto, que só aparece
para justificar os heróicos discursos da esquerda - eterna vítima
dela. Lula governou oito anos, promoveu seus companheiros aos mais
altos cargos e salários estatais, fez sua sucessora, e a esquerda
continua oprimida pela elite burguesa. É de dar pena. Nessa doce
ditadura dos coitados, é preciso cuidado com o que se fala. Os
coitados são muito suscetíveis. Foi assim que o deputado federal Jair
Bolsonaro foi parar no paredão.

Bolsonaro é filiado ao Partido Progressista, mas é uma espécie de
reacionário assumido. Defende abertamente as bandeiras da direita -
que, como dito acima, não existem mais. Portanto, Bolsonaro não
existe. Mas fala - e esse é seu grande crime. Depois da polêmica
entrevista do deputado ao CQC, da TV Bandeirantes, o líder do
programa, Marcelo Tas, recebeu e-mails de telespectadores revoltados.
Parte deles protestava contra o próprio Tas, por ter dado voz a Jair
Bolsonaro. Na Constituição dos politicamente corretos - assim como nas
militares -, liberdade de expressão tem limite.

A grande barbaridade dita por Bolsonaro no CQC, em resposta à cantora
Preta Gil, foi que um filho seu não se casaria com uma negra, por não
ser promíscuo. Uma declaração tão absurda que o próprio Marcelo Tas
cogitou, em seguida, que o deputado não tivesse entendido a pergunta.
Foi exatamente o que Bolsonaro afirmou no dia seguinte. Estava falando
sobre homossexualismo e não percebeu que a questão era sobre racismo:
"A resposta não bate com a pergunta", disse o deputado.

Se Jair Bolsonaro é ou não é racista, não é essa polêmica que vai
esclarecer. No CQC, pelo menos, ele não disparou deliberadamente
contra os negros. Estava falando de promiscuidade, porque seu alvo era
o homossexualismo. O conceito do deputado sobre os gays é, como a
maioria de seus conceitos, reacionário. A pergunta é: por que ele não
tem o direito de expressá-lo?

Bolsonaro nem sequer pregou a intolerância aos gays. Disse inclusive
que eles são respeitados nas Forças Armadas. O que fez foi relacionar
o homossexualismo aos "maus costumes", dizendo que filhos com "boa
educação" não se tornam gays. É um ponto de vista preconceituoso, além
de tacanho, mas é o que ele pensa. Seria saudável que os gays, com seu
humor crítico e habitualmente ferino, fossem proibidos de fustigar a
truculência dos militares? A entrevista também passou pelo tema das
cotas raciais. Jair Bolsonaro declarou o seguinte: "Eu não entraria
num avião pilotado por um cotista. Nem aceitaria ser operado por um
médico cotista".

É a resposta de um reacionário, um dinossauro da direita, prescrito
pelas modernas ideologias progressistas e abominado por sua lealdade
ao regime militar. Mas é uma boa resposta. E agora? Agora o Brasil
bonzinho vai fazer o de sempre: passar ao largo do debate e
choramingar contra a direita. Eis um caminho de risco zero. Processar
Bolsonaro, o vilão de plantão, é vida fácil para os burocratas do
humanismo. No reinado do filho do Brasil, até o nosso Delúbio, com a
boca na botija do mensalão, gritou que aquilo era uma conspiração da
direita contra o governo popular. O filão é inesgotável.

Cutucar o conservadorismo destrambelhado de Bolsonaro é atração
garantida. Mas censurá-lo em seguida não fica bem. Parece até coisa
dos antepassados políticos dele. A metralhadora giratória do capitão
dispara absurdos, mas não está calibrada para fazer média com as
minorias - e isso é raro hoje em dia. De mais a mais, se manifestantes
negros podem tentar barrar um bloco carnavalesco que homenageia
Monteiro Lobato, por que um deputado de direita não pode ser contra o
orgulho gay e as cotas raciais? Vai ver o preconceito também virou
monopólio da esquerda.

Por Reinaldo Azevedo CLICAR PARA LER ORIGINAL

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